Por que defendemos o uso de imagens? (Johann Gerhard)

O texto que se segue é uma tradução minha do §73 da seção IX do capítulo IV da Loci Theologici XV de Johann Gerhard. O texto é breve, sucinto e apresenta um apanhado geral das razões pelas quais a Igreja Evangélica Luterana, seguindo o consenso da Igreja Antiga, aprova o uso de imagens. É importante que o leitor saiba que Johann Gerhard é o dogmático por excelência da tradição luterana, autor da maior obra dogmática do luteranismo, reconhecido como o maior dos luteranos escolásticos. Sendo assim, trata-se de um dos melhores intérpretes, senão o melhor, dos nossos símbolos de Fé.

Eis o texto:

As razões pelas quais nós defendemos o uso de imagens

§73. Como mencionamos, a principal razão porque defendemos o uso de imagens é a Liberdade Cristã. Muitas razões secundárias são adicionadas, visto que sua utilidade nos templos não deve ser diminuída: (1) no rememorar; (2) no estimular a afeição; (3) no decorar, etc., como Schroeder demonstrou com detalhes (tratado De imaginib., q.1, teses 86ff). Gregório de Nyssa (no Cântico dos Cânticos) afirma: “Não raramente eu vejo o relato da Paixão, e não é sem lágrimas que sou levado por meio de uma inscrição desse tipo”. Gregório (livro 9, Carta 9 ad Serenum) diz:

Nós certamente os louvamos por proibir a adoração das imagens dos santos, mas os censuramos por terem as destruído. Diga-me, irmão, quando já se ouviu que um sacerdote tenha feito tal coisa? Afinal, uma coisa é adorar uma pintura; e outra é aprender o que se deve adorar por meio da história que uma pintura retrata. Veja, uma pintura oferece aos simples o que a Escritura provê para os seus leitores, pois os ignorantes veem na própria imagem o que eles devem seguir. Aqueles que não conhecem as letras, leem as imagens.

Cirilo (Contra Julianum, livro 6), depois de listar os benefícios dados a nós por Cristo na cruz, adiciona: “A árvore salutar nos faz lembrar de todas essas coisas e nos encoraja a ponderar sobre de que maneira, assim como um morreu e ressurgiu por todos, também os vivos não vivem mais para si mesmos”[1]. Basílio (Sermão em s.40 martyres) diz: “Os ornamentos na igreja me atraem para dentro. Eu contemplo a bravura dos mártires, considero as recompensas de suas coroas, e sou inflamado como que com fogo com um desejo de imitá-los”. Os Escolásticos dizem que as imagens são para instruir os iletrados, avivar a memória, e estimular a meditação e a devoção. Consequentemente, a igreja primitiva usava delas livremente, não apenas nos edifícios privados, mas também nos templos (Schroeder também trata disso em detalhes nas teses 77ff). Agostinho (De consens. evang., livro 1, capítulo 10) menciona que “em muitos lugares, em toda parte, imagens de Cristo se encontram entre Pedro e Paulo”. Eusébio registra a mesma coisa (Hist., livro 7, capítulo 14). Tertuliano (De pudicit.) menciona “imagens nos cálices eucarísticos, de Cristo carregando de volta a ovelha perdida sobre seus ombros”. Em relação à imagem de Melécio, Crisóstomo diz (Oração em Melet.): “Eles a pintavam nos anéis, copos, muros, e em toda parte”. O Supplementum de Nauclerus [2] registra que a basílica de Santa Sofia em Constantinopla, sob os imperadores cristãos, era decorada com imagens de todo o registro da Paixão do Senhor. Em 1509, quando os turcos a transformaram numa mesquita maometana, eles tamparam todas essas pinturas com reboco. Todavia, por ocasião de um grande terremoto, todo esse reboco foi desmanchado, de modo que o relato da Paixão mais uma vez foi claramente revelado.

No entanto, os papistas estendem o uso das imagens para muito além de colocá-los como livros para o laicato. Guilelmus Peraldus, um francês e membro muito conhecido da Ordem dos pregadores no século XIII, escreve no livro que ele chama Summa virtutum et vitiorum (vol.1, capítulo 3): “Assim como as Escrituras são a literatura do clero, as imagens e esculturas são a literatura do laicato”. Laelius Zecchius, em seu livro sobre casos de consciência (vol.2, cap.90, art.18, p.609) afirma: “É útil que as esculturas sejam colocadas nas igrejas para aumentar e cultivar um amor a Deus e aos santos, para preservar a fé, pois as imagens são consideradas como livros para aqueles que não conhecem as letras. Por causa dessas imagens, tais pessoas são levadas a um conhecimento, recordação e imitação das coisas divinas”. François Feuardentius (em seu livro das homilias, p.16) escreve: “Ao contemplar as imagens, os iletrados e rústicos, facilmente e rapidamente, aprendem aquelas obras e milagres divinos que eles dificilmente ou jamais poderiam aprender dos livros sagrados”.

O que este texto nos ensina?

Como afirmei anteriormente, não posto este texto para tentar convencer iconoclastas e afins de seus respectivos posicionamentos. Não creio que argumentos racionais seriam capazes de fazê-lo. A atitude iconoclasta possui raízes espirituais que a mente desconhece. Porém, o texto acima prova-nos cabalmente que (1) Luteranos defendem o uso de imagens de Cristo e dos Santos, é isso que Gerhard afirma com todas as letras; (2) fazendo isso, Luteranos seguem um consenso da Igreja Antiga“. É inútil citar vozes isoladas aqui e ali na antiguidade para defender o aniconismo. O número dos Santos Pais que aprovam o uso das imagens é gigantesco, como Gerhard cita: Tertuliano, Cirilo, Agostinho, Crisóstomo, Basílio, Eusébio, Gregório, etc. Não bastasse isso, também temos Nicéia II, que condena a heresia iconoclasta. E (3) Luteranos defendem o uso de imagens, não apenas pela liberdade cristã, mas também pelos benefícios que tal prática traz para a Igreja e para a sociedade como um todo. Remover a arte sacra é remover o próprio Cristo da arte – é abraçar um secularismo travestido de piedade.

FINIS

[1] Cirilo ilustra a passagem bíblica de São Paulo com a imagem de uma árvore, que quando morre, se devolve ao solo e dá sua vida para as outras plantas, vivendo nelas de certa forma.

[2] Johannes Vergenhans (Justingen, 1430 † Tübingen, 5 de Janeiro de 1510) foi humanista, teólogo, jurista, cronista e historiógrafo alemão. Foi primeiro reitor e segundo chanceler (1482-1509) da Universidade de Tübingen, reconhecido principalmente pela sua obra “Crônica do Mundo”, publicada em 1516, por Thomas Anshelm (1470-1522), com uma carta de recomendação de Erasmo.

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