Georg von Anhalt e a Adoração Eucarística Luterana

Vez outra me perguntam sobre a adoração eucarística no luteranismo. Uma vez que cremos na presença real (realiter, substantialiter) do corpo e sangue de Cristo no Sacramento, não é óbvio que esta presença ali deve ser adorada? Mas, uma vez que também cremos na presença substancial do pão e do vinho, não seria perigoso cometer um ato de idolatria, adorando parte da criação? São perguntas honestas e que devem ser levadas em consideração.

Essas perguntas já foram respondidas em extensos tratados luteranos, que podem ser facilmente encontrados no google. No entanto, hoje, em minha devoção familiar na Ordem das Matinas, me deparei com um texto extremamente pastoral e piedoso escrito pelo Santo Confessor e Reformador Georg III, o piedoso príncipe de Anhalt-Dessau, que muito contribuiu para a causa da reforma nos idos do XVI. Reproduzo na íntegra a tradução de meu próprio punho:

Embora certamente haja essa distinção (como Lutero explica) entre Cristo assentado acima no céu, Cristo no Sacramento e Cristo no coração dos crentes – pois Ele ascendeu ao céu para ser adorado, e para que se confesse que Ele é Senhor poderoso sobre todas as coisas (Filipenses 2), mas no Sacramento e no coração dos crentes, Ele não está presente para o propósito particular de ser adorado, mas para lidar conosco ali e nos ajudar – no entanto, disso não se segue que Ele não deve ser adorado no Sacramento também. Pois assim como nosso querido Senhor Jesus Cristo nasceu na carne nesse mundo não para ser servido, mas para nos servir e dar a Sua vida como a redenção de muitos (Mateus 21), e Ele não apareceu nesse mundo na pobre forma de um servo principalmente para ser adorado, ainda que graciosamente tenha aceitado a honra externa demonstrada a ele pelos crentes; Ele foi adorado pelas pessoas mesmo quando elas não viam nada diante de seus olhos, a não ser um homem pobre e miserável: os sábios do oriente o adoraram na forma de uma pequena criança; os santos anjos o serviram – eles adoraram o Filho do Homem – que, como diz em João 3 – está ao mesmo tempo diante de Nicodemus na terra, e no céu. Portanto, da mesma maneira, embora nosso querido Senhor Jesus Cristo não tenha instituído Sua Santa Ceia para ser visto e adorado, nem por isso é proibido ou deve ser considerado idolatria adorá-lo ali. Pelo contrário, é correto e muito apropriado, quando essa Santa Ceia é realizada de acordo com a instituição de nosso querido Senhor Jesus Cristo, quando as pessoas ali presentes, com toda devoção e reverência, o adoram, o verdadeiro Deus e homem, que está presente nesse venerável Sacramento, não apenas de acordo com Sua divina onipotência, espiritualmente, mas também corporalmente, verdadeiramente e essencialmente, contudo invisivelmente, como aquele que se assenta à destra da Majestade Divina e é exaltado por Deus, e recebeu um nome que é sobre todo nome, e diante do nome de Jesus Cristo, todo joelho no céu e na terra se dobrará, toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus o Pai [Filipenses 2:10-11].

Georg von Anhalt, Des Hochwirdigen Durchleuchten Hochgebornen Fürsten und Herrn/ Herrn Georgen Fürsten zu Anhalt… PRedigten und andere Schrifften/ darinn die Summa Christlicher leer/ trewlich und rein gefasset und erklert ist (Wittenberg: Hans Krafft, 1555), 190; cf. Treasury of Daily Prayer, Concordia Publishing House 2008, p.326.

Palavras finais:

O crente luterano sabe que o Deus-homem está ali corporalmente presente no Sacramento do Altar. Sabedores desta presença inefável, que não experimentamos de nenhum outro modo, é quase impossível que não sejamos levados a adorá-lo ali também. Se por um lado, não damos ênfase aos elementos terrenos (como afirma Santo Irineu) como faz a Igreja de Roma – visto que isto não faz o menor sentido, uma vez que adoramos o elemento celeste e invisível -, por outro lado, não somos displicentes como aqueles que negam a presença real do corpo e sangue de Cristo no Sacramento, e, consequentemente, também não o adoram ali. Isto explica muito do que geralmente se vê numa missa luterana (culto luterano). Geralmente, o crente chega diante do altar e se inclina levemente ao receber cada elemento, alguns se ajoelham para recebê-los, outros ainda até o recebem direto na boca. Feito isto, alguns fazem o sinal da cruz, outros não. Tudo isto é permitido e compatível com a adoração eucarística luterana. Não existem regras aqui! É importante que haja liberdade e entendimento. Acima de tudo, devemos nos lembrar de que estamos na mesa do Rei, e que nesta mesa provamos da comunhão mais íntima que podemos desfrutar com Ele nesta vida!

