A Rejeição da Psicologia e a Psicologização: duas faces de uma mesma idolatria

Um artigo inspirado em Dooyeweerd num blog tomista? SIM! E qual o problema? Eu continuo sendo um tomista reformado e justamente por isso tenho mais liberade para apreciar a filosofia reformacional e absorver dela até onde me é possível. E ultimamente tenho desenvolvido um trabalho na filosofia de Herman Dooyeweerd, aplicando-a na minha área de atuação (psiquiatria e psicologia médica). Na verdade, já existem muitas pessoas fazendo isso. Talvez o caso mais ilustre seja o do psiquiatra Dr. Gerrit Glas, que tem escrito bastante sobre o tema numa perspectiva reformacional. Sou grato a ele por tudo que aprendi em seu Person-Centered Care in Psychiatry.

Ora, voltemos à questão principal aqui. Quero lhes mostrar que tanto a psicologização quanto a rejeição da psicologia são duas faces de um mesmo tipo de idolatria: a absolutização de um aspecto modal da realidade em detrimento de outros.

A Psicologização já tem sido muito combatida desde a década de 70, quando do surgimento do movimento de esquerda conhecido como movimento antipsiquiatra – que parece ter exercido larga influência sobre o pensamento do teólogo americano Jay E. Adams, como aponta o Dr. Alan Thomas em seu livro Tackling Mental Illness Together. Desde então, críticas muito mais inteligentes surgiram contra a psicologização, como aquelas escritas pelo Dr. Darymple (psiquiatra e filósofo) e do grande filósofo conservador Roger Scruton. Por que eu cito esses dois como exemplo? São dois autores que tecem críticas profundas contra a psicologia, mas ao mesmo tempo apresentam propostas de reforma, de reformulação. Essa ideia de criticar só para destruir é demoníaca, revolucionária e despreza milênios de conhecimento acumulado. Ou seja, é anti-conservadora, anti-cristã e anti-progresso ao mesmo tempo. É estranho como alguns pretensos conservadores, no afã de combater a secularização, se tornam eles mesmos revolucionários.

Mas qual seria a maior crítica contra a psicologização? A principal denúncia dos autores supracitados é a de que a psicologia pode roubar o valor espiritual e humanístico de certas experiências universais, tais como o sofrimento, o luto, a separação e a criação dos filhos. Ou seja, as críticas parecem ir no sentido que a psicologia é prejudicial quando ela abosorve outros campos do conhecimento de maneira ensimesmada. Isso é o que Dooyeweerd chamaria de absolutização de um aspecto modal. É desprezar os aspectos sociais, espirituais, e interpretá-los todos em termos de símbolos e signos psicológicos.

Para que entendamos melhor isso, vejamos o seguinte gráfico que retirei da página O Escrituralista no facebook:

Esquema representativo da Teoria dos Aspectos Modais da Realidade (de Dooyeweerd)

Veja que a psicologia representa apenas um aspecto modal da experiência. Não é tão difícil de entender (meus colegas de medicina sem nenhum treinamento em filosofia ficaram maravilhados quando lhes apresentei esse quadro). De acordo com Dooyeweerd, quando desprezamos qualquer um desses aspectos modais como inúteis, isso revela uma idolatria do nosso coração, nossa tendência em enxergar as coisas sempre do mesmo ângulo. E pasmem, mesmo a Fé aqui pode se tornar um aspecto idolátrico e absolutizado.

E quanto àqueles que desprezam o aspecto psicológico da experiência humana? Isso é, aqueles que rejeitam a psicologia. Bom… Pode parecer estranho criticar um grupo tão pequeno de pessoas, mas acredito que todo questionamento por menor que seja deve ser respondido. Faz tempo que tenho notado no meio reformado – ao qual eu pertenço – um certo ranço fundamentalista não somente em relação à psicologia, mas a todas as ciências ditas humanas. Outro dia li um autor dizer – sem qualquer pudor – que a Igreja não necessita de sociologia, filosofia e ciências humanas. E infelizmente esse livro foi publicado por uma editora reformada. Também não faz muito tempo, li uma citação de um livro de aconselhamento bíblico, na qual um pastor chama a psicologia de pseudociência (o engraçado aqui é que esse mesmo pastor pertence a uma tradição conhecida por defender um camaleão teológico).

