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Os Três Tipos de Justiça: Lutero e Melanchthon (Dr. Joel Biermann)

O texto que se segue foi extraído do livro A Case for Character: Towards a Lutheran Virtue Ethics de Joel D. Biermann, teólogo contemporâneo que ocupa a cátedra de Teologia Sistemática do Concordia Seminary em St. Louis. Inspirado no grandioso After Virtue de Alasdair MacIntyre, Dr. Biermann defende que não há qualquer contradição entre a teologia luterana com seu sola fide e a ética das virtudes com seu incentivo à formação do caráter virtuoso. Mais do que isso, o autor oferece uma estrutura teorética legitimamente luterana que nos ajuda a entender como é possível preservar a centralidade do Evangelho na santificação, sem que tenhamos que cair numa ética que se reduza à motivação (gratidão pelo Evangelho). Biermann nos alerta para o fato de que a sociedade ocidental não sofre mais opressão de nenhuma estrutura religiosa. O pêndulo do pecado estrutural agora está direcionado para a libertinagem e a devassidão, e, infelizmente, muitos teólogos e pastores são completamente incapazes de falar sobre virtude, ética, progresso, santificação, etc.

Felizmente, tem surgido um interesse renovado na Ética das Virtudes, que se consagrou como a ética ocidental, a ética aristotélico-tomista. E no que diz respeito à Aristóteles, Dr. Joel Biermann é categórico em afirmar que sua ética é aprovada pela Confissão de Augsburgo, pela Apologia, e pelas obras dos principais pais da tradição luterana. Sendo assim, é necessário que nos dispamos de qualquer pré-conceito em relação ao uso da filosofia aristotélica per se.

Segue-se o texto:

Os Três Tipos de Justiça: Lutero e Melanchthon

Poder-se-ia fazer o esforço de distinguir essas duas variedades de “dois tipos de justiça”, chamando uma de “dois tipos de justiça de Lutero” e a outra de “dois tipos de justiça de Melanchthon”. No entanto, isto não seria muito preciso, visto que, às vezes, uma pode operar dentro da outra. Uma maneira melhor de esclarecer o assunto pode ser impor uma sistematização mais precisa e falar de três tipos de justiça. Convenientemente, Lutero faz exatamente isso num sermão em 1518: “Três Tipos de Justiça”. Nesse sermão, o reformador une três tipos de pecado (criminal, original e atual) com três respectivos tipos de justiça (externa, alheia e ativa). A primeira categoria, a justiça externa, não tem nada a ver com os cristãos: “Em segundo lugar, ela não serve a Deus, mas a si mesma; não é a justiça dos filhos, mas a dos escravos; não é uma característica particular dos cristãos, mas a dos judeus e dos gentios; nem os cristãos serão exortados a ela, pois ela resulta do temor da punição ou do amor do que é conveniente para si mesmo, e não do amor de Deus [50]”. A primeira justiça é o tipo que se encontra no mundo civil, e que opera sem preocupação ou relação com o Deus Triuno. Por outro lado, os dois segundos tipos de justiça são estritamente para os cristãos. Lutero liga o segundo tipo de justiça com o pecado original ou essencial, e a chama propriamente de justiça essencial, original ou alheia [51]. Ele descreve os aspectos únicos dessa justiça: “Essa [justiça] se torna nossa por meio da fé […] Essa [justiça] é imputada por meio do Batismo, caracteristicamente como o Evangelho anuncia, e não é a justiça da lei, mas a justiça da graça” [52].