Georg von Anhalt (1507-1553) foi um príncipe alemão da casa de Ascania e legislador do principado de Anhalt-Dessau. Nobre de destacável interesse pela teologia, estudou em Leipzig, onde mais tarde se destacara como professor, e em 1524 foi ordenado ao sacerdócio. Depois de se dedicar intensamente à exegese e aos Pais da Igreja afim de refutar as “heresias luteranas”, o mesmo se converteu ao luteranismo após a um longo conflito de consciência. A partir da Dieta de Augusburgo (1530), se aliaria publicamente à causa luterana.

Lutero e a Iconografia Evangélica

O que se segue é um excerto de um texto de Lutero contra os radicais iconoclastas. Este excerto foi editado para a 5º sexta-feira de páscoa do lecionário diário do “Treasury of Daily Prayer“, o famoso livro de oração publicado pela Concordia Publishing House.

De acordo com a lei de Moisés nenhuma imagem é proibida, a não ser uma imagem de Deus que seja adorada […]. A esse respeito eu tenho uma passagem poderosa em Lev 26:1, “Não façam ídolos para vocês, nem levantem imagem de escultura nem coluna, nem ponham pedra com figuras esculpidas na terra de vocês, para se inclinarem diante dela; porque eu sou o Senhor, o Deus de vocês” […]. É por conta da adoração que ídolos e pedras com figuras são proibidas […]. Onde elas não são adoradas, pode-se muito bem fazê-las e construí-las.

Temos também um exemplo disso no Antigo Testamento. Pois Josué (Js 24:16) erigiu um monumento em Siquém debaixo de um carvalho, como um testemunho […]. Todavia, porque se tratava de uma pedra de testemunho, e não para adoração, ele não pecou contra o mandamento de Deus. Depois disso, também Samuel (1 Sm 7:12) erigiu uma pedra e a chamou Pedra de Ajuda […] Mas porque nenhuma adoração, mas apenas um memorial era pretendido com isto, ele também não pecou […].

Ninguém é obrigado a quebrar violentamente imagens, mesmo do próprio Deus […]. Todavia, é um dever […] instruir e esclarecer a consciência de que é idolatria adorá-las ou confiar nelas, uma vez que se deve confiar somente em Cristo […]. Imagens para memorial e testemunho, tais como crucifixos e imagens dos santos, devem ser toleradas […]. E não apenas toleradas, mas por conta do memorial e do testemunho, elas são dignas de louvor e honra.

Agora, não exigimos mais do que nos seja permitido reconhecer um crucifixo ou a imagem de um santo como um testemunho, para memorial, como um sinal […] Imagens […] que pintaríamos nas paredes para memorial e melhor compreensão […]. É claro, é muito melhor pintar imagens nas paredes sobre como Deus criou o mundo, como Noé construiu a Arca, e quaisquer outras boas histórias que possam haver, do que pintar coisas mundanas e sem vergonha. Sim, tomara Deus eu pudesse persuadir os ricos e poderosos a permitirem que toda a Bíblia fosse pintada nas casas, dentro e fora delas, de forma que todos pudessem ver. Isto seria uma obra cristã.

Deus deseja que suas obras sejam ouvidas e lidas, especialmente a paixão de Nosso Senhor. Mas é impossível para mim ouvi-la e trazê-la à mente, sem formar imagens mentais em meu coração. Pois, quer eu queira ou não, quando ouço a respeito de Cristo, uma imagem de um homem pendurado numa cruz se forma em meu coração […]. Se não é um pecado, mas sim um bem, ter uma imagem de Cristo no meu coração, por que seria pecado tê-la diante dos meus olhos?

Martin Luther, “Against the Heavenly Prophets” pp.85,87,91,96,99-100 in vol. 40 of Luther’s Works, American Edition, edited by Conrad Bergendoff, copyright C 1958 Augsburg Fortress Pres.

