Thomas Watson e a Teologia Natural do Corpo

O texto a seguir, retirado da exposição do Breve Catecismo de Westminster, feita por Thomas Watson, nos motra como os teólogos do século XVII demonstravam interesse em fazer teologia natural a partir de diversos conhecimentos e esferas do saber, como por exemplo, a anatomia e a medicina. Não raras vezes, encontramos extensas referências à literatura médica mais sofisticada da época em todos os escritos puritanos, como Watson, Baxter, Owen, Flavel, Philip Nye, Nehemiah Coxe e muitos outros.

a. As partes do corpo do homem

i. A cabeça, a parte arquitetonicamente mais excelente. É a fonte das disposições e o lugar da razão. Na natureza a cabeça é a melhor parte, porém o coração a excede em graça.

ii. Os olhos são a beleza da face. Brilham e refulgem como um pequeno sol no corpo. Os olhos ocasionam muito pecado e, portanto, podem trazer lágrimas.

iii. O ouvido é o canal pelo qual o conhecimento é transmitido. É melhor perder a nossa vista que nossa audição, porque a fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Ter um ouvido aberto para Deus é a melhor jóia.

iv. A língua é a glória do homem. Davi chama a língua de sua glória (Sl 16.9), porque ela é um instrumento para declarar a glória de Deus. O espírito, no começo, era como uma harpa afinada para louvar a Deus e a língua fazia melodia. Deus nos deu dois ouvidos, mas uma só língua, para nos mostrar que devemos ser prontos para ouvir, mas tardios para falar. Deus colocou uma cerca dupla diante da língua: os dentes e os lábios, para nos ensinar a ser cuidadosos em não ofender com nossa língua.

v. O coração é uma parte nobre e o órgão da vida.

Thomas Watson, A Fé Cristã – Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster, Ed. Cultura Cristã 2009, p.142-3.

Eu sei que o texto é pequeno e pode passar despercebido pela maioria dos leitores leigos. No entanto, quando levamos em conta que isso foi transcrito a partir de seus sermões paroquiais, podemos ter uma idéia de como esses assuntos eram tratados na academia da época. Mesmo um leigo de uma capela puritana pobre e pequena do século XVII recebia mais instrução do que muitos recebem hoje em nossas igrejas com ar condicionado e microfone auricular (se me permitem o exagero rs).

O que mais me chama atenção aqui é que mesmo um puritano típico (lembre-se de que os puritanos são vistos até hoje como radicais e fundamentalistas em muitos aspectos, as vezes de maneira injusta, em outros nem tanto) se valia de conhecimentos naturais e científicos para construir uma teologia pastoral natural – bem exortativa, é verdade -, e hoje, tantos ministros que se dizem equilibrados e sensatos, rejeitam veementemente qualquer coisa que não seja teologia e exegese bíblicas. Isso definitivamente não está certo. Deus nos deu o livro da natureza muito antes das Escrituras. E quando interpretamos as Escrituras sem olhar para a realidade criada por Deus corremos o risco de fecharmos os ouvidos para a Sua revelação e nos isolarmos num laboratório de lexos e comentários.

Outro aspecto interessante, talvez um assunto para outra hora, é o valor do corpo para esses homens. Em tempos em que se discute até mesmo a venda de órgãos humanos, talvez uma teologia natural seja de extrema importância para repensarmos nossos posicionamentos éticos perante a sociedade.

No próximo artigo, espero trazer um pequeno trecho do comentário de Watson sobre a alma humana, mostrando assim o interesse dos puritanos pela psicologia.

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