Em seguida, Lutero expõe o terceiro tipo de justiça no seu sermão, a justiça que corresponde ao pecado atual: “A justiça contra esse [pecado atual] é atual, fluindo da justiça da fé, essencial [ou alheia]” [53]. Assim, o terceiro tipo de justiça tem sua fonte no segundo tipo de justiça, e descreve o crescimento do crente na santidade: “Pois essa terceira justiça é buscada por nenhum outro motivo senão o de que o pecado original seja vencido e que o corpo do pecado seja destruído” [54]. O terceiro tipo de justiça, a justiça atual, flui da fé característica da segunda justiça, e assim, é única dos crentes, uma vez que somente eles possuem fé. Porque Lutero mais tarde defendeu dois tipos de justiça ao invés de três é matéria de especulação. No entanto, a explicação poderia ser simplesmente por conta da necessidade do momento. Falando aos cristãos, Lutero pode ter considerado desnecessário discutir o primeiro tipo de justiça, em seu pensamento, talvez irrelevante. É interessante, entretanto, notar que em sua introdução à epístola aos Gálatas, com sua divisão entre justiça passiva e ativa, Lutero primeiro reconhece a existência de “muitos tipos” de justiça [55]. Poder-se-ia facilmente agrupar os dois primeiros exemplos de sua lista (justiça política e justiça cerimonial) dentro da primeira categoria da divisão tripla do seu sermão de 1518. É possível então detectar uma divisão tripla das justiças mesmo em sua aprovação mais explícita de uma divisão dupla.

Treze anos mais tarde, foi Melanchthon quem estabeleceu uma distinção similar dos três tipos de justiça, em sua disputa “Somos Justificados pela Fé e não pelo Amor”: “Existem três tipos de justiça. A primeira é aquela derivada da razão. A segunda é aquela que se conforma com a lei de Deus. A terceira é aquela que o Evangelho promete”[56]. Antes de considerar as definições mais completas de cada tipo de justiça, deve-se notar que nem a terminologia de Melanchthon e nem a sua ordem necessariamente coincidem com a de Lutero no seu sermão de 1518. Melanchthon elabora sobre cada tipo de justiça conforme a disputa se desenvolve. “A justiça da razão”, ele escreve, “é a justiça das obras, e a razão a produz”[57]. Enquanto é certo que as pessoas podem entender a justiça da razão, também é verdade que elas jamais poderiam compreender a justiça da lei que “consiste no amor para com Deus e o próximo “[58]. Por sua vez, a justiça do evangelho é aquela que justifica: “É certo que não somos justificados nem pela razão e nem pela lei, mas pelo Evangelho”[59].

Nessa disputa, Melanchthon reconhece uma distinção entre a justiça da razão e a justiça da lei. A segunda depende da justiça do evangelho:

A promessa é recebida pela fé. Por esta razão nós somos primeiro justificados pela fé, pela qual recebemos a promessa da reconciliação pela fé. Daí em diante guardamos a lei. Entretanto, uma vez que nascemos de novo pela fé, e recebemos o Espírito Santo, a justiça da lei está presente em nós, ou seja, o amor a Deus e ao próximo, o temor de Deus, a obediência às autoridades governamentais e aos pais, a paciência e tantas outras virtudes semelhantes.

Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 142 (thesis 17 & 19); Haussleiter, “Melanchthons,” 253.

A justiça da lei excede a da razão, no que ela também inclui o amor a Deus e maiores padrões de obediência. A virtude cristã da humildade ou a regra do amor pelos inimigos são ambos bons exemplos de padrões decorrentes da lei, que superam o que se pode esperar de um padrão fundamentado apenas na razão. E enquanto Melanchthon relaciona a justiça da lei com a justiça do evangelho, ao mesmo tempo ele mantém uma rigorosa distinção entre elas:

Tiago ensina corretamente, “somos justificados pela fé e pelas obras”, pois as obras justificam de acordo com a justiça da lei, que certamente deve seguir a fé. No entanto, essa justiça da lei não é justiça aos olhos de Deus, exceto por causa da fé.

E as obras resultantes, porque elas agradam a Deus por causa da fé, são também meritórias, não para a justiça da vida eterna, mas para outras bençãos do corpo e da alma.

Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 143 (thesis 33 & 34; emphasis added); Haussleiter, “Melanchthons,” 254.

A diferença está baseada no reconhecimento dos diferentes reinos dentro dos quais os cristãos vivem: coram Deo e coram mundo. A justiça da lei preocupa-se especialmente com a vida de um cristão em relação às realidades coram mundo.

