O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?

Frequentemente nos debates sobre a Eucaristia, reformados lançam todo o seu arsenal argumentativo tendo por base o texto de 1 Co 10:16. E isso é mais do que esperado, visto que desde a Reforma não há nenhum consenso entre reformados sobre o significado das palavras “Isto é o meu Corpo”. Assim, naturalmente, entre eles, o texto de 1 Co 10:16 acabou ganhando mais destaque que os textos sinóticos, isso é, na tentativa de estabelecer sua dogmática da Ceia do Senhor.

No entanto, creio e pretendo mostrar aqui que o texto de 1 Co 10:16 é tão poderoso quanto as palavras da instituição do Sacramento do Altar, quando se trata de provar que o Corpo e o Sangue de Cristo estão verdadeira e essencialmente presentes na Santa Ceia.

A prova cabal se encontra na resposta à pergunta retórica de São Paulo: “O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?“. Resposta: O pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo. Par fins didáticos, poderíamos reformular a reposta da seguinte maneira: A comunhão do corpo de Cristo é o pão que partimos. E como isso definitivamente acaba com todo argumento simbolista, seja ele zwingliano ou calvinista!?

Vejamos o que um dos maiores escolásticos luteranos, Leonard Hutter, nos diz sobre esse texto:

pois São Paulo em 1 Co 10:16 diz “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” onde ele mais claramente ensina o comer oral. Pois se Paulo estivesse falando de uma comunhão espiritual do corpo de Cristo pela fé, como os Sacramentários pervertem essa passagem, ele não teria dito “o pão”, mas que o espírito ou a fé é a comunhão do corpo de Cristo. Mas como ele diz, o pão é a comunhão do corpo de Cristo, e assim, todos os que participam do pão abençoado, também participam do corpo de Cristo. Portanto, ele não pode estar falando de uma recepção espiritual, mas sim de uma recepção oral ou sacramental do corpo de Cristo, comum aos cristãos piedosos e falsos.

Leonard Hutter, Compend of Lutheran Theology, Just and Sinner Publications 2020, p.208.

Analise bem a argumentação lógica e mais natural possível do autor. São Paulo afirma que o pão que se parte na Ceia é a comunhão do corpo de Cristo. Vejam! O pão! Não diz que é a fé no pão ou naquilo que o pão significa. Não. O pão é a própria comunhão. Ora, se este mesmo pão é comido por todos os participantes, isso significa que TODOS participam do Corpo de Cristo, inclusive aqueles que não têm a verdadeira fé na remissão dos pecados.

Hutter conclui em outro lugar:

Isso é confirmado pelo Apóstolo em 1 Co 11:27,29 quando ele diz “Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si.” Nestas palavras o Apóstolo claramente testifica que aqueles que comem indignamente desse pão (que é a comunhão do corpo de Cristo) e bebem indignamente do cálice da bênção (que é a comunhão do sangue de Cristo), não pecam apenas contra pão e vinho, apenas contra sinais ou símbolos e figuras do corpo e do sangue, mas se tornam culpados do próprio corpo e do próprio sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que eles desonram, abusam e envergonham.

Leonard Hutter, Compend of Lutheran Theology, Just and Sinner Publications 2020, p.209.

Por que os indignos pecam contra o próprio corpo do Senhor? Se tudo fosse uma questão de fé e simbolismo, alguém poderia simplesmente alegar ignorância. Alguém poderia dizer “Mas Paulo, eu nem acreditava naquelas coisas, como posso ser culpado?”. Oras, isso não faz o menor sentido! Os participantes indignos e fingidos pecam contra o corpo de Cristo, pois o que eles têm na boca todos os domingos é o próprio corpo de Cristo. Se não fosse por isso, toda essa conversa de São Paulo sobre corpo e sangue e comer e beber, não faria o menor sentido. Ela só faz sentido porque a realidade sacramental não depende de fé, sentimento, e nem mesmo de conhecimento. E é por esse motivo que os pastores devem zelar pela mesa do Senhor, como acontece nas Igrejas Luteranas.

A Metáfora do Casamento

Podemos resumir tudo da seguinte maneira: a Escritura ensina que todos os participantes recebem a comunhão do corpo de Cristo (o pão), inclusive os que não têm fé. Logo, o que o Apóstolo chama de “a comunhão do corpo de Cristo” trata-se de algo que é dado também aos que não tiram nenhum proveito espiritual da Ceia. Trata-se de um tipo de comunhão carnal. Daí que um outro tipo de comunhão carnal (a relação entre marido e esposa) aponta justamente para esta união também carnal entre Cristo e a Igreja (Isto é ensinado por São Paulo em Ef 5 e por todos os Pais da Igreja). É como no casamento, quando o amor acaba, ainda assim, para Deus, ambos continuam sendo um só corpo (comunhão carnal), tanto que a Bíblia diz que se o marido deixa de amar a esposa, é como se ele odiasse a sua própria carne (Ef 5:29). Da mesma forma, mesmo que um crente participe do altar de maneira indigna, sem fé e piedade para com o sacramento, ele continua participando do corpo de Cristo. E é por isso, e só por isso que se peca contra o próprio corpo de Cristo (1 Co 11:27). A realidade essencial do casamento não depende do amor, assim como a realidade essencial da presença real do corpo e do sangue de Cristo não depende da fé de quem os recebe. No entanto, tanto no casamento quanto no sacramento, respectivamente, a ausência de amor e de fé, significa juízo para os participantes em ambos os casos.

Como o leitor mais atento pôde perceber, metafísica anda de mãos dadas com espiritualidade e ética cristã, mas esse é um assunto para outra ocasião…

FINIS

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