A Influência Anabatista na Tradição Reformada

Profetas celestiais, entusiastas, radicais, anabatistas, catabatistas, e por aí vai. A lista de apelidos pejorativos que essa grupo ganha desde a Reforma é extensa. Apesar de sua heterogeneidade e falta de coesão dogmática interna, eles foram perseguidos por católicos romanos, luteranos, reformados (incluindo batistas), pela Igreja da Inglaterra e até mesmo por Oliver Cromwell.

O que todos eles tinham em comum? (1) Uma compreensão simbolista dos sacramentos. Consequentemente, uma visão mais baixa dos sacramentos. No anabatismo, os sacramentos não são essenciais; (2) O credobatismo, ou seja, o batismo apenas de crentes professos; e (3) a prática de rebatizar as pessoas que foram batizadas na sua infância.

Eu poderia acrescentar o antinomianismo como uma quarta característica do grupo, mas hoje sabemos que nem todos anabatistas eram antinomianistas. Pelo contrário, muitos chegaram a aplicar a totalidade da lei mosaica em suas comunidades.

O Diálogo entre Reformados e Anabatistas

É importante que tenhamos em mente que, ao contrário do que houve na tradição luterana, onde o anabatismo foi rechaçado desde o início – a tradição reformada já nasce com um diálogo “às escondidas” com os anabatistas. Cito dois exemplos: (1) Martin Bucer, que chegou a visitar diversas comunidades anabatistas menos radicais, e não somente isso, mas também chegou a propor um acordo de paz e comunhão, desde que eles deixassem de rebatizar as pessoas. Ou seja, eles poderiam continuar praticando apenas o batismo de crentes professos, desde que também aceitassem o batismo daqueles que foram batizados em sua infância. Isso está documentado por Thomas Schirrmacher no livro Martin Bucer: O Defensor do Amor. (2) Zwingli, que em determinado momento chegou a ser convencido do credobatismo, e logo depois voltou atrás.

O leitor mais atento e estudioso pode fazer o seguinte contraponto: tanto Martin Bucer quanto Zwingli são duas figuras singulares na Tradição Reformada, e esposaram de opiniões teológicas que não adquiriam status confessional. E isso de fato é verdade. No entanto, ambos foram extremamente influentes na tradição reformada.

Anabatistas e Reformados: O grande ponto em comum

Mais importante que os diálogos travados por Bucer e Zwingli com os anabatistas, é o princípio teológico originalmente anabatista, e que influenciou profundamente a tradição reformada como um todo. Falo do simbolismo e todas as suas implicações na relação espiritualidade-sacramentos.

Quid est baptismus? Essa foi a pergunta que separou Lutero dos anabatistas, de Karlstadt e Zwingli, e posteriormente dos reformados.

Lutero estava de mãos dadas com o consenso apostólico da Igreja, de que o batismo opera regeneração e concede o perdão dos pecados. Tanto é que a Igreja Católica Romana da época aceitou de bom agrado o artigo IX da Confissão de Augsburgo, que trata do batismo.

Lutero e seus correligionários definiam o batismo em termos de “sit necessarius ad salutem” (CA, IX). Lutero chega a firmar que “Cristo não é somente um componente do batismo, mas a sua própria essência” (CMa IV.31) e que “foi ordenado séria e gravemente que devemos nos batizar; do contrário, não seremos salvos” (CMa IV.6). Essa é uma visão elevada dos sacramentos.

Mas o que dizia Zwingli? “De fato, creio e sei com segurança que todos os sacramentos estão tão longe de conceder graça que nem mesmo a oferecem ou a distribuem“. E quanto a Calvino? “um sacramento não é mais que um testemunho externo da bondade divina para conosco, um testemunho que representa a graça espiritual com um sinal visível“. Por sua vez, Beza afirma “De onde vem a eficácia do sacramento? Em resumo, da operação do Espírito Santo, não do sinal, exceto na medida em que nossos sentidos internos sejam movidos por aqueles objetos externos” [1].