Lutero e Melanchthon, ambos, cada um ao seu modo, trabalham para criar uma separação absoluta entre a justiça da fé, que justifica diante de Deus, e outros tipos de justiça, que interessam às realidades concretas do viver no reino da criação. Ambos os reformadores também dão o passo adicional de cuidadosamente distinguir dois tipos de justiça coram mundo: aquela que é alcançada pelos pagãos buscando viver corretamente diante dos outros, e a outra, que se manifesta naqueles que são justificados por Cristo, e que pela fé vivem de acordo com os ditames da lei revelada de Deus. Usando esse rico ensino da teologia da Reforma como um fundamento, é tempo de retornar ao desafio de construir uma estrutura funcional que irá permitir um ensino robusto sobre ética – incluindo a habituação intencional das virtudes e a resultante formação de caráter.

Dr. Joel Biermann, A Case for Character: Towards a Lutheran Virtue Ethics, Fortress Press 2014, p.122-125.

Conclusão

Eu sei que o texto acima parece difícil num primeiro momento (pare, volte e releia quantas vezes for preciso), mas ele está profundamente alicerçado na tradição cristã ocidental no todo, e na tradição luterana mais especificamente. Os Três Tipos de Justiça (Biermann propõe os termos governante, justificante e conformante) se alinham com os Três Usos da Lei (uso civil, uso cristológico e uso pedagógico). Percebe como as coisas se encaixam perfeitamente? Mas não para por aqui. O Três Tipos de Justiça também estão estreitamente relacionados com os Três Artigos do Credo: No primeiro artigo nós confessamos o Deus Criador que governa todo o mundo pela sua Lei, por meio da qual ele faz com que todos os homens vivam de um jeito ou de outro nessa justiça governante (Rm 2:14). No segundo artigo, nós confessamos o Deus Redentor, Jesus Cristo, o único que pode nos conceder a justiça justificante (1Pe 3:18), pois Ele é o único que cumpriu toda a Lei com todo seu rigor; E por último, confessamos igualmente o Deus Espírito Santificador, que usa a sua Lei para nos conformar à imagem de Cristo (Hb 8:10; Rm 8:10).

Infelizmente, muitos luteranos hoje só conseguem enxergar a Lei do primeiro e do segundo artigo do Credo. Se esquecem de que o Espírito Santo nos santifica também por meio da sua Lei, nos ensinando, nos instruindo e nos importunando para que deixemos toda sorte de vícios imundos que nos impedem de fazer progresso vida cristã.

Por tudo isso, é claro e evidente que há espaço para uma ética das virtudes na tradição luterana. Há espaço para trabalharmos mais na formação do caráter virtuoso em nossos filhos, amigos e paroquianos de nossas congregações. Devemos nos atentar parao fato de que há somente dois caminhos diante de nós: o caminho do florescimento humano e a reconstrução do caráter do homem ocidental que se espelha em Cristo, ou o caminho trilhado por instituições religiosas como a ELCA, que em 2016 chegou a realizar uma celebração religiosa para comemorar a mudança de nome de um membro transgênero.

Deixo aqui uma lista de livros luteranos antigos e contemporâneos que abordam direta ou indiretamente este assunto de maneira bíblica e confessional:

1 – Jordan Cooper, Christification: A Lutheran Approach to Theosis.

2 – Jordan Cooper, Hands of Faith: A Historical and Theological Study of the Two Kinds of Righteousness in Lutheran Thought.

3 – Jordan Cooper, Lex Aeterna: A Defense of the Orthodox Lutheran Doctrine of God’s Law and Critique of Gerhard Forde.

4 – Revere Franklin Weidner, Pneumatology, or the Doctrine of the Work of the Holy Spirit.

5 – Revere Franklin Weidner, A System of Christian Ethics (essa obra é bem difícil de achar, mas é simplesmente ímpar. Mesmo entre os católicos romanos, que sempre desenvolveram o tema de maneira muito mais exaustiva, não há nenhuma obra do século XVIII em diante que se iguale a esta. Para que o leitor tenha uma ideia, Weidner antecipa discussões atuais em política, psicologia, matrimônio, entre outros assuntos).