Eu entendo perfeitamente que esses homens estejam habituados com um tipo de ethos marxista, feminista e secular reinando nas ciências humanas. Mas essa apologética antitética lançada contra a psicologia é uma apologética do ressentimento, e que nunca foi ensinada pelo Nosso Senhor Jesus Cristo. Homens assim precisam aprender aos pés de Douglas Wilson, R C Sproul, N T Wright, Vermigli, Santo Tomás, Santo Anselmo, etc. Homens de conhecimento enciclopédico, que se colocaram a estudar o mundo sem preguiça e indisposição, para conhecer o Universo criado por Deus e dele extrair toda a sabedoria possível.

Bradford Littlejohn, presidente do Davenant Institute, já chamou atenção para o efeito devastador do pensamento hiper antitético dos chamados “guerreiros da cosmovisão”, pessoas que acreditam que conhecer os conceitos de criação, queda e redenção lhes é suficiente para opinar sobre cultura, música, sociedade, política, arte, etc. Nada mais enganoso! Isso tem gerados cristãos com a mente ressequida, com a língua veloz para criticar e com muito pouco a oferecer.

Creio que a crítica do Bradford Littlejohn vai exatamente ao encontro da minha tese sobre aqueles que rejeitam a psicologia por questões religiosas: o fazem por absolutizar o aspecto pístico da experiência. E quando se comportam dessa maneira estão idolatrando esse aspecto (sua religião professada), e consequentemente desprezando o aspecto psicológico da experiência. Isso fica muito claro quando colocam o Evangelho em oposição à Psicologia como fonte de cura para as enfermidades da alma.

O que Dooyeweerd chama de antítese dos aspectos modais é exatamente o que acontece aqui. A idolatria faz com que diversos aspectos que são apenas modos de ser da experiência, comecem a competir entre si. No entanto, essa competição só existe na mente do idólatra, daquele que fez da sua própria fé um ídolo de barro. Isso é, quem disse que o Evangelho está em competição com as Escrituras? Quem disse que a psicologia precisa funcionar como um paliativo, um substituto do Evangelho?

Um Exemplo de como Evangelho e Psicologia não precisam estar em oposição:

Por meio do princípio da Analogia Entis (tão odiado por Karl Bath) a humanidade sabe, ao menos desde Aristóteles, que tanto os homens como os animais possuem certas cognições em comum. Animais têm medo, tristeza, alegria, prazer, ira, ou seja, apetite concupscível e apetite irascível. E são exatamente esses apetites que se encontram em profunda desordem na maioria dos transtornos mentais que acometem os seres humanos. Perceba, não há nada de espiritual nisso. De outra forma, teríamos que assumir que os animais também possuem o mesmo relacionamento espiritual que temos com Deus. Agora perceba, as desordens espirituais estão situadas nos apetites intelectivos, ou seja, na razão e na vontade. Mas veja só que interessante, dependendo do nível de desordem dos apetites inferiores (concupscível e irascível), o ser humano perde a razão, um potência espiritual e superior. É o exemplo dos pacientes em surtos psicóticos, em quadros de delirium, demência, episódios de mania aguda e depressão bipolar grave. Tente conversar com qualquer ser-humano num estado assim. Tente ler a Bíblia para ele. Ele não te ouvirá. Na verdade ele pode até avançar em você. E advinha só, ele nem se lembrará de você no outro dia. Veja como é irracional tentar colocar o Evangelho em oposição à psicologia ou à psiquiatria quando falamos em transtornos mentais.

Enfim, eu poderia escrever textos e mais textos provando a irracionalidade dessa perspectiva idólatra e distorcida da realidade. Mas ao invés disso, eu apenas convido meus oponentes a estudarem o assunto, e encerro com uma célebre frase de Aristóteles:

Diferentes ciências admitem diferentes graus de certeza.

Educação Orientada para a Virtude – uma proposta de Vermigli.

Muito tem sido produzido em termos de literatura sobre educação cristã, homeschool, educação clássica, etc. No entanto, muitas vezes esses livros são superficiais e se resumem a propor uma antítese às ideologias contrárias às Escrituras – a chamada “guerra das cosmovisões“. Creio eu, e espero exemplificar aqui, que a tradição reformada tem muito mais a oferecer sobre o assunto e, sendo assim, podemos extrair dela algo maior e melhor do que simples conteúdo apologético.

