Qual era a opinião de Lutero sobre Aristóteles?

Não é segredo para ninguém que Aristóteles exercera enorme influência (via Tomás de Aquino) sobre toda a cristandade, incluindo protestantes e evangélicos. Também não é segredo que Malanchthon, Martin Chemnitz e Johann Gerhard faziam uso extenso de Aristóteles em seus livros e tratados. Mas e Lutero? É verdade que Lutero jogou fora toda a tradição escolástica? Lutero pode ser considerado o Pai do irracionalismo, e possivelmente um profeta do idealismo alemão? Eu penso que a resposta para todas essas indagações é um sonoro NÃO.

Apresentarei a seguir uma pequena quantidade de citações que provam o meu ponto.

A Apologia da Confissão de Augsburgo

Na Apologia da Confissão de Augsburgo encontramos o seguinte louvor à Aristóteles: “Pois Aristóteles escreveu de maneira tão erudita sobre ética civil, que, a respeito, nada mais é preciso exigir” (Apologia, IV, 14-15). Como um trecho desse passaria batido por Lutero? Como Lutero aprovaria um texto assim como documento oficial de sua igreja, se ele realmente odiasse o aristotelismo, como alguns críticos modernos argumentam!?

Daí surgem outras perguntas. Como Lutero aprovaria um texto confessional, cuja diposição, em Tópicos, fosse aristotélica? Como Lutero aprovaria tantas citações do Estagirita espalhadas pela Apologia? E como Lutero toleraria que termos aristotélicos fossem empregados para explciar a soteriologia confessional de sua Igreja? Com esta última pergunta me refiro ao uso, por exemplo, do termo aristotélico em latim causa finalis no artigo IV, parágrafo 51.

Eu sei que nada disso faz de Lutero um seguidor do aristotelismo. Mas é no mínimo curioso que o personagem principal por trás da Reforma Luterana permitisse que Aristóteles adentrasse tão profundamente no Livro de Concórdia, sendo ele mesmo um arqui-inimigo do aristotelismo cristão.

O Lutero de 1520

Então de onde surgiu toda essa história? Oras, é claro que ela tem um bom fundo de verdade. Ela surgiu com um texto infeliz de Lutero, em sua carta À Nobreza Cristã da Nação Alemã, em 1520, onde o mesmo escreve:

Nesse sentido, meu conselho seria que a Física, a Metafísica, o De Anima e a Ética de Aristóteles, que até agora têm sido considerados seus melhores livros, deveriam ser completamente descartados… nada pode ser aprendido deles sobre a natureza ou sobre o Espírito… Me entristece a rapidez com que esse maldito, presunçoso e pagão malandro tenha iludido e ridicularizado tantos dos melhores cristãos com seus escritos enganosos. Deus o enviou como uma praga sobre nós por causa de nossos pecados… Seu livro sobre ética é o pior de todos os livros. Ela se opõe categoricamente à graça divina e a todas as virtudes cristãs, e, no entanto, é considerada uma das melhores obras. Fora com esses livros! Mantenha-os longe dos cristãos.

Martin Luther, “To the Christian Nobility,” in The Christian in Society I, ed. James Atkinson and Helmut T. Lehmann, LW 44 (Philadelphia: Fortress Press, 1966), 200–201.

Uau! Realmente é possível sentir ódio exalando do texto (rsrs). O que Lutero diz aqui é justamente o oposto do que afirma tanto a Augustana quanto sua Apologia. E eu digo que é um texto infeliz, pois o próprio Lutero se retrata 23 anos depois.

O Lutero de 1543:

Em seu comentário ao capítulo 9 do profeta Isaías, Lutero diz:

Cícero ensinou de maneira excelente sobre as virtudes, a prudência, a temperança e o restante. Da mesma forma Aristóteles, de maneira excelente e muito instruída, sobre Ética. De fato, os livros de ambos, são muito úteis e da maior necessidade para a ordenação desta vida.

D. Martin Luthers Werke, Kritische Gessamtausgabe, 58 vols. (Weimar: Hermann Böhlau, 1883) (hereafter cited as WA), 40:608.

Percebem o que aconteceu? Não só o conteúdo, mas o jeito de escrever de Lutero muda drasticamente dentro de 23 anos. Eis um Lutero maduro, já sem os excessos da juventude, e capaz de discernir Aristóteles de seus intérpretes papistas.

O que será que houve nesses 23 anos que foi capaz de elevar a opinião de Lutero sobre Aristóteles? O meu palpite é que, da mesma forma que ele exercera influência teológica sobre Melanchthon, este seu aluno também exercera uma boa influência filosófica sobre ele. Melanchthon tinha seus problemas com sua tibieza de Espírito, mas era um gênio, sobretudo quando o assunto era Aristóteles.

Melanchthon, um amante de Aristóteles

É de minha opinião que Melanchton fora um dos maiores gênios da Igreja Evangélica, senão o maior. É um autor que me perturba pelas controvérsias envolvendo seu nome, e isso tudo só aumenta minha curiosidade acerca do reformador.

Philip Melanchthon foi considerado o Praeceptor Germaniae (O Professor da Alemanha), sendo um estudante e instrutor de Aristóteles nas disciplinas de Dialética, Retórica e Ética. Daí todo o vocabulário e metodologia aristotélicos que se deixam transparecer na Apologia.

Comentando a obra de seu amigo Simon Grynaeus, Melanchthon afirma “Porque, pelo seu favor, temos um Aristóteles mais preciso e mais refinado, que tu sabes que admiro, amo e aprecio muito.” [1]. Como se percebe, Melanchthon não teme declarar seu amor pelo Estagirita.

Ainda numa dedicatória à sua própria obra sobre Filosofia Moral ele escreve:

Portanto, como na escolha de um tipo de ensino é necessário escolher o que é correto, verdadeiro, simples, firme, bem ordenado e útil para a vida, acredito que as mentes jovens devem ser intruídas principalmente com a doutrina aristotélica, que nessas qualidades ultrapassa todas as outras escolas. Por quê? Porque a ética de Aristóteles também deve ser amada, pois somente ele viu e entendeu que as virtudes são estados intermediários. Por esta descrição, ele nos instrui com muita sabedoria que os impulsos da mente devem ser inclinados à moderação e à ordem.

Melanchthon, Orations on Philosophy, 141.

Creio que essas duas citações são mais que suficientes para fortalecer o meu palpite de que Melanchthon tenha sido de alguma influência na mudança de opinião de Lutero.

Conclusões

O que um luterano pode aprender com tudo isso?

Ainda que Lutero não tivesse mudado de opinião sobre Aristóteles, o luteranismo permaneceria em harmonia com o aristotelismo cristão. O vocabulário, o método, e os pressupostos por trás do Livro de Concórdia estão intimamente ligados ao aristotelismo cristão. Não apenas isso, mas os grandes teólogos da nossa tradição foram escolásticos em sua teologia – constituíram o que pode ser chamado de Escolasticismo Luterano, ou Escolasticismo Evangélico. Mas o fato é que Lutero terminou os seus dias com uma opinião bastante positiva a respeito da doutrina do Estagirita.

[1] Melanchthon, Orations on Philosophy, 112.

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