6 – Johann Gerhard, Schola Pietatis (3 vols).

FINIS

[50] WA 2:43 (as traduções desse sermão são do próprio autor)

[51] Ibid., 44.

[52] Ibid., 45.

[53] Ibid.

[54] Ibid., 47.

[55] LW 26:4

[56] Robert Kolb and James A. Nestingen, eds., Sources and Contexts of The Book of Concord (Minneapolis: Fortress Press, 2001), 141 (thesis 6); Johannes Haussleiter, ed., “Melanchthons loci praecipui und Thessen über die Rechtfertigung aus dem Jahre 1531,” in Abhandlungen Alexander von Oettingen zum siebenzigsten Geburtstag gewidmet von Freunden und Schülern (Munich:Beck, 1898), 252.

[57] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 10); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.

[58] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 13); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.

[59] Kolb and Nesstingen, Sources and Contexts, 141 (thesis 7); Haussleiter, “Melanchthons,” 252.

Por que defendemos o uso de imagens? (Johann Gerhard)

O texto que se segue é uma tradução minha do §73 da seção IX do capítulo IV da Loci Theologici XV de Johann Gerhard. O texto é breve, sucinto e apresenta um apanhado geral das razões pelas quais a Igreja Evangélica Luterana, seguindo o consenso da Igreja Antiga, aprova o uso de imagens. É importante que o leitor saiba que Johann Gerhard é o dogmático por excelência da tradição luterana, autor da maior obra dogmática do luteranismo, reconhecido como o maior dos luteranos escolásticos. Sendo assim, trata-se de um dos melhores intérpretes, senão o melhor, dos nossos símbolos de Fé.

Eis o texto:

As razões pelas quais nós defendemos o uso de imagens

§73. Como mencionamos, a principal razão porque defendemos o uso de imagens é a Liberdade Cristã. Muitas razões secundárias são adicionadas, visto que sua utilidade nos templos não deve ser diminuída: (1) no rememorar; (2) no estimular a afeição; (3) no decorar, etc., como Schroeder demonstrou com detalhes (tratado De imaginib., q.1, teses 86ff). Gregório de Nyssa (no Cântico dos Cânticos) afirma: “Não raramente eu vejo o relato da Paixão, e não é sem lágrimas que sou levado por meio de uma inscrição desse tipo”. Gregório (livro 9, Carta 9 ad Serenum) diz:

Nós certamente os louvamos por proibir a adoração das imagens dos santos, mas os censuramos por terem as destruído. Diga-me, irmão, quando já se ouviu que um sacerdote tenha feito tal coisa? Afinal, uma coisa é adorar uma pintura; e outra é aprender o que se deve adorar por meio da história que uma pintura retrata. Veja, uma pintura oferece aos simples o que a Escritura provê para os seus leitores, pois os ignorantes veem na própria imagem o que eles devem seguir. Aqueles que não conhecem as letras, leem as imagens.

Cirilo (Contra Julianum, livro 6), depois de listar os benefícios dados a nós por Cristo na cruz, adiciona: “A árvore salutar nos faz lembrar de todas essas coisas e nos encoraja a ponderar sobre de que maneira, assim como um morreu e ressurgiu por todos, também os vivos não vivem mais para si mesmos”[1]. Basílio (Sermão em s.40 martyres) diz: “Os ornamentos na igreja me atraem para dentro. Eu contemplo a bravura dos mártires, considero as recompensas de suas coroas, e sou inflamado como que com fogo com um desejo de imitá-los”. Os Escolásticos dizem que as imagens são para instruir os iletrados, avivar a memória, e estimular a meditação e a devoção. Consequentemente, a igreja primitiva usava delas livremente, não apenas nos edifícios privados, mas também nos templos (Schroeder também trata disso em detalhes nas teses 77ff). Agostinho (De consens. evang., livro 1, capítulo 10) menciona que “em muitos lugares, em toda parte, imagens de Cristo se encontram entre Pedro e Paulo”. Eusébio registra a mesma coisa (Hist., livro 7, capítulo 14). Tertuliano (De pudicit.) menciona “imagens nos cálices eucarísticos, de Cristo carregando de volta a ovelha perdida sobre seus ombros”. Em relação à imagem de Melécio, Crisóstomo diz (Oração em Melet.): “Eles a pintavam nos anéis, copos, muros, e em toda parte”. O Supplementum de Nauclerus [2] registra que a basílica de Santa Sofia em Constantinopla, sob os imperadores cristãos, era decorada com imagens de todo o registro da Paixão do Senhor. Em 1509, quando os turcos a transformaram numa mesquita maometana, eles tamparam todas essas pinturas com reboco. Todavia, por ocasião de um grande terremoto, todo esse reboco foi desmanchado, de modo que o relato da Paixão mais uma vez foi claramente revelado.

