Por que a Reforma rejeitou o Credobatismo?

Seria o batismo infantil o bezerro de ouro da Reforma? Símbolo da fraqueza e do receio de Lutero e dos outros Reformadores em não abandonarem um antigo costume católico romano? Estas são acusações comuns no meio batista e evangelical em geral, e que, ao meu ver, fazem muito sentido a depender do que entendemos por “Reforma”. Se por Reforma, nos referimos a todos os movimentos reformistas que surgiram a partir do século XVI, incluindo o calvinismo; daí o questionamento batista-evangelical faz todo sentido. Tais movimentos não partem de um núcleo teológico-filosófico central ao redor do qual todo o projeto reformista se estrutura. Neste caso, a própria reforma é um fim em si mesmo, daí o famoso mote calvinista “ecclesia reformata semper reformanda est“. Por outro lado, se por “Reforma” nos referimos ao trabalho do Venerável Doutor Martinho Lutero e dos outros Confessores, daí a rejeição do credobatismo não só faz sentido, mas deve ser entendida como um elemento indispensável para a Reforma. Para o Dr. Lutero e toda a Igreja da Confissão de Augsburg, o credobatismo representava uma ameaça real ao Evangelho – especificamente ao Sola Fide e à correta distinção entre Lei e Evangelho.

Para melhor explicar este ponto, deixo aqui alguns excertos da obra “A teologia de Martinho Lutero” de Paul Althaus – um dos maiores especialistas em Lutero do século XX:

Lutero não só defendeu a validade do batismo infantil contra os ataques dos anabatistas, mas também atacou sua prática batismal e, à base do Evangelho, mostrou que tal prática era impossível.

Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, Ulbra 2008, p.387.

A partir desta constatação Paul Althaus mostra que haviam dois grandes motivos pelos quais a proposta credobatista dos anabatistas conflitava diretamente com o Evangelho:

Primeiro: fazendo o batismo depender da fé da pessoa a ser batizada, permanecemos sempre na incerteza sobre o direito de batizar alguém. Porque nunca podemos saber com certeza se o candidato ao batismo realmente crê. Não há um sinal indubitável de tal fé, nem sequer sua vinda ao batismo e sua confissão de fé. A posição dos batistas não tem uma base certa, e eles agem por isso sobre a incerteza. Isso, porém, é pecado. Algumas citações [de Lutero]: “Será que eles se tornaram deuses, que assim podem discernir os corações e saber quem crê ou quem não crê?” “Os anabatistas não podem ter certeza de que seu rebatizar é válido. Pois seu rebatizar pressupõe que a pessoa crê. Eles nunca podem ter certeza de tal fé, por isso seu rebatizar é um ato incerto. Mas agir em coisas espirituais na incerteza e dúvida é pecado e tentar a Deus“. Quem baseia o batismo na fé da pessoa a ser batizada não pode batizar ninguém.

Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, Ulbra 2008, p.388.

A lógica nos argumentos acima é muito simples. Batistas rebatizam adultos que foram batizados na infância, pois eles pressupõem que este adulto não tinha fé no momento do batismo. Eis o problema: quem garante que agora este mesmo adulto possui fé verdadeira? Ninguém. E é por isso que os adventistas são menos incoerentes que os batistas, pois eles rebatizam todos os adultos que se desviaram da fé e desejam voltar à comunhão da igreja – ainda que já tenham sido batizados após profissão de fé. Qual a lógica adventista? A mesma dos batistas. Eles pressupõem que não havia fé verdadeira no momento do batismo anterior.

Perceba o que está acontecendo aqui: saimos de uma sacramentologia cuja ênfase estava no objeto da fé oferecido a nós por meios externos, isto é, fora de nós (extra nos); e entramos numa sacramentologia cuja ênfase está na fé em si mesma. O resultado é que transformamos a fé em obras. Aqui a fé deixou de ser um orgão receptor, deixou de ter um papel passivo na salvação, e se tornou uma obra meritória, porque agora a confiança para administrar o batismo repousa sobre a fé. Sendo assim, é compreensível que para Lutero, sair da mão do Papa para cair na mão dos anabatistas era como que trocar seis por meia dúzia, na medida em que ambos semeavam a dúvida no coração das pessoas.