Vejam que para os Reformados, assim como para os batistas, o valor do batismo está sobretudo no símbolo do compromisso de Deus para com o crente ou do crente para com Deus, e, assim, tem mais sentido para os adultos do que para as crianças. Era inevitável que, uma vez assumido esse pressuposto anabatista, mais cedo ou mais tarde o credobatismo surgisse de dentro da tradição reformada. É por isso que teólogos batistas como Matthew Bingham, Richard Barcellos e James Renihan estão corretos em afirmar que batistas são reformados. E são mesmo. É por isso que hoje existem comunidades reformadas que praticam tanto o pedobatismo quanto o credobatismo. Mas essa idéia não é nova. Ela já havia sido proposta por Bucer lá atrás, em seus diálogos com os anabatistas. Isso faz algum sentido!? É claro que sim! Substancialmente, batistas e pedobatistas reformados esposam a mesmíssima visão sobre os sacramentos. Trata-se de um sinal que só concede graça na medida em que é racionalmente compreendido. É verdade que na primeira edição das Institutas, Calvino ainda esposa uma opinião ambígua a respeito da regeneração batismal, e também parecia seguir o entendimento luterano da fides infantum quando diz “Portanto, a opinião permanece firme, que nenhuma pessoa é salva exceto pela fé, sejam crianças ou adultos. Por essa razão, o batismo também se aplica corretamente aos infantes que possuem fé em comum com os adultos” [2]; no entanto, já na edição de 1559 ele assume de vez o princípio simbolista.

Seria exagero da minha parte dizer que o princípio simbolista fez com que a tradição reformada deixasse de ver os sacramentos como essenciais? Na verdade, são os próprios reformados que vêm afirmando isso com atitudes e palavras desde o século XVI. Por exemplo, Lutero confronta Karlstadt, Zwingli e Ecolampádio em seu livro “Da Ceia do Senhor” com o fato de nenhum dos três concordarem sobre o significado das palavras “Isto é o meu corpo”. Eles estavam unidos apenas em protestar contra o significado mais natural e simples das palavras, mas eram incapazes de apresentar uma concórdia sobre o assunto. E ainda hoje, os reformados tratam dos sacramentos como assunto de pouca importância. Isso se vê pelo fato de a Fraternidade Reformada Mundial aceitar de bom grado em seu meio a posição memorialista. Por fim, Wayne Grudem, teólogo contemporâneo famoso no meio reformado, afirma “Os sacramentos para os Reformados são adiáfora, e as diferenças quanto a sua administração não podem separar os cristãos entre si. Por isso, ser membro de outra denominação e a subscrição a outra confissão não são obstáculos para receber a santa comunhão.” [3]. Qual é a justificativa que Wayne Grudem dá para a comunhão aberta entre pessoas que entendem o sacramento de diferentes maneiras? Ele diz que os sacramentos são ADIÁFORA. Isso mesmo, adiáfora, termo teológico utilizado na reforma para designar costumes e práticas edificantes, mas que não eram absolutamente necessárias no culto cristão. Qualquer que seja o sentido pretendido por Wayne Grudem aqui, uma coisa é clara: assim como os anabatistas, os reformados não dão a mesma importância que a Igreja sempre deu aos sacramentos até o século XVI.

Aplicando os pressupostos de R. Scott Clark

No livro “On Being Reformed” editado por Crawford Gribben, e escrito por Matthew C. Bingham, Chris Caughey, R. Scott Clark, Gribben e D.G. Hart – Clark afirma que Batistas Particulares e seus heredeiros (Batistas que confessam a Confissão de Fé de Londres de 1689) não são reformados. Discutir a tese de Clark não é meu objetivo aqui, mas podemos resumi-la da seguinte forma: mesmo que os batistas particulares tenham confessado estar de acordo com a essência da religião cristã reformada, e tenham se escusado de qualquer ligação com os anabatistas, eles ainda eram herdeiros dos anabatistas, pelo fato de que a sua teologia do pacto era fundamentalmente anabatista. É o que Clark quer dizer quando escreve “de uma maneira muito significativa […] os Batistas Particulares concordavam com os Anabatistas, sobre a natureza da aliança da graça e o batismo.” Em outro lugar ele acrescenta “Em contrate com os Batistas Particulares, o consenso reformado sobre o batismo era um reflexo do consenso reformado sobre a natureza da aliança da graça. [4]”