No entanto, os papistas estendem o uso das imagens para muito além de colocá-los como livros para o laicato. Guilelmus Peraldus, um francês e membro muito conhecido da Ordem dos pregadores no século XIII, escreve no livro que ele chama Summa virtutum et vitiorum (vol.1, capítulo 3): “Assim como as Escrituras são a literatura do clero, as imagens e esculturas são a literatura do laicato”. Laelius Zecchius, em seu livro sobre casos de consciência (vol.2, cap.90, art.18, p.609) afirma: “É útil que as esculturas sejam colocadas nas igrejas para aumentar e cultivar um amor a Deus e aos santos, para preservar a fé, pois as imagens são consideradas como livros para aqueles que não conhecem as letras. Por causa dessas imagens, tais pessoas são levadas a um conhecimento, recordação e imitação das coisas divinas”. François Feuardentius (em seu livro das homilias, p.16) escreve: “Ao contemplar as imagens, os iletrados e rústicos, facilmente e rapidamente, aprendem aquelas obras e milagres divinos que eles dificilmente ou jamais poderiam aprender dos livros sagrados”.

O que este texto nos ensina?

Como afirmei anteriormente, não posto este texto para tentar convencer iconoclastas e afins de seus respectivos posicionamentos. Não creio que argumentos racionais seriam capazes de fazê-lo. A atitude iconoclasta possui raízes espirituais que a mente desconhece. Porém, o texto acima prova-nos cabalmente que (1) Luteranos defendem o uso de imagens de Cristo e dos Santos, é isso que Gerhard afirma com todas as letras; (2) fazendo isso, Luteranos seguem um consenso da Igreja Antiga“. É inútil citar vozes isoladas aqui e ali na antiguidade para defender o aniconismo. O número dos Santos Pais que aprovam o uso das imagens é gigantesco, como Gerhard cita: Tertuliano, Cirilo, Agostinho, Crisóstomo, Basílio, Eusébio, Gregório, etc. Não bastasse isso, também temos Nicéia II, que condena a heresia iconoclasta. E (3) Luteranos defendem o uso de imagens, não apenas pela liberdade cristã, mas também pelos benefícios que tal prática traz para a Igreja e para a sociedade como um todo. Remover a arte sacra é remover o próprio Cristo da arte – é abraçar um secularismo travestido de piedade.

FINIS

[1] Cirilo ilustra a passagem bíblica de São Paulo com a imagem de uma árvore, que quando morre, se devolve ao solo e dá sua vida para as outras plantas, vivendo nelas de certa forma.

[2] Johannes Vergenhans (Justingen, 1430 † Tübingen, 5 de Janeiro de 1510) foi humanista, teólogo, jurista, cronista e historiógrafo alemão. Foi primeiro reitor e segundo chanceler (1482-1509) da Universidade de Tübingen, reconhecido principalmente pela sua obra “Crônica do Mundo”, publicada em 1516, por Thomas Anshelm (1470-1522), com uma carta de recomendação de Erasmo.