Talvez a mente mais brilhante de toda a tadição reformada tenha sido o reformador italiano Pietro Martyr Vermigli. Educado sob as luzes do Tomismo, pôde iluminar a teologia protestante com o que havia de melhor na filosofia e nas humanidades em geral. Vejamos então um pequeno texto em que Vermigli trata da finalidade da educação:

Pois a aptidão da mente para essa ou aquela faculdade se origina do temperamento do corpo; essas inclinações e propensões de caráter pertencem […] ao potencial inato. Porque essas inclinações são dadas a cada um por natureza e não derivam do zelo ou da diligência. E é a responsabilidade dos mestres e tutores explorar desde o início os talentos e inclinações de um garoto deixado aos seus cuidados. Se um tutor nota que seu pupilo não possui nenhum talento para uma dada disciplina ou arte ele deve compartilhar suas observações com o guardião da criança para que o estado não perca um cidadão útil. Porque então o garoto pode ser enviado para aprender aquelas habilidades que ele é naturalmente capaz de adquirir. Assim, tanto a educação pública quanto a educação privada dos jovens, requer enorme atenção.

Peter Martyr Vermigli, Commentary On Aristotle’s Nicomachean Ethics, PML Vol.9, p.43.

Em primeiro lugar, o reformador italiano chama a atenção do leitor para a realidade de que cada ser humano é biologicamente inclinado para certos tipos de atividades. Exímio conhecedor de toda a obra do famoso médico Galeno (citado amplamente em seus livros), Vermigli não ignora a realidade natural e biológica do ser humano. Creio que também não deveríamos fazê-lo. Devemos nos conhecer, como dizia o antigo Sócrates, e nos conhecer envolve descobrir o nosso temperamento. Certas pessoas são naturalmente mais proativas e enérgicas, lidam bem com situações de stress e se sobressaem em sports e em testes de resistência. Outras, possuem um período de latência maior para responder às exigências do seu ambiente, são mais pacatas e talvez se saíriam melhor num emprego mais burocrático, ou mesmo ouvindo as pessoas para então aplicar algum conselho, terapia, etc. Enfim, podemos pensar em mil e uma possibilidades de carreiras acadêmicas e profissionais que são mais adequadas a certos tipos de temperamentos.

Em segundo lugar, Vermigli alerta sobre a importância dos professores ou mestres na formação acadêmico-profissional dos jovens. E aqui eu sei que posso comprar uma boa briga com pais homeschoolers, mas devo ser honesto com a itenção do autor. Uma boa educação para Vermigli deveria ser fornecida por pessoas extremamente capacitadas, um verdadeiro scholar. Ou seja, não é você papai e mamãe que estão aprendendo latim a essa altura da vida. Esse mestre deveria ser capaz então de entender as potencialidades naturais do jovem desde cedo, conhecendo sua natureza de maneira profunda para então orientá-lo da melhor maneira possível. Quantos fracassos seriam poupados se essas coisas fossem aplicadas hoje! Quantos homens sem nenhum interesse intelectual maior deixariam de ir para o seminário, poupando assim recursos e decepções na igreja… Por outro lado, quando começamos a explorar nossos talentos naturais, abrimos o nosso horizonte de consciência e ganhamos um fôlego incomum para agir e intervir no mundo, na vida do próximo, como nunca antes fizemos. Como deveríamos valorizar isso! Pais, valorizem isso!

Em terceiro lugar, devemos notar que para Vermigli o cumprimento da vocação não é um sucesso somente para o indivíduo, mas também para o estado. Com “estado” Vermigli quer dizer a adminsitração geral da sociedade, o que, é claro, envolve também o magistrado civil. O cumprimento da nossa vocação só pode redundar no serviço ao próximo e no florescimento da sociedade. Se você ainda não possui isso em mente, você precisa trabalhar urgentemente a sua vida interior, e talvez deva procurar um mestre que o oriente melhor sobre isso. Mas já lhe adianto: procurar pela sua vocação envolve sempre procurar progredir e prosperar em todas as áreas mais básicas da vida em primeiro lugar, como por exemplo, o sustento financeiro. Se você não possui dinheiro para se sustentar, não deveria se preocupar com vocação a menos que alguém esteja financiando sua vida de estudos. Se esse for o caso valorize isso como se fosse seu próprio sangue. Alguém investiu em você como um agricultou investe num solo, cultivando-o até que possa contemplar uma árvore frondosa e cheia de frutos. No modelo de educação vermigliano todos devem ser árvores frutíferas. Isso é bem diferente do padrão com o qual nós estamos acostumados, em que todos desejam apenas tomar os frutos para si, as vezes até mesmo esperando que eles caiam do céu.

