Qual era a opinião de Lutero sobre Aristóteles?

Não é segredo para ninguém que Aristóteles exercera enorme influência (via Tomás de Aquino) sobre toda a cristandade, incluindo protestantes e evangélicos. Também não é segredo que Malanchthon, Martin Chemnitz e Johann Gerhard faziam uso extenso de Aristóteles em seus livros e tratados. Mas e Lutero? É verdade que Lutero jogou fora toda a tradição escolástica? Lutero pode ser considerado o Pai do irracionalismo, e possivelmente um profeta do idealismo alemão? Eu penso que a resposta para todas essas indagações é um sonoro NÃO.

Apresentarei a seguir uma pequena quantidade de citações que provam o meu ponto.

A Apologia da Confissão de Augsburgo

Na Apologia da Confissão de Augsburgo encontramos o seguinte louvor à Aristóteles: “Pois Aristóteles escreveu de maneira tão erudita sobre ética civil, que, a respeito, nada mais é preciso exigir” (Apologia, IV, 14-15). Como um trecho desse passaria batido por Lutero? Como Lutero aprovaria um texto assim como documento oficial de sua igreja, se ele realmente odiasse o aristotelismo, como alguns críticos modernos argumentam!?

Daí surgem outras perguntas. Como Lutero aprovaria um texto confessional, cuja diposição, em Tópicos, fosse aristotélica? Como Lutero aprovaria tantas citações do Estagirita espalhadas pela Apologia? E como Lutero toleraria que termos aristotélicos fossem empregados para explciar a soteriologia confessional de sua Igreja? Com esta última pergunta me refiro ao uso, por exemplo, do termo aristotélico em latim causa finalis no artigo IV, parágrafo 51.

Eu sei que nada disso faz de Lutero um seguidor do aristotelismo. Mas é no mínimo curioso que o personagem principal por trás da Reforma Luterana permitisse que Aristóteles adentrasse tão profundamente no Livro de Concórdia, sendo ele mesmo um arqui-inimigo do aristotelismo cristão.

O Lutero de 1520

Então de onde surgiu toda essa história? Oras, é claro que ela tem um bom fundo de verdade. Ela surgiu com um texto infeliz de Lutero, em sua carta À Nobreza Cristã da Nação Alemã, em 1520, onde o mesmo escreve:

Nesse sentido, meu conselho seria que a Física, a Metafísica, o De Anima e a Ética de Aristóteles, que até agora têm sido considerados seus melhores livros, deveriam ser completamente descartados… nada pode ser aprendido deles sobre a natureza ou sobre o Espírito… Me entristece a rapidez com que esse maldito, presunçoso e pagão malandro tenha iludido e ridicularizado tantos dos melhores cristãos com seus escritos enganosos. Deus o enviou como uma praga sobre nós por causa de nossos pecados… Seu livro sobre ética é o pior de todos os livros. Ela se opõe categoricamente à graça divina e a todas as virtudes cristãs, e, no entanto, é considerada uma das melhores obras. Fora com esses livros! Mantenha-os longe dos cristãos.

Martin Luther, “To the Christian Nobility,” in The Christian in Society I, ed. James Atkinson and Helmut T. Lehmann, LW 44 (Philadelphia: Fortress Press, 1966), 200–201.

Uau! Realmente é possível sentir ódio exalando do texto (rsrs). O que Lutero diz aqui é justamente o oposto do que afirma tanto a Augustana quanto sua Apologia. E eu digo que é um texto infeliz, pois o próprio Lutero se retrata 23 anos depois.

O Lutero de 1543:

Em seu comentário ao capítulo 9 do profeta Isaías, Lutero diz:

Cícero ensinou de maneira excelente sobre as virtudes, a prudência, a temperança e o restante. Da mesma forma Aristóteles, de maneira excelente e muito instruída, sobre Ética. De fato, os livros de ambos, são muito úteis e da maior necessidade para a ordenação desta vida.

D. Martin Luthers Werke, Kritische Gessamtausgabe, 58 vols. (Weimar: Hermann Böhlau, 1883) (hereafter cited as WA), 40:608.

Percebem o que aconteceu? Não só o conteúdo, mas o jeito de escrever de Lutero muda drasticamente dentro de 23 anos. Eis um Lutero maduro, já sem os excessos da juventude, e capaz de discernir Aristóteles de seus intérpretes papistas.