Conclusões

(1) Qualquer tipo de iconoclastia é incompatível com a teologia de Lutero (e da Igreja Luterana). Se uma determinada igreja sente necessidade de alterar qualquer ícone ou imagem no templo, isso deve ser discutido no foro adequado entre a liderança eclesiástica. Ninguém jamais deve sair por aí quebrando ícones e imagens, muito menos dos santos, de Maria Santíssima e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(2) Deve-se prestar certa reverência e honra para com as imagens dos santos e de Nosso Senhor, sem contudo adorá-las. E a lógica é muito simples: Trata-se de uma imagem de uma pessoa. É impossível olhar para o retrato de um ente querido e não ser tomado de algum sentimento de amor, carinho ou admiração. É isso que Lutero quer dizer com “dignas de louvor e honra”. Infelizmente, palavras como “reverência”, “louvor”, “honra”, “veneração” hoje em dia estão eivadas de um sentido pejorativo. Isto acontece porque vivemos numa sociedade que destruiu os seus heróis. Mas até uns cem anos atrás, esses termos eram comumente utilizados para descrever o sentimento que devíamos cultivar para com os antepassados e heróis. Algo semelhante acontece na Bíblia, várias vezes. Porque Moisés é ordenado a tirar as sandálias quando está diante da sarça ardente na presença de Deus? Será que existe algo especificamente religioso em estar descalço? É óbvio que não! Mas este era o costume daquele tempo e lugar quando se estava diante de alguém para quem se devia prestar honra e louvor. O mesmo pode ser dito sobre o ato de se ajoelhar. Isto não tem absolutamente nada a ver com idolatria.

(3) Deve-se instruir corretamente a consciência. E aqui o coração importa muito mais do que os atos externos. Isto fica muito evidente nos textos bíblicos citados por Lutero. São relatos de passagens em que homens de Deus praticam o mesmo ato externo dos povos pagãos vizinhos. Eles constroem pedras, pintam-nas com figuras, dão nomes a elas, todas práticas típicas do Oriente próximo. Veja o caso de 1 Sm 7:12. Samuel dá um nome para uma pedra, chamando-a de Ebenézer. Ele está personificando um objeto completamente inanimado. Isto não seria idolatria? Parece que não. Em seu coração, em momento algum ele cometeu idolatria. O caso de Josué 24:26 é ainda mais emblemático: “Eis que esta pedra nos será testemunha, pois ouviu todas as palavras que o Senhor nos tem dito“. Mas pedras não podem nos ouvir! Será que Josué não sabia disso? É claro que sabia. Josué foi um homem santo, um grande herói da Fé. Mas essas pedras eram símbolos, memoriais, sinais para a fé do povo de Deus. Da mesma forma que hoje em nossas igrejas, as imagens dos santos são símbolos. Olhamos para uma imagem da Santa Virgem e isto nos é símbolo da perfeita recepção de Cristo que a Igreja deve imitar. Olhamos para uma imagem de São José, e isto nos é um memorial de exemplo de nobreza que nós homens devemos seguir. Tudo isso pode ser feito sem que pequemos contra os mandamentos de Deus.

(4) No final do texto, Lutero expressa o ethos da Iconografia Evangélica (Luterana). Nós Luteranos amamos (e devemos amar) o uso correto das imagens e dos ícones cristãos. Alguém pode dizer “mas isto é adiáfora!”. Sim, é verdade. Mas não devemos confundir o adiáforo com aquilo que é absolutamente indiferente. O Ano da Igreja também é um adiáforo, mas você nunca encontrará uma Igreja Luterana que não siga o Ano da Igreja. Pois nós luteranos sabemos que esta é a melhor forma que a Igreja de Cristo encontrou até hoje para celebrar todos os importantes eventos da história de Jesus Cristo na salvação dos homens. E sabemos também que assim que a Igreja abandona o calendário litúrgico, ela começa a seguir o ritmo do mundo, e não mais o ritmo da graça. Trocam-se as festas cristãs pelas festas mundanas, e abrimos as portas para a secularização do Sagrado. O mesmo acontece com a arte sacra – como o próprio Lutero sabia. Assim que Cristo deixa a arte, a arte deixa o Cristo e também se seculariza. Daí vemos hoje igrejas com arquiteturas tão vazias e sem sentido, igrejas mais parecidas com shopping centers e supermercados. Também não é coincidência que algumas igrejas protestantes do interior de Minas Gerais tenham sido construídas por maçons que deixaram suas marcas aqui e ali.