Veja quantos aspectos Vermigli leva em conta quando trata apeans brevemente sobre a questão da educação: aspectos biológicos, psíquicos, individuais e sociais. Isso vai muito além de compreender conceitos de cosmovisão.

Esse modelo de educação é o que eu chamaria de Educação Orientada para a Virtude, pois ela envolve a excelência (areté) de si mesmo, visando a excelência do serviço prestado ao próximo e à sociedade, e finalmente culimando com a excelência da comunidade em que estamos inseridos. Utopia? Talvez, mas foi esse modelo de educação que esteve por trás do florescimento de grandes cidades desde a Idade Média até o Renascimento.

A Solução de Turretini para a Psicologia Moderna (Parte 2)

François Turretini

Neste artigo tentarei responder a seguinte questão: quais são os obstáculos que impedem o homem natural de se conformar à Lei Natural?

Ora, se existe uma lei natural que pode ser acessada e em certa medida obedecida pelos homens, trazendo-os assim a um estado de vida mais honroso, feliz e pacífico; quais seriam os obstáculos para esse florescimento que pode ser obtido pelas faculdades humanas?

Turretini nos explica como o homem natural apreende essa lei:

Ora, dentre essas noções, algumas são primárias (a que chamamos princípios), outras secundárias (chamadas conclusões). Os princípios são aqueles que (sendo de si mesmos conhecidos e em tudo inamovíveis, fundamentados no bem comum), pelo auxílio da razão, geram conclusões de si mesmos. Estes são reduzidos ao fundamento do bem comum; são ou mais próximos, imediatos e (como dizem) pertencentes ao primeiro ditame da natureza (os quais são proximamente deduzidos dos princípios e prontamente entream no conhecimento); ou mediatos e mais remotos (os quais pela consequência mais remota e com maior dificuldade são deduzidos dos princípios). Os primeiros não admitem nenhuma variedade; os segundos admitem uma grande variedade nesta natureza corrompida.

François turretini, compêndio de teologia apologética II.XI.XI.

Aqui Turretini separa aquele conhecimento natural que pode ser chamado autoevidente, do conhecimento (também natural) que é lógicamente deduzido daquilo que é autoevidente. E assim, quanto mais deduções forem necessárias para a construção de um determinado conhecimento, menos exato e inequívoco ele será – daí a necessidade de testar/provar todo conhecimento deduzido.

Mas veja, se só pudéssemos confiar no conhecimento autoevidente, jamais entraríamos num prédio de dez andares, pois nada ali é autoevidente. Da mesma forma, muito do que é feito num consultório de psicologia ou psiquiatria é (ou deveria ser) baseado em evidências, testes randomizados com centenas de pacientes e um conhecimento humanístico acumulado há mais de dois mil anos.

Na verdade, a técnica psicoterapêutica com maior eficácia na prática clínica nos dias de hoje, a Terapia Cognitivo Comportamental [TCC], consiste justamente em fazer com que o paciente se desfaça de conclusões/raciocínios chamados desadaptativos, que lhe são prejudiciais. Trata-se de uma ferramenta de enorme potencial, sobretudo nas mãos de um profissional que saiba o que vem a ser um homem virtuoso.

No entanto, existem outras barreiras ao uso apropriado da lei natural. Turretini continua:

[…] esta lei foi de muitas formas corrompida depois do pecado, pela corrupção natural, pela educação errônea [a tradução mais correta aqui seria “educação ruim”] e pelos costumes viciosos.

FRANÇOIS TURRETINI, COMPÊNDIO DE TEOLOGIA APOLOGÉTICA II.XI.XI.

Essa lista de “obstáculos” é muito comum e aparece em diversos tratados puritanos sobre a Lei Natural, como em Vindiciae Legis, do puritano Anthony Burgess. E o que quer dizer cada item dessa lista?