Podemos fazer alguma satisfação pelos nossos pecados? (II)

Seguimos com a exposição da Loci Theologici XVIII.VIII de Johann Gerhard, e aqui trataremos do argumento escolástico baseado na punição, que consiste em dizer que Cristo não fez satisfação pela punição de todos os nossos pecados. Alguns faziam distinção entre punições temporais e eternas, punições antes e depois do batismo, e etc. Tratava-se de um assunto em disputa e que se impôs para validar um edifício sacramental que, por sua vez, também fora bastante disputado e por fim imposto por força papal.

Se Cristo fez Satisfação pela punição de nossos pecados

De todos os Pais da Igreja, o mais citado para apoiar a ideia dos adversários é Tertuliano, com seu famoso aforisma: “Uma vez que a culpa é removida, a punição é removida” (De bapt., ch.5, p.221). Baseados nisso, eles insistiam que a culpa não havia sido completamente removida, visto que claramente ainda sofremos diversas punições. Portanto, era necessário realizar o sacrifício da missa e as boas obras meritórias. Belarmino, por exemplo, afirma: “O pecado é então reconhecido como perfeita e completamente remido quando não apenas o defeito, mas também cada punição foi removida” “De amiss. grat. et stat. peccati, bk.5, ch.29). Se a premissa é aceita sem nenhuma distinção, a única conclusão possível é que de alguma forma precisamos completar a satisfação que Cristo fez por nós.

No entanto, são inúmeras as provas na Escritura, na Tradição e na Razão, que nos convencem do contrário:

(1) Os próprios adversários entram em contradição o tempo todo. Georgius Cassander, por exemplo, afirma: “Com completo consenso todos os antigos ensinam a doutrina de que a confiança na remissão dos pecados, mesmo daqueles que cometemos após o novo nascimento, e a esperança do perdão e da vida eterna, devem ser colocadas somente na misericórdia de Deus e no mérito de Cristo” (Consult., art. De bon. operib.). Cassander está completamente certo aqui. A maioria dos Pais realmente ensinam que quando se trata de mérito, só há lugar para Cristo, e mais ninguém. Quando eles afirmam que as boas obras são necessárias para a salvação, isso nunca é dito num contexto judicial. O próprio Belarmino, em outro lugar reconhece: “Cristo fez uma satisfação inteiramente completa a Deus o Pai, pela culpa do defeito e pelas punições temporal e eterna de todos os pecados” (De inulg., bk.2, ch.10, col.1592). Ora, o que resta a fazer aqui então? Que tipo satisfação resta para nós? Nenhuma! O que resta é receber esta satisfação DE MÃOS VAZIAS (sem mérito). Isto nos ensina o próprio Cassander: “somente a morte e os sofrimentos do unigênito Filho de Deus são a satisfação e propiciação pelos nossos pecados, seja por aquele que contraímos originalmente ou aqueles que cometemos da fraqueza de nossa carne antes ou depois da regeneração. O ministério do Evangelho – isto é, Palavra e sacramentos – oferece e aplica essa satisfação a nós, e a fé, o dom de Deus, a recebe” (Consult., art. 12, sob o título De confess.). Não é tão difícil, é? Repita comigo, DE-MÃOS-VA-ZI-AS. É por isso que Santo Ambrósio, tão querido por nós luteranos, afirmou: “Eu leio sobre as lágrimas de Pedro, mas eu não leio nada sobre sua satisfação” (bk.10, on Luke 22, citado em Ius canon., dist. 1, c.1).