Por tudo isso, compartilho do mesmo sentimento de Lutero, e também desejo intensamente que mais uma vez possamos encher nossas capelas e casas com crucifixos e imagens de todos os grandes santos da história da Igreja. “Isto seria uma obra cristã“.

FINIS

Os Três Tipos de Justiça: Lutero e Melanchthon (Dr. Joel Biermann)

O texto que se segue foi extraído do livro A Case for Character: Towards a Lutheran Virtue Ethics de Joel D. Biermann, teólogo contemporâneo que ocupa a cátedra de Teologia Sistemática do Concordia Seminary em St. Louis. Inspirado no grandioso After Virtue de Alasdair MacIntyre, Dr. Biermann defende que não há qualquer contradição entre a teologia luterana com seu sola fide e a ética das virtudes com seu incentivo à formação do caráter virtuoso. Mais do que isso, o autor oferece uma estrutura teorética legitimamente luterana que nos ajuda a entender como é possível preservar a centralidade do Evangelho na santificação, sem que tenhamos que cair numa ética que se reduza à motivação (gratidão pelo Evangelho). Biermann nos alerta para o fato de que a sociedade ocidental não sofre mais opressão de nenhuma estrutura religiosa. O pêndulo do pecado estrutural agora está direcionado para a libertinagem e a devassidão, e, infelizmente, muitos teólogos e pastores são completamente incapazes de falar sobre virtude, ética, progresso, santificação, etc.

Felizmente, tem surgido um interesse renovado na Ética das Virtudes, que se consagrou como a ética ocidental, a ética aristotélico-tomista. E no que diz respeito à Aristóteles, Dr. Joel Biermann é categórico em afirmar que sua ética é aprovada pela Confissão de Augsburgo, pela Apologia, e pelas obras dos principais pais da tradição luterana. Sendo assim, é necessário que nos dispamos de qualquer pré-conceito em relação ao uso da filosofia aristotélica per se.

Segue-se o texto:

Os Três Tipos de Justiça: Lutero e Melanchthon

Poder-se-ia fazer o esforço de distinguir essas duas variedades de “dois tipos de justiça”, chamando uma de “dois tipos de justiça de Lutero” e a outra de “dois tipos de justiça de Melanchthon”. No entanto, isto não seria muito preciso, visto que, às vezes, uma pode operar dentro da outra. Uma maneira melhor de esclarecer o assunto pode ser impor uma sistematização mais precisa e falar de três tipos de justiça. Convenientemente, Lutero faz exatamente isso num sermão em 1518: “Três Tipos de Justiça”. Nesse sermão, o reformador une três tipos de pecado (criminal, original e atual) com três respectivos tipos de justiça (externa, alheia e ativa). A primeira categoria, a justiça externa, não tem nada a ver com os cristãos: “Em segundo lugar, ela não serve a Deus, mas a si mesma; não é a justiça dos filhos, mas a dos escravos; não é uma característica particular dos cristãos, mas a dos judeus e dos gentios; nem os cristãos serão exortados a ela, pois ela resulta do temor da punição ou do amor do que é conveniente para si mesmo, e não do amor de Deus [50]”. A primeira justiça é o tipo que se encontra no mundo civil, e que opera sem preocupação ou relação com o Deus Triuno. Por outro lado, os dois segundos tipos de justiça são estritamente para os cristãos. Lutero liga o segundo tipo de justiça com o pecado original ou essencial, e a chama propriamente de justiça essencial, original ou alheia [51]. Ele descreve os aspectos únicos dessa justiça: “Essa [justiça] se torna nossa por meio da fé […] Essa [justiça] é imputada por meio do Batismo, caracteristicamente como o Evangelho anuncia, e não é a justiça da lei, mas a justiça da graça” [52].