Ora, por corrupção natural, Turretini se refere à corrupção da natureza. Aqui poderíamos enumerar a fraqueza da razão e da vontade, como duas faculdades da mente que não operam como deveriam. Por vezes, não conseguimos distinguir o certo do errado, e ainda, por vezes, a vontade é tomada pelas paixões desordenadas, e não obedece ao que a razão estabelece como bom, justo, honesto e verdadeiro. Exemplo disso são as pessoas que sofrem com TOC, e verificam dezenas de vezes se fecharam a porta de casa ao sair ou ainda quando imaginam que toda sua família morrerá se ela não contar todos os carros que encontrar na rua. Também poderíamos citar aqui o próprio processo de envelhecimento, o qual muitas vezes leva a um estado demencial em que a memória, a corrdenação motora e a cognição estão prejudicas. Eis a nossa natureza! Ela mesma é o principal obstáculo para compreendermos a lei natural. Mesmo se passamos uma vida inteira mais ou menos nos conformando a essa lei, podemos chegar na velhice e esquecê-la completamente. A Graça reside no fato de que Deus nunca se esquecerá de nós!

Quanto à influência de uma educação errônea [ruim] é fácil perceber como isso, muitas vezes, impede as pessoas de conhecerem a verdade das coisas. Poderíamos citar o exemplo da educação nazista, da educação comunista, da educação proposta por Paulo Freire no Brasil etc. São todas filosofias de educação que, na história, impediram a prudência e a sabedoria de crianças e jovens que foram moldados para compreender o mundo em termos de uma ideologia política. Por outro lado, podemos citar aqui também as crianças que não têm acesso a nenhum tipo de educação. Na psiquiatria, dizemos que essas crianças estão “queimando imprint”, ou seja, estão disperdiçando etapas essenciais para o seu neurodesenvolvimento e florescimento pessoal e, assim, jogando fora o potencial inato que lhes fora dado por Deus.

O Reformador Pietro Vermigli também compartilha dessa mesma idéia quando escreve sobre a relação entre virtude e educação:

Pois, se não houver nenhum estudo de leis e moral e nenhuma disciplina de educação, nós não desenvolvemos nossa mente na virtude.

Peter martyr vermigli, commentary on aristotle’s nicomachean ethics, pml vol.9, p.55.

Por fim, Turretini fala também dos costumes viciosos. E o que seriam? O vício, na concepção aristotélico-tomista na qual o autor está inserido, seria qualquer hábito essencialmente ruim, ou seja, um costume inerentemente prejudicial para o homem. São inúmeras as relações entre vícios e transtornos mentais; aqui falamos não somente do álcool, do cigarro e outras drogas ilícitas, mas também da comida, do sexo e até mesmo de jogos. Todo vício entorpece em maior ou menor grau os sentidos e as faculdades superiores do homem – ou seja, a razão e a vontade.

No próximo e último artigo da série tratarei do lugar da culpa na psicologia e como isso se relaciona com a Graça (nesse caso, para aqueles de nós que cremos nela).

A Solução de Turretini para a Psicologia Moderna (parte 1)

François Turretini

Em 1897, o Papa João Paulo II realizou um discurso ao tribunal da Rota Romana, no qual criticava a psicologia moderna e seu conflitos com a religião cristã, mas sem deixar de reafirmar o valor dos avanços científicos nesse campo de estudo. Abaixo, segue-se uma de suas principais críticas:

[…] a visão antropológica, a partir da qual se movem muitas correntes no campo da ciência psicológica no mundo moderno, é decididamente, em seu conjunto, irreconciliável com os elementos essenciais da antropologia cristã, porque se fecha aos valores e significados que transcendem o dado imanente e que permitem ao homem orientar-se ao amor de Deus e do próximo como a sua vocação última.

João paulo II, la incapacidad psíquica y las declaraciones de nulidad matrimonial. discurso ao tribunal da rota romana, aas, lxxix (1987), págs. 1453-1459; 1455. apud. de aristóteles a freud, m. f. echavarría. edições c. i., pág 88.

A maioria dos protestantes não teria dificuldades em concordar com as palavras de João Paulo II. No entanto, a grande maioria também não saberia propor soluções para remediar o problema para o qual ele aponta.

