Psicologia Pré-Moderna em Vermigli

Nos últimos cem anos, com a popularização da psicologia freudiana por meio de Holywood, os cristãos passaram a ter uma visão cada vez mais pessimista em relação à psicologia e outras tentativas humanas e profissionais de promover sanidade mental e felicidade.

Neste ano, por exemplo, um vídeo em que o teólogo reformado Michael Horton se poicionava contra o aconselhamento bíblico exclusivista, rapidamente viralizou e ganhou a atenção de muitos cristãos – uns contra, outros a favor. Isto nos mostra que a psicologia e a psiquiatria ainda são assuntos espinhosos para os evangélicos, especialmenete para os reformados que abraçaram de maneira acrítica as contribuições do famoso teólogo e conselheiro Jay Adams.

Uma das acusações que os seguidores mais radicais de Jay Adams sempre levantam é a de que a psicologia não existia antes da modernidade. Será que isto é verdade?

O filósofo Erich Fromm parece discordar:

Geralmente se considera que a psicologia é uma ciência relativamente moderna, e isto porque o termo entrou no uso geral só nos últimos cem, cento e cinquenta anos. Mas se esquece que houve uma psicologia pré-moderna, a qual durou mais ou menos do ano 500 a.C. até o século XVII, mas que não se chamava “psiscologia”, e sim “ética” ou, com ainda mais frequência “filosofia”, conquanto se tratasse justamente de psicologia. Quais eram a substância e os fins de tal psicologia pré-moderna? A resposta pode ser sintetizada assim: era o conhecimento da psique humana que tinha como meta o melhoramento do homem. Ela tinha, portanto, um propósito moral, que se poderia dizer inclusive religioso, espiritual.

Erich fromm, “Psicologia per non psicologi”, em l’amore per la vita, mondadori, milão 1992, pág. 82. apud. martín f. echavarría, “de aristóteles a freud”, edições c.i. 2019, pág. 21-2.

Conforme lê-se na citação acima, a psicologia nasce com a filosofia, já com seus propósitos moral e religioso, em Sócrates, Platão, e sobretudo em Aristóteles. E esta psicologia pré-moderna foi em boa medida aceita e levemente (embora de maneira precisa) aperfeiçoada pela Igreja, incluindo os Reformadores e os Puritanos. É o que encontramos na obra do reformador Peter Martyr Vermigli, em seu comentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles:

O objetivo da filosofia é que alcancemos esta beatitude ou felicidade que pode ser adquirida nesta vida por meio das capacidades humanas, enquanto que o alvo da devoção cristã é que a imagem na qual somos criados, em justiça e santidade da verdade, seja renovada em nós, de forma que creçamos diariamente no conhecimento de Deus até que sejamos levados a vê-lO como Ele é, com a face descoberta.

Peter martyr vermigli, commentary on aristotle’s nicomachean ethics, the peter martyr library vol.9, pág. 14.

Perceba que a citação de Vermigli concorda ipsis litteris com a tese de Erich Fromm.

Creio que a Igreja de hoje precisa de nada mais que um novo Ad Fontes para solucionar esses impasses modernos nos quais nos encontramos. Impasses esses que surgem mais por uma leitura enviesada e moderna das Escrituras, do que de princípios protestantes e/ou reformados. A Igreja possui um tesouro imensurável que pode em muito contribuir para a superação de impasses no campo da filosofia, da ética e até dos fundamentos metafísicos para a atuação profissional na saúde mental.

Tolle, lege!

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