Podemos fazer alguma satisfação pelos nossos pecados? (II)

Seguimos com a exposição da Loci Theologici XVIII.VIII de Johann Gerhard, e aqui trataremos do argumento escolástico baseado na punição, que consiste em dizer que Cristo não fez satisfação pela punição de todos os nossos pecados. Alguns faziam distinção entre punições temporais e eternas, punições antes e depois do batismo, e etc. Tratava-se de um assunto em disputa e que se impôs para validar um edifício sacramental que, por sua vez, também fora bastante disputado e por fim imposto por força papal.

Se Cristo fez Satisfação pela punição de nossos pecados

De todos os Pais da Igreja, o mais citado para apoiar a ideia dos adversários é Tertuliano, com seu famoso aforisma: “Uma vez que a culpa é removida, a punição é removida” (De bapt., ch.5, p.221). Baseados nisso, eles insistiam que a culpa não havia sido completamente removida, visto que claramente ainda sofremos diversas punições. Portanto, era necessário realizar o sacrifício da missa e as boas obras meritórias. Belarmino, por exemplo, afirma: “O pecado é então reconhecido como perfeita e completamente remido quando não apenas o defeito, mas também cada punição foi removida” “De amiss. grat. et stat. peccati, bk.5, ch.29). Se a premissa é aceita sem nenhuma distinção, a única conclusão possível é que de alguma forma precisamos completar a satisfação que Cristo fez por nós.

No entanto, são inúmeras as provas na Escritura, na Tradição e na Razão, que nos convencem do contrário:

(1) Os próprios adversários entram em contradição o tempo todo. Georgius Cassander, por exemplo, afirma: “Com completo consenso todos os antigos ensinam a doutrina de que a confiança na remissão dos pecados, mesmo daqueles que cometemos após o novo nascimento, e a esperança do perdão e da vida eterna, devem ser colocadas somente na misericórdia de Deus e no mérito de Cristo” (Consult., art. De bon. operib.). Cassander está completamente certo aqui. A maioria dos Pais realmente ensinam que quando se trata de mérito, só há lugar para Cristo, e mais ninguém. Quando eles afirmam que as boas obras são necessárias para a salvação, isso nunca é dito num contexto judicial. O próprio Belarmino, em outro lugar reconhece: “Cristo fez uma satisfação inteiramente completa a Deus o Pai, pela culpa do defeito e pelas punições temporal e eterna de todos os pecados” (De inulg., bk.2, ch.10, col.1592). Ora, o que resta a fazer aqui então? Que tipo satisfação resta para nós? Nenhuma! O que resta é receber esta satisfação DE MÃOS VAZIAS (sem mérito). Isto nos ensina o próprio Cassander: “somente a morte e os sofrimentos do unigênito Filho de Deus são a satisfação e propiciação pelos nossos pecados, seja por aquele que contraímos originalmente ou aqueles que cometemos da fraqueza de nossa carne antes ou depois da regeneração. O ministério do Evangelho – isto é, Palavra e sacramentos – oferece e aplica essa satisfação a nós, e a fé, o dom de Deus, a recebe” (Consult., art. 12, sob o título De confess.). Não é tão difícil, é? Repita comigo, DE-MÃOS-VA-ZI-AS. É por isso que Santo Ambrósio, tão querido por nós luteranos, afirmou: “Eu leio sobre as lágrimas de Pedro, mas eu não leio nada sobre sua satisfação” (bk.10, on Luke 22, citado em Ius canon., dist. 1, c.1).