Paul Althaus segue explicando toda a questão envolvendo o Evangelho:

Segundo, batizar e deixar-se batizar à base da própria fé não só torna o batismo incerto, mas também é idólatra. Dessa forma, fazendo o batismo depender da fé, faço da fé uma obra. Assim, a prática do batismo não é outra coisa do que uma nova obra para justificação. Eles falam da fé, mas não enfatizam de fato a atividade e a obra. Isto é, na verdade, o diabo que promove entre eles a confiança em obras. Ele finge fé, quando na verdade tem obras na mente. Ele leva, sob o nome e a máscara da fé, o pobre povo a confiar numa obra. Os batistas querem reduzir o batismo e Santa Ceia, “que são a palavra e instituição de Deus, em uma mera obra humana… Eles não querem ser santificados pelo batismo, mas querem tornar o batismo bom e santo através de sua piedade”. Eles negam o caráter do batismo como a comunicação da graça de Cristo que, sozinha, nos torna santos e, ao contrário disso, eles mesmos querem tornar-se santos antes do batismo. Com isso, reduzem o batismo a um sinal desnecessário que os identifica como povo piedoso.

Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, Ulbra 2008, p.388-89.

Se por um lado, o credobatismo milita contra o Sola Fide, na medida em que faz da Fé um tipo de obra meritória na qual o cristão deve confiar; por outro, ele também confunde Lei e Evangelho. Nosso Senhor diz “Quem crê e for batizado será salvo“, colocando o batismo ao lado da Fé, afim de mostrar que esta doutrina (do Batismo) pertence ao Evangelho, e não à Lei. E o que dizem os credobatistas? Que o Batismo é para aqueles que já são santos, que já foram lavados – daí a sua insistência com o termo “ordenança” em relação ao batismo. Se para Nosso Senhor, o Batismo está vinculado ao Evangelho, ao perdão dos pecados, para eles, o batismo diz respeito antes à Lei, à obediência a uma ordenança.

O próprio Doutor Lutero ensina:

É verdade que devemos crer quando somos batizados, mas não devemos receber o batismo porque cremos. Uma coisa é ter fé, e algo completamente diferente é fiar-se em tal fé e deixar-se batizar em vista dela.

Dr. Martinho Lutero, WA 26,165; LW 40,252.

Confiar em Cristo é ter Fé. Confiar na Fé é idolatria. Paul Althaus também chama atenção para esta condenação específica nos escritos de Lutero:

Ser batizado pela segunda vez, porque a pessoa rejeita o batismo infantil, a existência cristã e a justiça que vem o batismo dá, considerando isso “inadequado”, significa que o passar da justificação pela fé para a justificação pelas obras foi feito. Pois em tudo isso, o segundo batismo é colocado como uma “justiça melhor”. […] A preocupação de Lutero com a pureza da justificação pela fé é a razão última de sua rejeição do rebatizar e oposição de substituir o batismo infantil pelo amplamente requerido batismo de adultos.

Paul Althaus, A teologia de Martinho Lutero, Ulbra 2008, p.390-91.

Voltando ao ponto inicial, podemos concluir dizendo que para Lutero é totalmente irrelevante a presença ou não de exemplos de crianças sendo batizadas nas narrativas bíblicas. Exigir tais exemplos obedece à lógica biblicista zwingliana, calvinista e mais tarde puritana. Mas a Igreja de Deus nunca seguiu este método, muito menos Lutero e os Reformadores. O que interessava para eles era se o batismo infantil conflitava ou se harmonizava com a Palavra de Deus (Evangelho), e o que Lutero percebeu é que o credobatismo falha miseravelmente com tudo aquilo que a Palavra de Deus ensina sobre o Batismo e a salvação. Ele milita contra o Sola Fide e contra a correta distinção entre Lei e Evangelho. Logo, ele é uma impossibilidade à luz do Evangelho, que é o centro teológico ao redor do qual a Reforma se estrutura.

FINIS

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