O meu ponto aqui é que Clark está parcialmente correto. Por que apenas parcialmente? Ele está correto, pois realmente existe uma semelhança entre a teologia dos batistas particulares e a dos anabatistas, semelhança essa rejeitada pelo mainstream reformado da época (nem todos os reformados, é bom que isso seja dito!). No entanto, Clark falha em perceber que a própria ideia de batismo como símbolo (que depende da compreensão racional para conceder graça) também é originalmente anabatista com todas as letras. E da mesma forma como Clark cita as confissões reformadas para provar que o consenso reformado rejeita a teologia pactual dos batistas particulares como anabatista, nós também podemos citar os escritos de Lutero e o Livro de Concórdia que rejeitam o simbolismo dos reformados como uma teologia anabatista. Quando as refutações luteranas foram escritas, ainda nem havia uma “tradição reformada”. Como o próprio Clark reconhece, as igrejas luteranas por vezes eram chamadas de “igrejas reformadas”. Por exemplo, a Declaração Sólida da Fórmula de Concórdia, tratando dos ARTIGOS ERRÔNEOS DOS ANABATISTAS, rejeita o seguinte ensino: “Que os filhos dos cristãos, porque nasceram de pais cristãos e crentes, são santos e filhos de Deus, mesmo sem o batismo e antes dele.” (FC DS XII, 13). Veja o leitor, que a Fórmula de Concórdia rejeita esse ensino anabatista, que mais tarde seria incorporado na tradição reformada. Nós luteranos rejeitamos esse ensino, pois sabemos que “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Co 15:50) e, portanto, nossos filhos precisam “nascer da água e do Espírito” (Jo 3:6), ou seja, eles precisam do batismo.

Por tudo isso, é evidente que a diferença que há entre batistas particulares e o mainstream reformado é uma diferença de grau, e não de tipo. Enquanto um grupo adota apenas uma das três características marcantes dos anabatistas (o simbolismo), o outro adota todas as três (simbolismo, credobatismo e rebatismo). Mas veja o leitor, que o fundamento de tudo isso é o simbolismo. O Simbolismo leva ao credobatismo, que, por sua vez, leva ao rebatismo.

Conclusão

O leitor não precisa concordar comigo, óbvio! Mas é necessário reconhecer que certas tradições são “promíscuas” no sentido de que elas se misturam. Como Matthew Bingham afirma, as relações entre os grupos religiosos são “fluidas e dinâmicas”. Eu penso que esse seja o caso da tradição reformada, mas me concedo o direito de estar errado.

FINIS

* CA: Confissão de Augsburgo,**CMa: Catecismo Maior

[1] cf. Johann Gerhaard, Loci Theologici, vol.4, Ed. Eduard Preuss, p.146 [18.23]

[2] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, Editora Fiel, Ed. Kindle, posição 2864 de 6194.

[3] Wayne Grudem, Systematic Theology, Zondervan Publishing House 1997, p.982-83.

[4] R. Scott Clark, in On Being Reformed, Pelgrave Pivot 2019, p.22

Martinho Lutero e a Pena Capital

Volta e meia esse assunto nem tão interessante reaparece no meio acadêmico-teológico e até ganha certa atenção das mídias. Recentemente o tema foi revisitado quando o Papa Francisco atacou o código penal norte-americano, que aprova e aplica a pena capital em vários de seus estados.

O fato é que Bergóglio alterou o próprio Catecismo da Igreja Católica Romana no que diz respeito à pena capital, numa espécie de mudança paradigmática de seu papado dentro da instituição.