(2) São muitas as provas nos Pais da Igreja que nos convencem de que Cristo removeu tanto a culpa quanto as punições, de forma que todos quanto estamos em Cristo podemos afirmar com toda certeza: Deus nunca está nos punindo! Pelo menos não no sentido estrito e soteriológico. Santo Agostinho nos ensina que nossos pecados “foram encobertos, tapados, apagados. Se Deus oculta os pecados, não quis percebê-los; se não quis perceber, não quis anotar, se não quis anotar, não quis punir, não quis reconhecer, prefere perdoar. Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram apagados”. Não penses que o salmista disse pecados encobertos como se ali estivessem, bem vivos. Por que disse que os pecados foram encobertos? Para que não fossem vistos. O que significa dizer que Deus vê os pecados, se não que pune os pecados?” (on Psalm 31, enarr. 2). Aqui Santo Agostinho fala de modo universal sobre a expiação de todos os pecados, e diz que Deus não vê nenhum de nossos pecados, isto é, quando de mãos vazias recebemos os méritos de Cristo. Deus não nos dá sofrimentos para nos expiar, pois tudo já foi expiado na Cruz. O que resta agora é o recebimento do que foi feito na cruz, e esse recebimento é de mãos vazias, jamais meritório, pois do contrário, não seria um simples receber pela fé. Sobre este mesmo salmo (31), São Jerônimo afirma: “O que é encoberto não é visto, não é imputado. E o que não é imputado não é punido” (On psalm 31). Não há punição. Se você está na fé, Deus nunca está te punindo. Esta ideia é completamente absurda. São João Crisóstomo também traz a mesma ideia em seu comentário sobre o salmo 50: “Onde há misericórdia, não há lugar para punição” (on Psalm 50). Gerhard faz o seguinte comentário sobre esta citação: “Portanto, se Deus ainda exige satisfação pelos pecados, esses pecados ainda não foram completamente perdoados” (Loci, XVIII.VIII, §121.II). Onde está a misericórdia se ainda resta alguma satisfação, se ainda resta alguma punição?

(3) Se nossas satisfações são requeridas para nossa reconciliação com Deus, jamais seríamos capazes de estar certos sobre nossa reconciliação. Em vez disso, seríamos agitados por um dilúvio constante de dúvidas, pois jamais saberíamos quando Deus estaria suficientemente satisfeito pelas punições. Mas o apóstolo declara o oposto em Rm 4:16: “Portanto, provém da fé, livremente, para que a promessa fique firme”, e em Rm 5:1: “Justificados pela fé, temos paz com Deus por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §121.X

Se necessário fosse a participação nos sofrimentos de Cristo, mesmo que no mínimo, para que fôssemos reconciliados, jamais saberíamos nada a respeito de nossa reconciliação, e jamais teríamos conforto algum na graça de Deus. Daí o clamor universal pela Reforma de Lutero. O Evangelho estava se enfraquecendo pelo excesso de teorias e divagações que se acumulavam sobre a verdade simples do perdão, da vida e da salvação em Cristo.

Se os sofrimentos e provações dos cristãos podem ser chamados propriamente de punições pelo pecado

A lógica dos adversários aqui consiste basicamente no seguinte silogismo: (1) Onde a culpa é removida, a punição também o é. (2) Nós somos diariamente castigados por Deus. (3) Logo, Cristo não fez satisfação completa pelos nossos pecados.

Fazemos distinção nos pontos (1) e (2), e, por isso, rejeitamos o ponto (3).

Belarmino usa o velho e falho argumento de que os crentes ainda enfrentam a morte, e, portanto, ainda são punidos pelo pecado. Ele diz:

Permanece um débito de punição a ser pago mesmo depois de a falta ter sido perdoada, visto que Davi foi punido pela morte de seu filho depois ter recebido o perdão por adultério e assassinato (2 Sm 12); visto que a ele foi dada a opção de escolher entre guerra, pestilência ou fome (2 Sm 24) […] mesmo depois da falta ter sido perdoada; visto que isso é muito óbvio de outros exemplos (Êx 32; Nm 14 e 20; 1Co 11); e, finalmente, visto que mesmo os devotos estão sujeitos à morte.