O que será que houve nesses 23 anos que foi capaz de elevar a opinião de Lutero sobre Aristóteles? O meu palpite é que, da mesma forma que ele exercera influência teológica sobre Melanchthon, este seu aluno também exercera uma boa influência filosófica sobre ele. Melanchthon tinha seus problemas com sua tibieza de Espírito, mas era um gênio, sobretudo quando o assunto era Aristóteles.

Melanchthon, um amante de Aristóteles

É de minha opinião que Melanchton fora um dos maiores gênios da Igreja Evangélica, senão o maior. É um autor que me perturba pelas controvérsias envolvendo seu nome, e isso tudo só aumenta minha curiosidade acerca do reformador.

Philip Melanchthon foi considerado o Praeceptor Germaniae (O Professor da Alemanha), sendo um estudante e instrutor de Aristóteles nas disciplinas de Dialética, Retórica e Ética. Daí todo o vocabulário e metodologia aristotélicos que se deixam transparecer na Apologia.

Comentando a obra de seu amigo Simon Grynaeus, Melanchthon afirma “Porque, pelo seu favor, temos um Aristóteles mais preciso e mais refinado, que tu sabes que admiro, amo e aprecio muito.” [1]. Como se percebe, Melanchthon não teme declarar seu amor pelo Estagirita.

Ainda numa dedicatória à sua própria obra sobre Filosofia Moral ele escreve:

Portanto, como na escolha de um tipo de ensino é necessário escolher o que é correto, verdadeiro, simples, firme, bem ordenado e útil para a vida, acredito que as mentes jovens devem ser intruídas principalmente com a doutrina aristotélica, que nessas qualidades ultrapassa todas as outras escolas. Por quê? Porque a ética de Aristóteles também deve ser amada, pois somente ele viu e entendeu que as virtudes são estados intermediários. Por esta descrição, ele nos instrui com muita sabedoria que os impulsos da mente devem ser inclinados à moderação e à ordem.

Melanchthon, Orations on Philosophy, 141.

Creio que essas duas citações são mais que suficientes para fortalecer o meu palpite de que Melanchthon tenha sido de alguma influência na mudança de opinião de Lutero.

Conclusões

O que um luterano pode aprender com tudo isso?

Ainda que Lutero não tivesse mudado de opinião sobre Aristóteles, o luteranismo permaneceria em harmonia com o aristotelismo cristão. O vocabulário, o método, e os pressupostos por trás do Livro de Concórdia estão intimamente ligados ao aristotelismo cristão. Não apenas isso, mas os grandes teólogos da nossa tradição foram escolásticos em sua teologia – constituíram o que pode ser chamado de Escolasticismo Luterano, ou Escolasticismo Evangélico. Mas o fato é que Lutero terminou os seus dias com uma opinião bastante positiva a respeito da doutrina do Estagirita.

[1] Melanchthon, Orations on Philosophy, 112.

Minha jornada para o Luteranismo (Parte 2)

Como prometido, aqui vai a parte dois do breve relato de minha jornada espiritual para o Luteranismo. Nesse artigo tratarei dos finalmentes doutrinários que me fizeram decidir pela tradição luterana, e não pela anglicana, ou por um tipo de espiritualidade reformada menos puritana.

Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja

Uma das coisas que também aprendi com Richard Hooker foi ler as Escrituras com e como os Pais da Igreja. E o que isso significa?

  1. Com os Pais da Igreja: isto é, dar ouvidos aos Pais da Igreja. Certa feita eu disse a um jovem dispensacionalista que me criticava por eu apelar ao testemunho dos Pais: “Se eu não devo dar ouvido aos Pais da Igreja, por que eu deveria dar ouvidos a você?”. Nós estamos o tempo todo lendo livros, assimilando informações, pregações, pré-conceitos espistêmicos culturais, e etc. Por qual motivo nós não deveríamos ler as Escrituras junto com os Pais da Igreja!? Sobretudo com aqueles que estiveram tão próximos da pregação apostólica viva vox!? Algum consenso e alguma luz eles podem nos fornecer.
  2. Como os Pais da Igreja: talvez esta seja a parte mais importante do tópico. Apesar de todas as controvérsias e discussões em que estiveram envolvidos, todos eles tinham uma coisa em comum; acreditavam na clareza das Escrituras quando o assunto era a Doutrina Cristã. E quais as implicações dessa postura hemenêutica? O trabalho teológico se dava em cima de tópicos das Escrituras, e não em cima de sistemas de doutrinas. Por exemplo, se os textos x, y e z são claros a respeito de determinada doutrina, não devemos abrir mão desta doutrina, ainda que ela pareça conflitar com outros textos das Escritura. Daí a quantidade de tensões doutrinárias na Patrística. As tensões estão aí e elas devem ser respeitadas, pois elas são fruto de um equilíbro hermenêutico saudável. Devemos resistir o ímpeto primário de negar as tensões, para que elas se amoldem à nossa compreensão limitada e sitematizada.

