Como Lutero me ajudou a entender a Epístola de S. Tiago

Todos os comentaristas da Epístola de São Tiago são unânimes em dizer que o objetivo do autor é estimular as boas obras nos crentes, sobretudo o amor. O assunto desta carta não é justificação, não é salvação. Isto é claro e evidente. Mesmo assim, os versos 14-26 do capítulo 2 sempre intrigaram boa parte do protestantismo.

Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou […] Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.

Epístola de São Tiago 2: 21, 22, 24.

Antes de mais nada é necessário dizer que nenhum luterano confessional têm problemas em confessar e dizer essas mesmas palavras, desde que entendidas corretamente – da mesma forma que as palavras “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” (Rm 3:28) também precisam ser entendidas de maneira correta.

É necessário reconhecer a complexidade de ambos os textos e resistir ao ímpeto primário de fazê-los dizer o que eles não dizem. É necessário também reconhecer que a maioria dos exegetas protestantes cometem esse erro em Tiago, da mesma forma como os exegetas católicos romanos erram em Romanos. Quando Reformado, eu tive a infeliz frustração de procurar em vão uma resposta conciliadora em exegetas como João Calvino, Turretini, John Owen, Bavinck, Berkhof, Carson, etc. E mesmo depois de me converter ao luteranismo, também me frustrei com muitas respostas de teólogos contemporâneos. Ironicamente, foi na pena de Lutero, o Lutero que brigou com a Epístola de São Tiago, que encontrei o melhor insight teológico para a correta interpretação desta carta.

O QUE É FÉ MORTA?

Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta

Epístola de São Tiago 2,17

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que essa “” que São Tiago chama de “morta“, não é fé propriamente dita, mas trata-se de uma fé que morreu. Havia uma fé, essa fé era viva e verdadeira, mas em determinado momento ela deixou de ser operante. Essa fé não justifica e precisa ser novamente avivada ou regenerada. Mas veja bem! Só pode morrer quem está vivo. Por isso essa passagem é um problema para a tradição reformada tardia, que não reconhece a realidade da apostasia (perder a fé). Geralmente, os comentaristas reformados vão descrever essa fé morta ou como uma fé temporária (falsa) ou como uma espécie de fé enfraquecida, de um crente que caiu em pecado; enquanto que católicos romanos vão dizer que essa fé morta é fé verdadeira, mas que precisa das obras para justificar. Mas ambas as tradições estão erradas, tanto à luz da Escritura, quanto à luz da tradição da Igreja. A fé que São Tiago descreve era uma fé verdadeira, mas já não é mais. E é exatamente isso que a Augustana ensina:

A Escritura […] não entende por fé um conhecimento que demônios e homens ímpios têm. Pois em Hebreus 11 ensina-se, com respeito à fé, que crer não é apenas conhecer a história, mas ter confiança em Deus e receber sua promessa. E Agostinho também nos lembra de que devemos entender a palavra “fé”, na Escritura, como significando confiança em Deus de que nos é clemente, não apenas conhecer tais notícias históricas que também os demônios conhecem.

Confissão de Augsburgo XX: Da Fé e das Boas Obras.

OS DOIS TIPOS DE JUSTIFICAÇÃO: CORAM DEO E CORAM MUNDO

Eu sei que provavelmente o meu leitor já deve estar cansado de ler aquela velha argumentação de que São Tiago não estaria tratando aqui da verdadeira justificação, mas sim da justificação diante do mundo, do testemunho público da fé verdadeira. E na verdade, é necessário dizer que isso está parcialmente correto. Realmente, como já foi dito acima, o assunto da carta não é soteriologia; a pergunta que move o autor não é a mesma que move São Paulo em Romanos, Efésios ou Gálatas. No entanto, o texto diz que “foi pelas obras que a fé se consumou” (Tg 2,22) e São Tiago ainda cita o mesmo texto que Paulo usa para tratar da justificação pela fé sem as obras da lei, ou seja, que “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça;” (Gn 15,6). Logo, é nítido que São Tiago toca na questão da justificação pela fé, mesmo que esse não seja o seu interesse principal aqui.