(2) São muitas as provas nos Pais da Igreja que nos convencem de que Cristo removeu tanto a culpa quanto as punições, de forma que todos quanto estamos em Cristo podemos afirmar com toda certeza: Deus nunca está nos punindo! Pelo menos não no sentido estrito e soteriológico. Santo Agostinho nos ensina que nossos pecados “foram encobertos, tapados, apagados. Se Deus oculta os pecados, não quis percebê-los; se não quis perceber, não quis anotar, se não quis anotar, não quis punir, não quis reconhecer, prefere perdoar. Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram apagados”. Não penses que o salmista disse pecados encobertos como se ali estivessem, bem vivos. Por que disse que os pecados foram encobertos? Para que não fossem vistos. O que significa dizer que Deus vê os pecados, se não que pune os pecados?” (on Psalm 31, enarr. 2). Aqui Santo Agostinho fala de modo universal sobre a expiação de todos os pecados, e diz que Deus não vê nenhum de nossos pecados, isto é, quando de mãos vazias recebemos os méritos de Cristo. Deus não nos dá sofrimentos para nos expiar, pois tudo já foi expiado na Cruz. O que resta agora é o recebimento do que foi feito na cruz, e esse recebimento é de mãos vazias, jamais meritório, pois do contrário, não seria um simples receber pela fé. Sobre este mesmo salmo (31), São Jerônimo afirma: “O que é encoberto não é visto, não é imputado. E o que não é imputado não é punido” (On psalm 31). Não há punição. Se você está na fé, Deus nunca está te punindo. Esta ideia é completamente absurda. São João Crisóstomo também traz a mesma ideia em seu comentário sobre o salmo 50: “Onde há misericórdia, não há lugar para punição” (on Psalm 50). Gerhard faz o seguinte comentário sobre esta citação: “Portanto, se Deus ainda exige satisfação pelos pecados, esses pecados ainda não foram completamente perdoados” (Loci, XVIII.VIII, §121.II). Onde está a misericórdia se ainda resta alguma satisfação, se ainda resta alguma punição?

(3) Se nossas satisfações são requeridas para nossa reconciliação com Deus, jamais seríamos capazes de estar certos sobre nossa reconciliação. Em vez disso, seríamos agitados por um dilúvio constante de dúvidas, pois jamais saberíamos quando Deus estaria suficientemente satisfeito pelas punições. Mas o apóstolo declara o oposto em Rm 4:16: “Portanto, provém da fé, livremente, para que a promessa fique firme”, e em Rm 5:1: “Justificados pela fé, temos paz com Deus por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §121.X

Se necessário fosse a participação nos sofrimentos de Cristo, mesmo que no mínimo, para que fôssemos reconciliados, jamais saberíamos nada a respeito de nossa reconciliação, e jamais teríamos conforto algum na graça de Deus. Daí o clamor universal pela Reforma de Lutero. O Evangelho estava se enfraquecendo pelo excesso de teorias e divagações que se acumulavam sobre a verdade simples do perdão, da vida e da salvação em Cristo.

Se os sofrimentos e provações dos cristãos podem ser chamados propriamente de punições pelo pecado

A lógica dos adversários aqui consiste basicamente no seguinte silogismo: (1) Onde a culpa é removida, a punição também o é. (2) Nós somos diariamente castigados por Deus. (3) Logo, Cristo não fez satisfação completa pelos nossos pecados.

Fazemos distinção nos pontos (1) e (2), e, por isso, rejeitamos o ponto (3).

Belarmino usa o velho e falho argumento de que os crentes ainda enfrentam a morte, e, portanto, ainda são punidos pelo pecado. Ele diz:

Permanece um débito de punição a ser pago mesmo depois de a falta ter sido perdoada, visto que Davi foi punido pela morte de seu filho depois ter recebido o perdão por adultério e assassinato (2 Sm 12); visto que a ele foi dada a opção de escolher entre guerra, pestilência ou fome (2 Sm 24) […] mesmo depois da falta ter sido perdoada; visto que isso é muito óbvio de outros exemplos (Êx 32; Nm 14 e 20; 1Co 11); e, finalmente, visto que mesmo os devotos estão sujeitos à morte.