Regeneração Batismal

Este tópico já foi tratado por mim com citações e textos bíblicos, e pode ser acessado aqui.

Não é segredo para nenhum estudioso mediano de história da Igreja o fato de que existia mais consenso na Patrística sobre regeneração batismal do que sobre a doutrina da Trindade. Percebem o peso da clareza das Escrituras aqui? Haviam muitas discussões sobre questões acidentais à doutrina do batismo, mas não sobre o seu significado.

A regeneração batismal é uma dessas tensões que devem ser respeitadas. E neste momento o meu leitor já deve estar querendo se esquivar dessa tensão, e deve estar se perguntando “mas não é pela fé somente que recebemos a Graça de Deus?”. Sim, mas onde está a contradição? O Batismo opera perdão dos pecados porque ele gera a fé em nós. A fé não é um hábito natural, mas é um dom sobrenatural. Vem de Deus, e não de vós (Ef 2:8,9). Por isso é que devemos batizar crianças, para que elas tenham fé e sejam lavadas da mancha do pecado original. Porque é impossível que tanto o adulto quanto a criança, por sua própria vontade e força, tenham fé. Mas Deus nos concede exatamente isso no batismo.

E se retiramos esta realidade sobrenatural do batismo? Não sobra absolutamente nada. Ele se reduz a uma mera “ordenança”, termo utilizado na Confissão de Fé de Westminster e na Confissão de Fé de 1689. Esta tendência de chamar o batismo de ordenança não tem seu início com os batistas, mas com aqueles primeiros reformados que começaram a negar a própria essência do batismo. Veja, meu leitor! Por qual motivo Cristo exigiria que cada um de seus discípulos se lavassem em nome da Trindade, se este lavar não fosse sobrenatural? Qual a lógica por trás disso? O batismo ordenança, o batismo esvaziado, é um mero cumprimento de dever. Por isso é tão difícil que batistas e reformados entendam que o batismo não é Lei, mas sim Evangelho.

O Sacramento do Altar

Finalmente, chegamos no momento de separar o joio do trigo, o momento mais especial de toda essa jornada. E quanto ao testemunho histórico sobre a Eucaristia, eu fiz as seguintes constatações:

  1. Até o século XVI a Igreja nunca havia confessado nada parecido ou semelhante ao memorialismo e sua versão calvinista, a “presença espiritual”.
  2. A doutrina católica romana da transubstanciação só começou a ser confessada no séxulo XI, sendo finalmente elevada a artigo de fé no século XIII com o suspeitíssimo Papa Inocêncio III. E esta mesma doutrina, desde o seu surgimento, sempre recebeu oposição de todos os lados, especialmente da Faculdade de Paris.
  3. A posição luterana quanto ao Sacramento do Altar é a única que pode concordar com os três testemunhos mais antigos da história da Igreja: Inácio, Irineu e Justino Mártir.

Em sua carta à igreja de Esmirna, fazendo uma referência aos docetistas, Santo Inácio diz que eles se abstinham da Ceia do Senhor, pois se recusavam reconhecer que “é a carne de nosso Redentor Jesus Cristo” [Epistle to the Smyrneans 6:2]. Isto parece indicar que a Igreja, desde o início, realmente entendia que discernir o corpo de Cristo signifca discernir o corpo de Cristo, e não outra coisa. É exatamente isto que os luteranos exigem ainda hoje, em pleno século XXI, daqueles que desejam participar do Sacramento do Altar. Percebam! Este é o testemunho de um Pai da Igreja que foi instruído diretamente pelos apóstolos.

Por sua vez, Irineu confessa exatamente a mesma compreensão luterana. Ele diz “Assim como o pão que vem da terra, ao receber a invocação de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia, feita de dois elementos, o terreno e o celeste […]” [Against Heresies III,3]. Ou seja, mesmo após a consagração estão presentes pão e corpo, vinho e sangue. Seria Santo Irineu um luterano? Aposto que darão um jeito de torná-lo papista.