Graças a Deus, nós luteranos não temos nenhum Papa, e também não mudamos de opinião sempre que um novo bispo surge em nosso meio. No entanto, eu gostaria de pensar que seguimos concordando com a opinião do Bem-Aventurado Doutor Martinho Lutero. Não por ser sua opinião, afinal discordamos de algumas delas, mas porque nesse assunto ele foi o mais fiel possível ao texto bíblico.

Veja o que o Dr. Lutero comenta sobre o texto de Gênesis 9:6a, “Todo aquele que derramar sangue humano, terá o seu [próprio] sangue derramado pelo ser humano.“:

Nessa passagem, porém, o Senhor instituiu uma nova lei e quer que os homicidas sejam mortos pelos seres humanos. Isso não era usual no mundo até então, pois Deus havia reservado qualquer julgamento para si mesmo. […] Aqui, no entanto, ele compartilha seu poder com os seres humanos e concede-lhes o direito sobre a vida e a morte entre eles, contanto que alguém seja culpado de derramar sangue. Quem não tem o direito de matar outrem, mas, mesmo assim o mata, a este Deus não submete somente a seu julgamento, mas também à espada do ser humano. Por isso mesmo se uma pessoa [delinquente] é morta, mesmo que seja pela espada de outra, diz-se corretamente que ela foi morta por Deus. Se não fosse por esse mandamento divino, não seria lícito matar o homicida, como não era lícito antes do dilúvio.

Aqui está, portanto, a fonte da qual procede todo o direito civil e o direito dos povos. Pois se Deus concede ao ser humano o poder sobre a vida e a morte, certamente também concede o direito sobre o que é menor, como os bens, a família, a esposa, os filhos, os servos e os campos. Deus quer que tudo isso esteja sujeito ao poder de determinadas pessoas, para que punam os culpados.

Portanto, esse texto é extraordinário e digno de ser considerado, pois [nele] Deus institui o magistrado e lhe dá a espada na mão para que restrinja a indisciplina, afim de que a violência e outros pecados não avancem indefinidamente. Se Deus não tivesse conferido esse poder divino aos seres humanos, que tipo de vida, pergunto, estaríamos levando? […] Com essa cerca e esses muros, Deus como que protegeu nossa vida e nossa propriedade.

Dr. Martinho Lutero, Preleção sobre Gênesis, Obras Selecionadas vol.12, CIL, p.329-30.

No que se baseia o argumento de Lutero?

  1. Na força do texto bíblico. O Senhor ordena claramente que todo homicida seja morto.
  2. Na teologia da Aliança Noética, que é vista por Lutero e outros importantes teólogos da patrística como um modelo para a organização social de todas as nações.
  3. No conceito de justiça coram mundo (dê uma lida no nosso último artigo). Se por um lado, a nossa justiça diante de Deus só pode ser encontrada em Cristo, diante dos homens ainda vigora a lógica da justiça humana. Se roubamos, temos de restituir com indenização (Êx 22,1); se não trabalhamos, também não devemos comer (2 Ts 3,10); e se matamos, perdemos o direito de viver (Gn 9,6).
  4. Na experiência comum à todas as nações, a qual nos ensina que sempre que a pena capital é abolida, a violência cresce exponencialmente.

Por tudo isso eu penso que nesse assunto nós luteranos devemos prosseguir concordando com Lutero, que seguia de perto os Pais da Igreja (vide os comentários da patrística sobre Gênesis 9). Devemos mais uma vez nos afastar de opiniões revolucionárias de Papas.

FINIS

Como Lutero me ajudou a entender a Epístola de S. Tiago

Todos os comentaristas da Epístola de São Tiago são unânimes em dizer que o objetivo do autor é estimular as boas obras nos crentes, sobretudo o amor. O assunto desta carta não é justificação, não é salvação. Isto é claro e evidente. Mesmo assim, os versos 14-26 do capítulo 2 sempre intrigaram boa parte do protestantismo.

Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou […] Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.