Em seguida, Lutero expõe o terceiro tipo de justiça no seu sermão, a justiça que corresponde ao pecado atual: “A justiça contra esse [pecado atual] é atual, fluindo da justiça da fé, essencial [ou alheia]” [53]. Assim, o terceiro tipo de justiça tem sua fonte no segundo tipo de justiça, e descreve o crescimento do crente na santidade: “Pois essa terceira justiça é buscada por nenhum outro motivo senão o de que o pecado original seja vencido e que o corpo do pecado seja destruído” [54]. O terceiro tipo de justiça, a justiça atual, flui da fé característica da segunda justiça, e assim, é única dos crentes, uma vez que somente eles possuem fé. Porque Lutero mais tarde defendeu dois tipos de justiça ao invés de três é matéria de especulação. No entanto, a explicação poderia ser simplesmente por conta da necessidade do momento. Falando aos cristãos, Lutero pode ter considerado desnecessário discutir o primeiro tipo de justiça, em seu pensamento, talvez irrelevante. É interessante, entretanto, notar que em sua introdução à epístola aos Gálatas, com sua divisão entre justiça passiva e ativa, Lutero primeiro reconhece a existência de “muitos tipos” de justiça [55]. Poder-se-ia facilmente agrupar os dois primeiros exemplos de sua lista (justiça política e justiça cerimonial) dentro da primeira categoria da divisão tripla do seu sermão de 1518. É possível então detectar uma divisão tripla das justiças mesmo em sua aprovação mais explícita de uma divisão dupla.

Treze anos mais tarde, foi Melanchthon quem estabeleceu uma distinção similar dos três tipos de justiça, em sua disputa “Somos Justificados pela Fé e não pelo Amor”: “Existem três tipos de justiça. A primeira é aquela derivada da razão. A segunda é aquela que se conforma com a lei de Deus. A terceira é aquela que o Evangelho promete”[56]. Antes de considerar as definições mais completas de cada tipo de justiça, deve-se notar que nem a terminologia de Melanchthon e nem a sua ordem necessariamente coincidem com a de Lutero no seu sermão de 1518. Melanchthon elabora sobre cada tipo de justiça conforme a disputa se desenvolve. “A justiça da razão”, ele escreve, “é a justiça das obras, e a razão a produz”[57]. Enquanto é certo que as pessoas podem entender a justiça da razão, também é verdade que elas jamais poderiam compreender a justiça da lei que “consiste no amor para com Deus e o próximo “[58]. Por sua vez, a justiça do evangelho é aquela que justifica: “É certo que não somos justificados nem pela razão e nem pela lei, mas pelo Evangelho”[59].

Nessa disputa, Melanchthon reconhece uma distinção entre a justiça da razão e a justiça da lei. A segunda depende da justiça do evangelho:

A promessa é recebida pela fé. Por esta razão nós somos primeiro justificados pela fé, pela qual recebemos a promessa da reconciliação pela fé. Daí em diante guardamos a lei. Entretanto, uma vez que nascemos de novo pela fé, e recebemos o Espírito Santo, a justiça da lei está presente em nós, ou seja, o amor a Deus e ao próximo, o temor de Deus, a obediência às autoridades governamentais e aos pais, a paciência e tantas outras virtudes semelhantes.

Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 142 (thesis 17 & 19); Haussleiter, “Melanchthons,” 253.

A justiça da lei excede a da razão, no que ela também inclui o amor a Deus e maiores padrões de obediência. A virtude cristã da humildade ou a regra do amor pelos inimigos são ambos bons exemplos de padrões decorrentes da lei, que superam o que se pode esperar de um padrão fundamentado apenas na razão. E enquanto Melanchthon relaciona a justiça da lei com a justiça do evangelho, ao mesmo tempo ele mantém uma rigorosa distinção entre elas:

Tiago ensina corretamente, “somos justificados pela fé e pelas obras”, pois as obras justificam de acordo com a justiça da lei, que certamente deve seguir a fé. No entanto, essa justiça da lei não é justiça aos olhos de Deus, exceto por causa da fé.

E as obras resultantes, porque elas agradam a Deus por causa da fé, são também meritórias, não para a justiça da vida eterna, mas para outras bençãos do corpo e da alma.

Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 143 (thesis 33 & 34; emphasis added); Haussleiter, “Melanchthons,” 254.

A diferença está baseada no reconhecimento dos diferentes reinos dentro dos quais os cristãos vivem: coram Deo e coram mundo. A justiça da lei preocupa-se especialmente com a vida de um cristão em relação às realidades coram mundo.

Lutero e Melanchthon, ambos, cada um ao seu modo, trabalham para criar uma separação absoluta entre a justiça da fé, que justifica diante de Deus, e outros tipos de justiça, que interessam às realidades concretas do viver no reino da criação. Ambos os reformadores também dão o passo adicional de cuidadosamente distinguir dois tipos de justiça coram mundo: aquela que é alcançada pelos pagãos buscando viver corretamente diante dos outros, e a outra, que se manifesta naqueles que são justificados por Cristo, e que pela fé vivem de acordo com os ditames da lei revelada de Deus. Usando esse rico ensino da teologia da Reforma como um fundamento, é tempo de retornar ao desafio de construir uma estrutura funcional que irá permitir um ensino robusto sobre ética – incluindo a habituação intencional das virtudes e a resultante formação de caráter.