E finalmente, São Justino Mártir, “Não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária… Mas assim nos foi ensinado que é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus Encarnado.” [First Apology 66]. Das três, esta é a citação que cabe alguma especulação. Havia muita especulação sobre como a carne e o sangue do Senhor estavam presentes. No entanto, nenhum luterano teria dificuldade em afirmar essas palavras.

Toda essa conversa poderia ser facilmente resolvida se atentássemos para o sentido mais natural e simples das seguintes palavras: Isto é o meu corpo. São as últimas palavras de Cristo, o seu testamento. Ele não estava falando por parábolas para uma multidão, como quando disse “Eu sou a porta“, “Eu sou o caminho“, etc. Não! Nada disso! Ele estava num lugar fechado e em particular com os seus, os discípulos esperavam provar um cordeiro, e então ele aponta para os elementos e diz “Hoc est corpus meum“. E a partir daí os seus discípulos sempre entenderam isso mesmo, que estavam comendo o corpo de Cristo.

Qual a única objeção plausível que fizeram a esta doutrina tão simples? Me disseram que as coisas não poderiam ser assim, pois Cristo está no céu, e não na terra (durante algum tempo este foi o único argumento que me fez resistir). Alguns chegaram até a usar Lc 17:23 para dizer que Cristo já havia profetizado sobre o engano da presença real. Tragicômico! Foi então que deixei o assunto da Ceia por um momento e me voltei para a Cristologia ortodoxa e ecumênica da Igreja, a Cristologia de São Cirilo de Alexandria, e fiz a seguinte pergunta: com base nesta Cristologia poderíamos afirmar que Cristo está presente na Eucaristia?

Communio naturarum e Communicatio idiomatum

A pergunta anterior poderia ser facilmente respondida com um sim, pelo simples fato de que São Cirilo se vale da presença real da Eucaristia para contrapor Nestório e Teodoreto. Mas antes de transcrever esta citação aqui, vamos ao conceito de Communio naturarum.

Com communio naturarum, a Igreja queria dizer que na união hipostática há uma comunhão entre as naturezas humana e divina de Cristo. E o que vem a ser esta comunhão? Para explicar esta comunhão, São Cirilo compara a união hipostática com a união do ferro com o fogo (num pedaço de ferro incandescente), e com a união da alma com o corpo. E por quê? Ora, assim como o fogo penetra o ferro, mudando sua cor e até sua forma, e assim como a alma dá a forma do corpo (conceito aristotélico), da mesma forma, ao ssumir a natureza humana, o Verbo Divino a ilumina completamente, comunicando-lhe seus atributos, e daí também podemos confessar uma communicatio idiomatum na união hipostática, ou seja, que há uma verdadeira comunicação de propriedades de ambas as naturezas na pessoa de Cristo.

Muita filosofia, talvez o leitor esteja pensando. Fiquemos então somente com as palavras da Escritura, “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9). A plenitude da divinddade não habita em Cristo como habita nos santos. Cristo não é portador da plenitude da divindade. Sua natureza humana não é portadora da natureza divina. O seu corpo é um corpo divino. Quando as pessoas lhe tocavam, tocavam o próprio Deus, não por título somente (como alguns reformados argumentaram no século XVI), mas porque o corpo que tocavam era o corpo de Deus, e isso mesmo antes de sua ascenção.

São Cirilo diz numa de suas réplicas “não é o corpo de um homem comum como nós que é oferecido, de acordo com nossa crença. Antes, é o corpo e o sangue que se tornou propriedade do Verbo que dá a vida a todos.” [Réplica de São Cirilo referento ao seu 7º Anátema e a Declaração Oposta de Teodoreto]. Vejam! Corpo e sangue, que são propriedades da natureza humana, também se tornaram propriedade do Verbo (da natureza divina).

Se é assim, é claro que não podemos aplicar as leis da natureza ao corpo do Nosso Senhor. Pois o seu corpo é divino. Este homem é Deus!

