A Rejeição da Psicologia e a Psicologização: duas faces de uma mesma idolatria

Um artigo inspirado em Dooyeweerd num blog tomista? SIM! E qual o problema? Eu continuo sendo um tomista reformado e justamente por isso tenho mais liberade para apreciar a filosofia reformacional e absorver dela até onde me é possível. E ultimamente tenho desenvolvido um trabalho na filosofia de Herman Dooyeweerd, aplicando-a na minha área de atuação (psiquiatria e psicologia médica). Na verdade, já existem muitas pessoas fazendo isso. Talvez o caso mais ilustre seja o do psiquiatra Dr. Gerrit Glas, que tem escrito bastante sobre o tema numa perspectiva reformacional. Sou grato a ele por tudo que aprendi em seu Person-Centered Care in Psychiatry.

Ora, voltemos à questão principal aqui. Quero lhes mostrar que tanto a psicologização quanto a rejeição da psicologia são duas faces de um mesmo tipo de idolatria: a absolutização de um aspecto modal da realidade em detrimento de outros.

A Psicologização já tem sido muito combatida desde a década de 70, quando do surgimento do movimento de esquerda conhecido como movimento antipsiquiatra – que parece ter exercido larga influência sobre o pensamento do teólogo americano Jay E. Adams, como aponta o Dr. Alan Thomas em seu livro Tackling Mental Illness Together. Desde então, críticas muito mais inteligentes surgiram contra a psicologização, como aquelas escritas pelo Dr. Darymple (psiquiatra e filósofo) e do grande filósofo conservador Roger Scruton. Por que eu cito esses dois como exemplo? São dois autores que tecem críticas profundas contra a psicologia, mas ao mesmo tempo apresentam propostas de reforma, de reformulação. Essa ideia de criticar só para destruir é demoníaca, revolucionária e despreza milênios de conhecimento acumulado. Ou seja, é anti-conservadora, anti-cristã e anti-progresso ao mesmo tempo. É estranho como alguns pretensos conservadores, no afã de combater a secularização, se tornam eles mesmos revolucionários.

Mas qual seria a maior crítica contra a psicologização? A principal denúncia dos autores supracitados é a de que a psicologia pode roubar o valor espiritual e humanístico de certas experiências universais, tais como o sofrimento, o luto, a separação e a criação dos filhos. Ou seja, as críticas parecem ir no sentido que a psicologia é prejudicial quando ela abosorve outros campos do conhecimento de maneira ensimesmada. Isso é o que Dooyeweerd chamaria de absolutização de um aspecto modal. É desprezar os aspectos sociais, espirituais, e interpretá-los todos em termos de símbolos e signos psicológicos.

Para que entendamos melhor isso, vejamos o seguinte gráfico que retirei da página O Escrituralista no facebook:

Esquema representativo da Teoria dos Aspectos Modais da Realidade (de Dooyeweerd)

Veja que a psicologia representa apenas um aspecto modal da experiência. Não é tão difícil de entender (meus colegas de medicina sem nenhum treinamento em filosofia ficaram maravilhados quando lhes apresentei esse quadro). De acordo com Dooyeweerd, quando desprezamos qualquer um desses aspectos modais como inúteis, isso revela uma idolatria do nosso coração, nossa tendência em enxergar as coisas sempre do mesmo ângulo. E pasmem, mesmo a Fé aqui pode se tornar um aspecto idolátrico e absolutizado.

E quanto àqueles que desprezam o aspecto psicológico da experiência humana? Isso é, aqueles que rejeitam a psicologia. Bom… Pode parecer estranho criticar um grupo tão pequeno de pessoas, mas acredito que todo questionamento por menor que seja deve ser respondido. Faz tempo que tenho notado no meio reformado – ao qual eu pertenço – um certo ranço fundamentalista não somente em relação à psicologia, mas a todas as ciências ditas humanas. Outro dia li um autor dizer – sem qualquer pudor – que a Igreja não necessita de sociologia, filosofia e ciências humanas. E infelizmente esse livro foi publicado por uma editora reformada. Também não faz muito tempo, li uma citação de um livro de aconselhamento bíblico, na qual um pastor chama a psicologia de pseudociência (o engraçado aqui é que esse mesmo pastor pertence a uma tradição conhecida por defender um camaleão teológico).