Dr. Joel Biermann, A Case for Character: Towards a Lutheran Virtue Ethics, Fortress Press 2014, p.122-125.

Conclusão

Eu sei que o texto acima parece difícil num primeiro momento (pare, volte e releia quantas vezes for preciso), mas ele está profundamente alicerçado na tradição cristã ocidental no todo, e na tradição luterana mais especificamente. Os Três Tipos de Justiça (Biermann propõe os termos governante, justificante e conformante) se alinham com os Três Usos da Lei (uso civil, uso cristológico e uso pedagógico). Percebe como as coisas se encaixam perfeitamente? Mas não para por aqui. O Três Tipos de Justiça também estão estreitamente relacionados com os Três Artigos do Credo: No primeiro artigo nós confessamos o Deus Criador que governa todo o mundo pela sua Lei, por meio da qual ele faz com que todos os homens vivam de um jeito ou de outro nessa justiça governante (Rm 2:14). No segundo artigo, nós confessamos o Deus Redentor, Jesus Cristo, o único que pode nos conceder a justiça justificante (1Pe 3:18), pois Ele é o único que cumpriu toda a Lei com todo seu rigor; E por último, confessamos igualmente o Deus Espírito Santificador, que usa a sua Lei para nos conformar à imagem de Cristo (Hb 8:10; Rm 8:10).

Infelizmente, muitos luteranos hoje só conseguem enxergar a Lei do primeiro e do segundo artigo do Credo. Se esquecem de que o Espírito Santo nos santifica também por meio da sua Lei, nos ensinando, nos instruindo e nos importunando para que deixemos toda sorte de vícios imundos que nos impedem de fazer progresso vida cristã.

Por tudo isso, é claro e evidente que há espaço para uma ética das virtudes na tradição luterana. Há espaço para trabalharmos mais na formação do caráter virtuoso em nossos filhos, amigos e paroquianos de nossas congregações. Devemos nos atentar parao fato de que há somente dois caminhos diante de nós: o caminho do florescimento humano e a reconstrução do caráter do homem ocidental que se espelha em Cristo, ou o caminho trilhado por instituições religiosas como a ELCA, que em 2016 chegou a realizar uma celebração religiosa para comemorar a mudança de nome de um membro transgênero.

Deixo aqui uma lista de livros luteranos antigos e contemporâneos que abordam direta ou indiretamente este assunto de maneira bíblica e confessional:

1 – Jordan Cooper, Christification: A Lutheran Approach to Theosis.

2 – Jordan Cooper, Hands of Faith: A Historical and Theological Study of the Two Kinds of Righteousness in Lutheran Thought.

3 – Jordan Cooper, Lex Aeterna: A Defense of the Orthodox Lutheran Doctrine of God’s Law and Critique of Gerhard Forde.

4 – Revere Franklin Weidner, Pneumatology, or the Doctrine of the Work of the Holy Spirit.

5 – Revere Franklin Weidner, A System of Christian Ethics (essa obra é bem difícil de achar, mas é simplesmente ímpar. Mesmo entre os católicos romanos, que sempre desenvolveram o tema de maneira muito mais exaustiva, não há nenhuma obra do século XVIII em diante que se iguale a esta. Para que o leitor tenha uma ideia, Weidner antecipa discussões atuais em política, psicologia, matrimônio, entre outros assuntos).

6 – Johann Gerhard, Schola Pietatis (3 vols).

FINIS

[50] WA 2:43 (as traduções desse sermão são do próprio autor)

[51] Ibid., 44.

[52] Ibid., 45.

[53] Ibid.

[54] Ibid., 47.

[55] LW 26:4

[56] Robert Kolb and James A. Nestingen, eds., Sources and Contexts of The Book of Concord (Minneapolis: Fortress Press, 2001), 141 (thesis 6); Johannes Haussleiter, ed., “Melanchthons loci praecipui und Thessen über die Rechtfertigung aus dem Jahre 1531,” in Abhandlungen Alexander von Oettingen zum siebenzigsten Geburtstag gewidmet von Freunden und Schülern (Munich:Beck, 1898), 252.

[57] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 10); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.

[58] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 13); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.

[59] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 7); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.