Quando João Paulo II fala que a psicologia moderna “se fecha aos valores e significados que transcendem o dado imanente e que permitem ao homem orientar-se“, obviamente, ele se refere à revelação natural e sobrenatural, as quais devem orientar a vida psíquica, moral e sobrenatural do homem, e, isso, nesta ordem. Mas é sobretudo à Lex Naturalis (Lei Natural) que ele se refere. É a Lei Natural que está disponível a todas as pessoas, independentemente de qual seja a religião delas. Por meio dela (1) conhecemos a ordem da natureza, e de nós mesmos enquanto criaturas; (2) somos preparados para a Graça; (3) e desvendamos a sabedoria humana que a todos está disponível.

Assim, a Lei Natural é fundamental para a psicologia, enquanto ciência que estuda a ordem interior do homem. Como saber o que é um homem são? E até onde um dado sentimento, afeição ou comportamento pode ser considerado normal? Quais hábitos devem ser exercitados para cultivar uma mente saudável? Essas são algumas poucas perguntas que a psicologia se faz o tempo todo, apesar de formalmente negar que haja uma ordem no Universo. Não seria a hora de reconhecer essa ordem que está dada e acessível a cada um de nós!?

A doutrina da Lei Natural e o seu uso, conforme exposta por Turretini pode em muito nos ajudar a solucionar esses problemas. Vejamos o que ele escreve sobre o assunto:

Os ortodoxos […] afirmam que há uma lei natural, […] uma obrigação divina impressa por Deus na consciência do homem em sua própria criação, na qual se fundamenta a diferença entre certo e errado e que contém os princípios práticos da verdade imutável (tal como: “Deus deve ser cultuado”, “os pais devem ser honrados”, “devemos viver virtuosamente“, “a ninguém injurie”, […] Além disso, tantos remanescentes e evidências desta lei ainda são deixados em nossa natureza (embora tenha sido de diferentes formas corrompida e obscurecida pelo pecado) que não há mortal que não sinta a sua força, quer mais quer menos.

François turretini, compêndio de teologia apologética, ed. cultura cristã, vol. 1, pág. 19.

François Turretini parece afirmar aqui que a Lei Natural ensina aos homens a maneira certa de agir em relação si mesmo e aos seus pares. E que não há ninguém “que não sinta a sua força, quer mais quer menos“. Ou seja, certas pessoas são mais orientadas que outras, regem suas vidas baseadas nessa lei, ao menos em alguma medida.

Não é difícil concordar com Turretini aqui. Como pais cristãos, espíritas, budistas ou ateus conseguem criar famílias saudáveis? respeitar o matrimônio, formar filhos disciplinados e obedientes, e praticar certos atos virtuosos?

Ora, mesmo os não-cristãos são guiados pela Lei Natural, quer mais quer menos, e, por isso, colhem bons frutos quando ordenam suas vidas conforme essa regra universal. É o que afirma Turretini:

[…] as ações morais dos pagãos não são per se pecados (e quanto à substância da obra), mas por acidente (quanto ao modo de operação) nas condições essenciais (em virtude das várias imperfeições supramencionadas). […] A recompensa terrena […] se relaciona apenas com as coisas perecíveis que Deus outorga indiferentemente aos réprobos e aos eleitos. Essa é uma prova notável da justiça divina, com o fim de ensinar o quanto a verdadeira piedade lhe agrada quando ele não só remunera as virtudes genuínas com recompensas eternas, mas também as imagens das virtudes com bençãos temporais […].

FRANÇOIS TURRETINI, COMPÊNDIO DE TEOLOGIA APOLOGÉTICA, ED. CULTURA CRISTÃ, VOL. 1, PÁG. 846-7.

Algum cristão poderia retrucar “mas isso não conduziria o homem por um caminho de salvação por obras?”. A reposta é não. A Lei Natural instrui e preserva o homem até onde a natureza permite. Até aí o homem se beneficia dela. Daí em diante, ele precisa encontrar a Graça, sem a qual ele não pode prosseguir para o seu pleno desenvolvimento, ou seja, a vida sobrenatural.

É claro que no meio do percurso há muitos obstáculos que impedem o homem natural de fazer um bom uso possível dessa lei. São justamente esses obstáculos que preparam o homem para a Graça. Veremos isso melhor na parte 2 desse artigo.

Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais? (João 3:12)

Uma Conversa com o Dr. Richard Baxter sobre Depressão

Dr. Richard Baxter

O que segue é uma conversa imaginária com o famoso puritano Richard Baxter. Sendo assim, as perguntas abaixo foram elaboradas por mim mesmo, enquanto que as respostas foram extraídas de seus escritos.

Dr. Baxter, creio que talvez eu esteja sofrendo de depressão. Tenho me aconselhado com várias pessoas na igreja, já mudei minha alimentação e meus maus-hábitos de vida, mas continuo bastante deprimido, e chego a perder várias noites de sono durante a semana. Será que eu não deveria procurar um médico ou tomar algum tipo de remédio?

Se outros meios não funcionarem, não negligencie os remédios; e, embora as pessoas depressivas sejam avessas a eles, pensando que a enfermidade é apenas na mente, devem ser convencidas ou forçadas a tomá-los.

Richard Baxter, superando a tristeza e a depressão com a fé, ed. vida nova (p. 1103 de 1346 do kindle)

O senhor já conheceu alguém, talvez algum membro de sua igreja, que precisou tomar algum remédio para a depressão?

Conheci uma senhora com uma depressão profunda: há muito não falava, não tomava remédios nem suportava que seu marido deixasse o quarto. Em meio a toda aquela restrição e dor, ele faleceu. Então ela foi curada pelas drogas colocadas à força em sua garganta por um tubo.*

RICHARD BAXTER, SUPERANDO A TRISTEZA E A DEPRESSÃO COM A FÉ, ED. VIDA NOVA (P. 1108 DE 1346 DO KINDLE)

*Ainda hoje alguns pacientes são tratados de forma involuntária, caso ele ofereça um risco real para si ou para outros. Nos séculos XVI-XVII, esta prática era realizada com maior frequência.

Percebo que o senhor parece entender bastante do assunto. Então, por favor, me diga que tipo de médico eu deveria procurar.

escolha um médico que seja especialmente capacitado para tratar dessa doença* e tenha curado muitas outras pessoas. Não se relacione com mulheres e ostentadores ignorantes, nem com jovens inexperientes, nem com homens apressados, ocupados e que fazem mais do que podem, que não conseguem ter tempo para estudar as doenças de seus pacientes, mas escolha homens que sejam experientes e cautelosos**.

RICHARD BAXTER, SUPERANDO A TRISTEZA E A DEPRESSÃO COM A FÉ, ED. VIDA NOVA (P. 1108 DE 1346 DO KINDLE)

* Já no início da Idade Moderna, começavam a surgir as especialidades dentro da medicina. Provavelmente Baxter se referia a um tipo de médico especialista em doenças com manifestações mentais. Hoje, os profissionais que tratam de depressão e outros transtornos mentais são o psiquiatra e o psicólogo.

** Possivelmente Baxter se referia aos charlatães de sua época; pessoas que viajavam de cidade em cidade vendendo poções milagrosas e oferecendo tratamentos questionáveis. Infelizmente, ainda hoje, a prática continua comum.

Mas Sr. Baxter, os pastores não deveriam ser responsáveis por pastorear e cuidar das almas dos crentes?

Os medicamentos e a teologia nem sempre são administrados juntos pela mesma mão. […] Meu conselho é que aqueles que podem ter um médico circunspecto, cuidadoso, honesto, experiente, capacitado e vivido, não negligencie o seu uso. […] A doença chamada melancolia se instala formalmente no espírito, cujo desequilíbrio o desqualifica para seu ofício, servindo à imaginação, compreensão, memória e afeições. Assim, por meio do seu desequilíbrio, a faculdade do pensar fica enferma e se torna enferma como um olho inflamado ou um tornozelo torcido, incapaz de realizar um trabalho adequado.

RICHARD BAXTER, SUPERANDO A TRISTEZA E A DEPRESSÃO COM A FÉ, ED. VIDA NOVA (P. 1115 DE 1346 DO KINDLE)

Entendo… Mas a maioria dos casos de depressão têm sua origem na alma, e não no corpo. Mesmo nesses casos, ainda assim seria correto buscar ajuda de um médico?

Embora a doença comece na mente e no espírito, e o corpo ainda esteja são, o físico, se for purgado frequentemente, é curado. Mesmo que o paciente diga que as drogas não podem curar a alma, a alma e corpo estão ligados de modo maravilhoso nas doenças e nas curas. E ainda que não saibamos como isso acontece*, ao menos a experiência nos diz que acontece, e temos motivos para usar tais meios [os remédios].