Epístola de São Tiago 2: 21, 22, 24.

Antes de mais nada é necessário dizer que nenhum luterano confessional têm problemas em confessar e dizer essas mesmas palavras, desde que entendidas corretamente – da mesma forma que as palavras “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” (Rm 3:28) também precisam ser entendidas de maneira correta.

É necessário reconhecer a complexidade de ambos os textos e resistir ao ímpeto primário de fazê-los dizer o que eles não dizem. É necessário também reconhecer que a maioria dos exegetas protestantes cometem esse erro em Tiago, da mesma forma como os exegetas católicos romanos erram em Romanos. Quando Reformado, eu tive a infeliz frustração de procurar em vão uma resposta conciliadora em exegetas como João Calvino, Turretini, John Owen, Bavinck, Berkhof, Carson, etc. E mesmo depois de me converter ao luteranismo, também me frustrei com muitas respostas de teólogos contemporâneos. Ironicamente, foi na pena de Lutero, o Lutero que brigou com a Epístola de São Tiago, que encontrei o melhor insight teológico para a correta interpretação desta carta.

O QUE É FÉ MORTA?

Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta

Epístola de São Tiago 2,17

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que essa “” que São Tiago chama de “morta“, não é fé propriamente dita, mas trata-se de uma fé que morreu. Havia uma fé, essa fé era viva e verdadeira, mas em determinado momento ela deixou de ser operante. Essa fé não justifica e precisa ser novamente avivada ou regenerada. Mas veja bem! Só pode morrer quem está vivo. Por isso essa passagem é um problema para a tradição reformada tardia, que não reconhece a realidade da apostasia (perder a fé). Geralmente, os comentaristas reformados vão descrever essa fé morta ou como uma fé temporária (falsa) ou como uma espécie de fé enfraquecida, de um crente que caiu em pecado; enquanto que católicos romanos vão dizer que essa fé morta é fé verdadeira, mas que precisa das obras para justificar. Mas ambas as tradições estão erradas, tanto à luz da Escritura, quanto à luz da tradição da Igreja. A fé que São Tiago descreve era uma fé verdadeira, mas já não é mais. E é exatamente isso que a Augustana ensina:

A Escritura […] não entende por fé um conhecimento que demônios e homens ímpios têm. Pois em Hebreus 11 ensina-se, com respeito à fé, que crer não é apenas conhecer a história, mas ter confiança em Deus e receber sua promessa. E Agostinho também nos lembra de que devemos entender a palavra “fé”, na Escritura, como significando confiança em Deus de que nos é clemente, não apenas conhecer tais notícias históricas que também os demônios conhecem.

Confissão de Augsburgo XX: Da Fé e das Boas Obras.

OS DOIS TIPOS DE JUSTIFICAÇÃO: CORAM DEO E CORAM MUNDO

Eu sei que provavelmente o meu leitor já deve estar cansado de ler aquela velha argumentação de que São Tiago não estaria tratando aqui da verdadeira justificação, mas sim da justificação diante do mundo, do testemunho público da fé verdadeira. E na verdade, é necessário dizer que isso está parcialmente correto. Realmente, como já foi dito acima, o assunto da carta não é soteriologia; a pergunta que move o autor não é a mesma que move São Paulo em Romanos, Efésios ou Gálatas. No entanto, o texto diz que “foi pelas obras que a fé se consumou” (Tg 2,22) e São Tiago ainda cita o mesmo texto que Paulo usa para tratar da justificação pela fé sem as obras da lei, ou seja, que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça;” (Gn 15,6). Logo, é nítido que São Tiago toca na questão da justificação pela fé, mesmo que esse não seja o seu interesse principal aqui.

A grande questão a ser resolvida aqui é: como a justificação diante do mundo (pelas obras) contribui e coopera com a justificação diante de Deus (pela fé somente)? A única resposta satisfatória que encontrei foi aquela que o próprio Lutero nos deu ao pregar sobre o texto do Evangelho de São Mateus.

Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas faltas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas faltas.

Evangelho Segundo São Mateus 6.14,15

Comentando o texto acima, Lutero diz:

[…] o perdão dos pecados, como já disse muitas vezes em outras ocasiões, ocorre de duas maneiras: por um lado, por meio do Evangelho e da Palavra de Deus, recebidos interiormente no coração perante Deus por meio da fé; por outro, exteriormente, por meio das obras, a respeito das quais 2 Pe 1.10 diz: “Prezados irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”, etc. Aí ele quer que provemos que temos a fé e o perdão dos pecados, isto é, que demonstremos as obras, para que se reconheça a árvore em seus frutos e se revele que é uma árvore boa e não podre, pois onde houver fé genuína, com certeza, também, seguem boas obras. Dessa forma, a pessoa é reta e justa interior e exteriormente, perante Deus tanto quanto perante as pessoas. Pois esta é a consequência e o fruto com os quais eu certifico a mim e aos outros que creio genuinamente, o que no mais eu não poderia saber nem ver.

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.151-2. CIL, 2005.

Como assim!? Lutero ensinando perdão dos pecados por meio das boas obras!? Sim. Aqui as palavras de São Tiago se harmonizam perfeitamente, sem nenhuma necessidade de inferência, com as palavras do Sumo Doutor e Reformador da Igreja.

Para que o leitor fique ainda mais convicto de que existe espaço na teologia evangélica para uma “justificação pelas obras”, desde que isso seja corretamente entendido, Lutero continua:

Portanto, também o perdão exterior evidenciado por um ato é um sinal seguro de que tenho perdão do pecado junto a Deus; […] Veja bem, trata-se de dois tipos de perdão: um, interior, no coração, que se apega exclusivamente à Palavra de Deus, e outro, exterior, que se irrompe e nos dá certeza de que temos o perdão interior.

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.152. CIL, 2005.

Veja, meu caro leitor, que Lutero utiliza uma linguagem sacramental para descrever a maneira como as obras cooperam com a fé para a justificação. Não é que Deus nos julga conforme a qualidade das nossas boas obras. Somente a Fé nos justifica diante de Deus. No entanto, as nossas boas obras tem o poder de estimular a nossa Fé. Deus não precisa das nossas obras. Quem precisa? O nosso próximo? Sim, o nosso próximo também precisa. Mas mais do que isso, EU PRECISO DAS MINHAS BOAS OBRAS. Elas provam para mim mesmo que Cristo vive em mim, que eu pertenço a Ele, e que o pecado não tem mais poder sobre mim. É justamente isso que São Tiago está ensinando em sua epístola. Quando as boas obras abundam, a Fé jamais naufraga. Trata-se de algo bem simples de se entender. Se o pecado mata a fé (pecado mortal), as boas obras a estimulam.

Por tudo isso, eu creio firmemente que Lutero oferece a melhor resposta para a correta interpretação da Epístola de São Tiago. E ainda, que os seus detratores, na maioria das vezes, dão respostas muito rasas e superficiais para as questões teológicas envolvendo as palavras de São Tiago. Para esses detratores eu ofereço as diletas palavras do Reformador:

Digo isso, porque os sofistas consideram apenas as obras que nós praticamos, sem levar em conta a Palavra e promessa de Deus. Por isso, quando ouvem e lêem tais formulações referentes às obras, certamente, dirão que o ser humano alcança esse mérito por seus atos; a Escritura, entretanto, nos ensina que não devemos olhar para nós, mas para a Palavra e promessa de Deus, a elas nos apegando com a fé. Então, quando praticas uma obra baseado nas palavras e na promessa de Deus, tens um sinal certo de que Deus é misericordioso para contigo, ou seja, que tua própria obra, a qual Deus agora, assumiu como sua, será para ti um sinal certo do perdão […].

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.152-3. CIL, 2005.

Salve Bem-Aventurado Martinho Lutero, Doutor e Reformador da Igreja de Cristo!

FINIS