A grande questão a ser resolvida aqui é: como a justificação diante do mundo (pelas obras) contribui e coopera com a justificação diante de Deus (pela fé somente)? A única resposta satisfatória que encontrei foi aquela que o próprio Lutero nos deu ao pregar sobre o texto do Evangelho de São Mateus.

Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas faltas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas faltas.

Evangelho Segundo São Mateus 6.14,15

Comentando o texto acima, Lutero diz:

[…] o perdão dos pecados, como já disse muitas vezes em outras ocasiões, ocorre de duas maneiras: por um lado, por meio do Evangelho e da Palavra de Deus, recebidos interiormente no coração perante Deus por meio da fé; por outro, exteriormente, por meio das obras, a respeito das quais 2 Pe 1.10 diz: “Prezados irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”, etc. Aí ele quer que provemos que temos a fé e o perdão dos pecados, isto é, que demonstremos as obras, para que se reconheça a árvore em seus frutos e se revele que é uma árvore boa e não podre, pois onde houver fé genuína, com certeza, também, seguem boas obras. Dessa forma, a pessoa é reta e justa interior e exteriormente, perante Deus tanto quanto perante as pessoas. Pois esta é a consequência e o fruto com os quais eu certifico a mim e aos outros que creio genuinamente, o que no mais eu não poderia saber nem ver.

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.151-2. CIL, 2005.

Como assim!? Lutero ensinando perdão dos pecados por meio das boas obras!? Sim. Aqui as palavras de São Tiago se harmonizam perfeitamente, sem nenhuma necessidade de inferência, com as palavras do Sumo Doutor e Reformador da Igreja.

Para que o leitor fique ainda mais convicto de que existe espaço na teologia evangélica para uma “justificação pelas obras”, desde que isso seja corretamente entendido, Lutero continua:

Portanto, também o perdão exterior evidenciado por um ato é um sinal seguro de que tenho perdão do pecado junto a Deus; […] Veja bem, trata-se de dois tipos de perdão: um, interior, no coração, que se apega exclusivamente à Palavra de Deus, e outro, exterior, que se irrompe e nos dá certeza de que temos o perdão interior.

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.152. CIL, 2005.

Veja, meu caro leitor, que Lutero utiliza uma linguagem sacramental para descrever a maneira como as obras cooperam com a fé para a justificação. Não é que Deus nos julga conforme a qualidade das nossas boas obras. Somente a Fé nos justifica diante de Deus. No entanto, as nossas boas obras tem o poder de estimular a nossa Fé. Deus não precisa das nossas obras. Quem precisa? O nosso próximo? Sim, o nosso próximo também precisa. Mas mais do que isso, EU PRECISO DAS MINHAS BOAS OBRAS. Elas provam para mim mesmo que Cristo vive em mim, que eu pertenço a Ele, e que o pecado não tem mais poder sobre mim. É justamente isso que São Tiago está ensinando em sua epístola. Quando as boas obras abundam, a Fé jamais naufraga. Trata-se de algo bem simples de se entender. Se o pecado mata a fé (pecado mortal), as boas obras a estimulam.

Por tudo isso, eu creio firmemente que Lutero oferece a melhor resposta para a correta interpretação da Epístola de São Tiago. E ainda, que os seus detratores, na maioria das vezes, dão respostas muito rasas e superficiais para as questões teológicas envolvendo as palavras de São Tiago. Para esses detratores eu ofereço as diletas palavras do Reformador:

Digo isso, porque os sofistas consideram apenas as obras que nós praticamos, sem levar em conta a Palavra e promessa de Deus. Por isso, quando ouvem e lêem tais formulações referentes às obras, certamente, dirão que o ser humano alcança esse mérito por seus atos; a Escritura, entretanto, nos ensina que não devemos olhar para nós, mas para a Palavra e promessa de Deus, a elas nos apegando com a fé. Então, quando praticas uma obra baseado nas palavras e na promessa de Deus, tens um sinal certo de que Deus é misericordioso para contigo, ou seja, que tua própria obra, a qual Deus agora, assumiu como sua, será para ti um sinal certo do perdão […].

Dr. Martinho Lutero, Prédicas semanais sobre Mateus 5-7, OS 9, p.152-3. CIL, 2005.

Salve Bem-Aventurado Martinho Lutero, Doutor e Reformador da Igreja de Cristo!

FINIS

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