Por fim, é necessário reconhecer que em nenhum lugar as Escrituras afirmam que Cristo está preso no céu, porque as Escrituras não conhecem um lugar físico chamado céu. Cristo é e está onipresente, de maneira oculta, como prometeu que estaria até a consumação dos séculos. Ele não disse que estaria conosco em Espírito, ou somente com sua natureza divina. Esta distinção não é bíblica, e sim nestoriana. Portanto, devemos reconhecê-lo como Totus Christus, ainda que de maneira oculta. É o que registra São Lucas, E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.” [At 1:9]. Ora, a nuvem, em toda a Bíblia, é símbolo da presença gloriosa de Deus com o seu povo, como em 2 Cr 5:14, Is 6:4 e Êx 40:34. Cristo quer ser reconhecido de maneira oculta no Sacramento do Altar. Esta é verdade bíblica. Esta é verdade confessada pelos Pais e pela Igreja da Reforma. Esta é a verdade que dobrou minha razão.

FINIS

Minha jornada para o Luteranismo (Parte 1)

Faz tempo que as pessoas me pedem por uma explicação, um texto ou algo parecido, explicando minha “conversão” do puritanismo (congregacional batista) para o luteranismo. Então, o que se segue é uma resposta aos anseios de alguns amigos e pessoas queridas que gostariam de entender melhor minha fé.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que se você espera um texto polêmico e apologético, pode fechar a página do blog. Trata-se apenas de um relato bastante sucinto, no qual eu desejo falar de cada elemento teológico-espiritual que esteve me influenciando durante todo o caminho até aqui.

Conhecendo a tradição reformada

Apesar de sempre ter sido um ávido leitor de literatura reformada, nos últimos três anos eu conheci autores que mudaram completamente minha perspectiva sobre a tradição reformada (com a qual eu me identificava profundamente). O que todos esses autores tinham em comum? Todos eles eram discípulos diretos ou indiretos do grande teólogo reformado Richard A. Muller.

Mullher trouxe um renovo para a academia reformada. Ele esteve por trás de grandes mudanças na maneira de compreender a tradição reformada e a própria tradição da Igreja, como um todo. Ele desmascarou completamente aquela velha idéia de Calvino vs calvinistas, Reforma vs escolástica tardia, e também esteve por trás do redescobrimento do teísmo clássico, presente em absolutamente todas as confissões de fé reformadas, mas negado por muitos teólogos reformados modernos. Em resumo, Muller foi um dos grandes responsáveis por um novo ressourcement na tradição reformada.

Ler Muller e seus discípulos me fez perder o medo de estudar a fundo a história da igreja, conhecer o escolasticismo reformado e protestante, e finalmente, me ajudou a perceber que a Reforma foi um desenvolvimento natural da Igreja da idade média tardia e não uma revolução, como muitos fazem parecer. Mais do que isso, percebi que a tradição reformada era muito mais plural do que eu imaginava. A teologia de homens como Zanchi, Vermigli e Bucer não se encaixa numa Confissão de Fé de Westminster, muito menos numa Confissão de Fé de Londres (1689).

Pedobatismo

Talvez essa tenha sido uma das questões mais difíceis de aceitar. Como um bom batista reformado, eu li praticamente todos os melhores livros sobre credobatismo e pedobatismo, e sempre achei os argumentos presbiterianos muito fracos (raras exceções, ainda acho rs). Foi quando me deparei com duas questões intrigantes:

1 – A Teologia do Reino. No Novo Testamento a Igreja é a expressão visível do Reino de Deus na terra (Mc 4:30,34; 10:15; Lc 17:21; Mt 21:43; Ap 5:10). E esse mesmo Novo Testamento diz que o Reino de Deus pertence às crianças (Mt 19:14; 1Co 7:14). Mais do que isso, as Escrituras se dirigem às crianças, chamando-as de Igreja (Ef 6:1; 1Jo 2:14 – veja que as epístolas são dirigidas a igrejas, e não a igrejas e seus filhos. Esta distinção não é bíblica). Como eu nunca tinha percebido isso antes? Não é lógico? Até mesmo batistas tratam seus filhos como verdadeiros crentes no Senhor. As crianças participam dos cultos, cantam hinos, escutam a Palavra e ainda ORAM! Como alguém que ora e chama Deus de papai não pertence ao Reino de Deus? Isso definitivamente não faz nenhum sentido!

2 – A Teologia da Aliança. O argumento bíblico da teologia da aliança é insuficiente para estabelecer uma doutrina tão importante quanto o batismo. Não é assim que se estabelece uma doutrina. Ainda mais num tema tão controverso quanto a teologia da aliança. Mesmo dentro do meio batista-reformado existe uma pluralidade de opiniões sobre a estrutura pactual das Escrituras. Basta comparar as diferentes opiniões de John Bunyan, John Spilsbury, Nehemiah Coxe. Ou mesmo hoje, compare as diferentes opiniões de Sam Waldrom, James Renihan e Jeffrey Johnson. Existe mais discordância do que muitos estão dispostos a reconhecer, e isso também é verdade no presbiterianismo.