Eu entendo perfeitamente que esses homens estejam habituados com um tipo de ethos marxista, feminista e secular reinando nas ciências humanas. Mas essa apologética antitética lançada contra a psicologia é uma apologética do ressentimento, e que nunca foi ensinada pelo Nosso Senhor Jesus Cristo. Homens assim precisam aprender aos pés de Douglas Wilson, R C Sproul, N T Wright, Vermigli, Santo Tomás, Santo Anselmo, etc. Homens de conhecimento enciclopédico, que se colocaram a estudar o mundo sem preguiça e indisposição, para conhecer o Universo criado por Deus e dele extrair toda a sabedoria possível.

Bradford Littlejohn, presidente do Davenant Institute, já chamou atenção para o efeito devastador do pensamento hiper antitético dos chamados “guerreiros da cosmovisão”, pessoas que acreditam que conhecer os conceitos de criação, queda e redenção lhes é suficiente para opinar sobre cultura, música, sociedade, política, arte, etc. Nada mais enganoso! Isso tem gerados cristãos com a mente ressequida, com a língua veloz para criticar e com muito pouco a oferecer.

Creio que a crítica do Bradford Littlejohn vai exatamente ao encontro da minha tese sobre aqueles que rejeitam a psicologia por questões religiosas: o fazem por absolutizar o aspecto pístico da experiência. E quando se comportam dessa maneira estão idolatrando esse aspecto (sua religião professada), e consequentemente desprezando o aspecto psicológico da experiência. Isso fica muito claro quando colocam o Evangelho em oposição à Psicologia como fonte de cura para as enfermidades da alma.

O que Dooyeweerd chama de antítese dos aspectos modais é exatamente o que acontece aqui. A idolatria faz com que diversos aspectos que são apenas modos de ser da experiência, comecem a competir entre si. No entanto, essa competição só existe na mente do idólatra, daquele que fez da sua própria fé um ídolo de barro. Isso é, quem disse que o Evangelho está em competição com as Escrituras? Quem disse que a psicologia precisa funcionar como um paliativo, um substituto do Evangelho?

Um Exemplo de como Evangelho e Psicologia não precisam estar em oposição:

Por meio do princípio da Analogia Entis (tão odiado por Karl Bath) a humanidade sabe, ao menos desde Aristóteles, que tanto os homens como os animais possuem certas cognições em comum. Animais têm medo, tristeza, alegria, prazer, ira, ou seja, apetite concupscível e apetite irascível. E são exatamente esses apetites que se encontram em profunda desordem na maioria dos transtornos mentais que acometem os seres humanos. Perceba, não há nada de espiritual nisso. De outra forma, teríamos que assumir que os animais também possuem o mesmo relacionamento espiritual que temos com Deus. Agora perceba, as desordens espirituais estão situadas nos apetites intelectivos, ou seja, na razão e na vontade. Mas veja só que interessante, dependendo do nível de desordem dos apetites inferiores (concupscível e irascível), o ser humano perde a razão, um potência espiritual e superior. É o exemplo dos pacientes em surtos psicóticos, em quadros de delirium, demência, episódios de mania aguda e depressão bipolar grave. Tente conversar com qualquer ser-humano num estado assim. Tente ler a Bíblia para ele. Ele não te ouvirá. Na verdade ele pode até avançar em você. E advinha só, ele nem se lembrará de você no outro dia. Veja como é irracional tentar colocar o Evangelho em oposição à psicologia ou à psiquiatria quando falamos em transtornos mentais.

Enfim, eu poderia escrever textos e mais textos provando a irracionalidade dessa perspectiva idólatra e distorcida da realidade. Mas ao invés disso, eu apenas convido meus oponentes a estudarem o assunto, e encerro com uma célebre frase de Aristóteles:

Diferentes ciências admitem diferentes graus de certeza.

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