RICHARD BAXTER, SUPERANDO A TRISTEZA E A DEPRESSÃO COM A FÉ, ED. VIDA NOVA (P. 1140 DE 1346 DO KINDLE)

* Hoje, por meio de estudos de neuroimagem, compreendemos com muito mais clareza como isto acontece. Por exemplo, pacientes que passaram por situações traumáticas durante a infância, apresentam menor neuroplasticidade na vida adulta e tendem a apresentar hiperfuncionamento em certas áreas do cérebro. É impressionante a maneira como Baxter reconhece e trabalha estas relações e conceitos que até hoje são objeto de discussão científica e filosófica.

FINIS

Psicologia Pré-Moderna em Vermigli

Nos últimos cem anos, com a popularização da psicologia freudiana por meio de Holywood, os cristãos passaram a ter uma visão cada vez mais pessimista em relação à psicologia e outras tentativas humanas e profissionais de promover sanidade mental e felicidade.

Neste ano, por exemplo, um vídeo em que o teólogo reformado Michael Horton se poicionava contra o aconselhamento bíblico exclusivista, rapidamente viralizou e ganhou a atenção de muitos cristãos – uns contra, outros a favor. Isto nos mostra que a psicologia e a psiquiatria ainda são assuntos espinhosos para os evangélicos, especialmenete para os reformados que abraçaram de maneira acrítica as contribuições do famoso teólogo e conselheiro Jay Adams.

Uma das acusações que os seguidores mais radicais de Jay Adams sempre levantam é a de que a psicologia não existia antes da modernidade. Será que isto é verdade?

O filósofo Erich Fromm parece discordar:

Geralmente se considera que a psicologia é uma ciência relativamente moderna, e isto porque o termo entrou no uso geral só nos últimos cem, cento e cinquenta anos. Mas se esquece que houve uma psicologia pré-moderna, a qual durou mais ou menos do ano 500 a.C. até o século XVII, mas que não se chamava “psiscologia”, e sim “ética” ou, com ainda mais frequência “filosofia”, conquanto se tratasse justamente de psicologia. Quais eram a substância e os fins de tal psicologia pré-moderna? A resposta pode ser sintetizada assim: era o conhecimento da psique humana que tinha como meta o melhoramento do homem. Ela tinha, portanto, um propósito moral, que se poderia dizer inclusive religioso, espiritual.

Erich fromm, “Psicologia per non psicologi”, em l’amore per la vita, mondadori, milão 1992, pág. 82. apud. martín f. echavarría, “de aristóteles a freud”, edições c.i. 2019, pág. 21-2.

Conforme lê-se na citação acima, a psicologia nasce com a filosofia, já com seus propósitos moral e religioso, em Sócrates, Platão, e sobretudo em Aristóteles. E esta psicologia pré-moderna foi em boa medida aceita e levemente (embora de maneira precisa) aperfeiçoada pela Igreja, incluindo os Reformadores e os Puritanos. É o que encontramos na obra do reformador Peter Martyr Vermigli, em seu comentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles:

O objetivo da filosofia é que alcancemos esta beatitude ou felicidade que pode ser adquirida nesta vida por meio das capacidades humanas, enquanto que o alvo da devoção cristã é que a imagem na qual somos criados, em justiça e santidade da verdade, seja renovada em nós, de forma que creçamos diariamente no conhecimento de Deus até que sejamos levados a vê-lO como Ele é, com a face descoberta.

Peter martyr vermigli, commentary on aristotle’s nicomachean ethics, the peter martyr library vol.9, pág. 14.

Perceba que a citação de Vermigli concorda ipsis litteris com a tese de Erich Fromm.

Creio que a Igreja de hoje precisa de nada mais que um novo Ad Fontes para solucionar esses impasses modernos nos quais nos encontramos. Impasses esses que surgem mais por uma leitura enviesada e moderna das Escrituras, do que de princípios protestantes e/ou reformados. A Igreja possui um tesouro imensurável que pode em muito contribuir para a superação de impasses no campo da filosofia, da ética e até dos fundamentos metafísicos para a atuação profissional na saúde mental.

Tolle, lege!