Belarmino, cf. Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.I

A isso segue a resposta magistral de Gerhard:

Se fosse concluído que nem todo pecado é remido devido às calamidades que os devotos ainda enfrentam depois de serem reconciliados com Deus por meio do arrependimento, se seguiria pela mesma lógica que mesmo o Batismo não proveria inteira remissão do defeito e da punição. O consequente é falso, portanto, também o antecedente. A sequência lógica do argumento é muito firme. Certamente os infantes batizados estão suscetíveis a doenças e desastres, e muitas morrem imediatamente após o batismo. […] O próprio Belarmino nega o consequente, pois ele escreve: “Deus poderia perdoar o débito universal da punição, como claramente Ele faz, tão logo nos aceita como filhos por meio do batismo

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.II

Certo. Então o nosso sofrimento significa que ainda restam pecados a serem expiados? E o que dizer dos infantes que morrem logo após o batismo? Eles estão expiando qual pecado? O Batismo não apaga todas as nossas transgressões? Pobres crianças, expiaram seus pecados com seu próprio sangue, pois Cristo não lhes fora suficiente. Que Deus terrível! É claro que tudo isso é uma grande bobagem! Pois, como veremos a seguir, os castigos que Deus nos inflige não são punições de caráter forense, como a punição que Cristo sofreu, mas são punições pedagógicas. Assim ensinam os Pais:

Quando o Senhor nos corrige, é mais para admoestação do que para condenação, mais para remédio do que para punição, mais para correção do que para penalidade.

São João Crisóstomo, Sobre 1Coríntios, homilia 28.

E ainda mais claramente:

Para que não continuemos como pecadores inúteis e nos tornemos ainda piores […] Por essa razão Ele impõe punição, não exigindo a punição concernente ao pecado, mas nos corrigindo para o futuro

São João Crisóstomo, Homilia De poenitent. et confess.

Por sua vez, Santo Agostinho:

Aqueles que dizem: “Se é verdade que esta morte do corpo vem do pecado, então, após a remissão dos pecados, dada a nós pelo Redentor, não morreríamos”, não entendem como aquelas coisas cuja culpa Deus perdoa, para que não façam mal depois da morte, ele permite que elas permaneçam, a fim de que, os que estão progredindo no combate da justiça, sejam instruídos e exercitados por elas. […] As calamidades antes da remissão eram castigo dos pecados, mas, depois da remissão, são combates e exercícios dos justos.

Santo Agostinho, De peccat. merit. et remiss., bk.2, ch.33,34

Em outro lugar:

A punição permanece temporariamente sobre o homem, mesmo sobre aquele que não é mais culpado, de modo a apontar para a miséria [do pecado] ou corrigir uma vida escorregadia ou ainda exercitá-lo na paciência necessária.

Santo Agostinho, on John, tract. 124.

Gerhard encerra o assunto com toda destreza:

A punição de penalidade, a qual deve ser propriamente chamada de punição, e que é um débito pelos pecados cometidos, é perdoada junto com os pecados. A punição de castigo ou de provação, que deve ser corretamente chamada de “cruz” e “calamidade”, é deixada mesmo para os devotos carregarem nessa vida mortal. […] Deveriam ser chamadas de castigo paternal? Uma coisa é certa: há uma grande diferença entre as aflições que são infligidas sobre os perversos e aquelas que são impostas sobre os reconciliados. As primeiras são sinais de que Deus foi ofendido; elas dão testemunho de que tal pessoa está sob a ira de Deus. Mas as outras procedem não de um Deus irado, mas de um Deus favorável “humilhando os filhos dos homens, mas não de bom grado” (Lm 3:33). Naziazeno diz que elas são “flechas amargas da doce mão de Deus”. Estas se referem à correção e salvação dos devotos, mas as outras são testemunhos e, de fato, o início da punição eterna.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.V

Conclusão

Por tudo isso, fica patente que (1) Cristo fez satisfação pela punição que havia para todos os nossos pecados; (2) esta satisfação é aplica a nós somente quando a recebemos de mãos vazias por meio da fé; (3) nenhuma participação nos sofrimentos de Cristo envolve a ideia de mérito ou satisfação de nossa parte; e (4) a cruz que cada um de nós é chamado a carregar não nos serve de satisfação para qualquer pecado, antes, o seu valor é pedagógico e instrutivo, contribuindo para o nosso aperfeiçoamento.

No próximo artigo, veremos como Gerhard trabalha nos principais textos bíblicos utilizados pelos adversários.

Tertia pars sequetur…