Princípio Regulador vs Princípio Normativo

Outra guinada em minha espirituaidade foi quanto à questão do culto. Foi o grande teólogo anglicano (e reformado) Richard Hooker quem me convenceu de que o Princípio Regulador é uma leitura extremamente forçada e enviesada do texto bíblico. E isso, por quê? Porque as Escrituras não tratam dos aspectos humanos do culto – pelo menos não diretamente. Não é pecado per se orar de olhos fechados ou abertos, congregar numa catedral ou debaixo de uma árvore, usar instrumentos ou cantar a capella, usar toga ou batina, congregar em determinados dias ou não, separar certos dias ou não, fazer uma liturgia cantada ou lida, e etc. Não é que essas coisas são indiferentes e sem importância. Mas praticá-las ou deixar de praticá-las, em si mesmo, não é errado.

Richard Hooker, em sua famosa obra The Laws of Ecclesiastical Polity, combate os puritanos radicais de seu tempo, e o faz de modo magistral e impecável, demonstrando que a Igreja é uma sociedade divina e humana. Logo, algumas leis são puramente de iuris humani, isto é, leis puramente humanas, não divinas. E a Igreja, ao longo dos séculos, desenvolveu sua própria tradição, sua própria cultura moldada pelas Escrituras, seu heróis (os santos), seus dias de celebração (para a memória dos santos e dos atos redentivos de Deus na história), o tesouro da liturgia histórica e os costumes (como fazer o sinal da cruz). Tudo isso é maravilhoso, relevante e extremamente edificante. No entanto, não pecamos se deixamos de fazer todas essas coisas. O problema é que sempre que deixamos de fazê-las, começamos a colocar outras coisas no lugar, e daí, deixamos a cultura secular invadir a Igreja.

E onde está o aspecto divino da Igreja? Está no mistério, no Evangelho e nos Sacramentos, naquilo que Deus faz. É Deus quem converte o pecador. É Deus quem batiza. É Deus quem está presente corporalmente nos Sacramentos. É Deus quem inspirou as Sagradas Escrituras. Não podemos alterar essas coisas, jamais. Podemos pregar com ou sem microfone, podemos usar muita água ou pouca água no batismo, podemos utilizar hóstia ou pão comum, vinho tinto ou seco, mas nada disso poderá mudar o mistério divino.

Mas então quer dizer que podemos fazer qualquer coisa no culto? É óbvio que não! O que o Princípio Normativo do Culto ensina é que devemos lançar mão dos princípios gerais das Escrituras e da Lei Natural para desenvolvermos o nosso culto a Deus, e é claro, sem jamais ferir a Palavra de Deus.

Nem reformado, nem luterano

Depois de ler o livro IV das Laws de Hooker, eu estava completamente perplexo. Comparei o que li ali com François Turretini, Calvino, Ames, e não encontrei nenhum teólogo que refutasse os argumentos de Hooker.

Mas de onde Hooker retirou essas idéias? O próprio Hooker admite a influência das Igrejas Germânicas (Luteranas) sobre o seu pensamento. Ele diz que neste ponto, os ingleses deveriam imitar a reforma conservadora de Lutero, que procurou reformar apenas a doutrina e aquilo que era escandaloso na missa papal. Foi aqui que voltei os meus olhos pela primeira vez para esta Igreja a que apelidaram de luterana, e que promoveu uma reforma conservadora.

Durante esse período me senti tentado a abraçar o anglicanismo, mas não conheci nenhuma Igreja Anglicana conservadora no Brasil. A maioria eram carismáticos (o que rejeito), e além disso também eram inclusivistas, defendiam ordenação feminina, casamento gay e todo tipo de lixo moderno. Esse com certeza foi um dos motivos que me levaram a estudar o luteranismo com mais interesse. Eu queria uma reforma conservadora, uma Igreja do Evangelho, mas que fosse Católica em sua estrutura e liturgia.

Na próxima parte desse artigo irei tratar da Ceia do Senhor, e de como estudar a Cristologia da Igreja Antiga foi fundamental para que eu me tornasse um luterano.