Belarmino, cf. Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.I

A isso segue a resposta magistral de Gerhard:

Se fosse concluído que nem todo pecado é remido devido às calamidades que os devotos ainda enfrentam depois de serem reconciliados com Deus por meio do arrependimento, se seguiria pela mesma lógica que mesmo o Batismo não proveria inteira remissão do defeito e da punição. O consequente é falso, portanto, também o antecedente. A sequência lógica do argumento é muito firme. Certamente os infantes batizados estão suscetíveis a doenças e desastres, e muitas morrem imediatamente após o batismo. […] O próprio Belarmino nega o consequente, pois ele escreve: “Deus poderia perdoar o débito universal da punição, como claramente Ele faz, tão logo nos aceita como filhos por meio do batismo

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.II

Certo. Então o nosso sofrimento significa que ainda restam pecados a serem expiados? E o que dizer dos infantes que morrem logo após o batismo? Eles estão expiando qual pecado? O Batismo não apaga todas as nossas transgressões? Pobres crianças, expiaram seus pecados com seu próprio sangue, pois Cristo não lhes fora suficiente. Que Deus terrível! É claro que tudo isso é uma grande bobagem! Pois, como veremos a seguir, os castigos que Deus nos inflige não são punições de caráter forense, como a punição que Cristo sofreu, mas são punições pedagógicas. Assim ensinam os Pais:

Quando o Senhor nos corrige, é mais para admoestação do que para condenação, mais para remédio do que para punição, mais para correção do que para penalidade.

São João Crisóstomo, Sobre 1Coríntios, homilia 28.

E ainda mais claramente:

Para que não continuemos como pecadores inúteis e nos tornemos ainda piores […] Por essa razão Ele impõe punição, não exigindo a punição concernente ao pecado, mas nos corrigindo para o futuro

São João Crisóstomo, Homilia De poenitent. et confess.

Por sua vez, Santo Agostinho:

Aqueles que dizem: “Se é verdade que esta morte do corpo vem do pecado, então, após a remissão dos pecados, dada a nós pelo Redentor, não morreríamos”, não entendem como aquelas coisas cuja culpa Deus perdoa, para que não façam mal depois da morte, ele permite que elas permaneçam, a fim de que, os que estão progredindo no combate da justiça, sejam instruídos e exercitados por elas. […] As calamidades antes da remissão eram castigo dos pecados, mas, depois da remissão, são combates e exercícios dos justos.

Santo Agostinho, De peccat. merit. et remiss., bk.2, ch.33,34

Em outro lugar:

A punição permanece temporariamente sobre o homem, mesmo sobre aquele que não é mais culpado, de modo a apontar para a miséria [do pecado] ou corrigir uma vida escorregadia ou ainda exercitá-lo na paciência necessária.

Santo Agostinho, on John, tract. 124.

Gerhard encerra o assunto com toda destreza:

A punição de penalidade, a qual deve ser propriamente chamada de punição, e que é um débito pelos pecados cometidos, é perdoada junto com os pecados. A punição de castigo ou de provação, que deve ser corretamente chamada de “cruz” e “calamidade”, é deixada mesmo para os devotos carregarem nessa vida mortal. […] Deveriam ser chamadas de castigo paternal? Uma coisa é certa: há uma grande diferença entre as aflições que são infligidas sobre os perversos e aquelas que são impostas sobre os reconciliados. As primeiras são sinais de que Deus foi ofendido; elas dão testemunho de que tal pessoa está sob a ira de Deus. Mas as outras procedem não de um Deus irado, mas de um Deus favorável “humilhando os filhos dos homens, mas não de bom grado” (Lm 3:33). Naziazeno diz que elas são “flechas amargas da doce mão de Deus”. Estas se referem à correção e salvação dos devotos, mas as outras são testemunhos e, de fato, o início da punição eterna.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.V

Conclusão

Por tudo isso, fica patente que (1) Cristo fez satisfação pela punição que havia para todos os nossos pecados; (2) esta satisfação é aplica a nós somente quando a recebemos de mãos vazias por meio da fé; (3) nenhuma participação nos sofrimentos de Cristo envolve a ideia de mérito ou satisfação de nossa parte; e (4) a cruz que cada um de nós é chamado a carregar não nos serve de satisfação para qualquer pecado, antes, o seu valor é pedagógico e instrutivo, contribuindo para o nosso aperfeiçoamento.

No próximo artigo, veremos como Gerhard trabalha nos principais textos bíblicos utilizados pelos adversários.

Tertia pars sequetur…

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