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Onde está o Evangelho na Igreja Romana? (por Hermann Sasse)

A maioria de nós evangélicos facilmente reconhecemos em muitos católicos romanos verdadeiros filhos de Deus. Isso é, cremos que temos verdadeiros irmãos em Cristo em Roma. No entanto, muitas teologias evangélicas/protestantes negam formalmente em alguma medida essa realidade – o que certamente não é o caso do luteranismo e de algum anglicanismo [1].

Muito se fala sobre um suposto sectarismo luterano herdado pelo próprio Lutero, mas ao longo da história pós-reforma, Lutero e os luteranos se destacam por construir uma compreensão bastante robusta no que diz respeito ao reconhecimento da ação (evangélica) de Deus em Roma. Isso é, a idéia de que a única coisa necessária para a existência da Igreja é a existência concomitante da Palavra e dos Sacramentos, é levada muito a sério na teologia luterana – enquanto que em outros âmbitos evangélicos, como no meio reformado por exemplo, há uma dependência maior da ação humana para que exista a Igreja. Talvez a inclusão da disciplina eclesiástica como um terceiro sinal visível da verdadeira Igreja no contexto reformado ilustre bem isto.

Mas levando em conta apenas esses dois critérios, Palavra e Sacramento, como poderíamos reconhecer o Evangelho, o poder de Deus, dentro da Igreja de Roma? Não é essa Igreja que nega completamente a justificação pela graça por meio da fé somente em Jesus Cristo!? Não é essa Igreja que retira dos comungantes a dádiva de participar de ambos os elementos eucarísticos!?

Vejamos o que Hermann Sasse, grande teólogo luterano do século XX tem a nos dizer:

O ministerium ecclesiasticum é tanto o “ministério do ensino do evagelho” (ministerium docendi evangelii) como o “ministério da administração dos sacramentos” (ministerium porrigendi sacramenta) [Confissão de Augsburgo V]. Ambos são inseparáveis. Não há distribuição do sacramento sem pregação do evangelho, de forma que até nas igrejas que quase em sua totalidade vivem desviadas do evangelho, um remanescente do evangelho ainda resiste nos sacramentos. Quando, em tempos de racionalismo, o sermão já não continha nada de evangelho, ainda se podia ouvir, ao menos em sua maior parte, o “dado e derramado em favor de vós para o perdão dos pecados” na liturgia da Ceia do Senhor. Em toda a missa romana ainda se ouve essas palavras: “Só tu és santo, só tu és o Senhor, só tu és o Altíssimo” (tu solus sanctus, tu solus Dominus, tu solus altissimus)[2], e o Cânon da Missa diz “Deus não considera o mérito, mas ele é um generoso doador de graça” (non aestimatos meriti sed veniae largitor)[3].

[…] A Igreja Católica não vive de seu poder externo, nem dos ensinos que se desviam das Escrituras, nem do paganismo que nela se infiltrou. Apesar de todas essas coisas, ela vive do evangelho que ainda se encontra, embora de uma maneira oculta, pelo menos em seus sacramentos.

[…] Esta conexão entre evangelho e sacramento desafia toda explicação racional, mas é um fato.

Hermann Sasse in Die lutherische Lehre vom geistlichen Amt, The Lonely Way v.II, Concordia Publishing House, p129-30.

As palavras habilidosas de Sasse dispensam explicações. São as palavras de alguém que segue mantendo a teologia firmemente evangélica de Concórdia, e justamente por isso reconhece o poder de Deus mesmo nas igrejas que têm se desviado dos retos caminhos da Escritura. Isso diminui a nossa capacidade de confrontar os erros romanistas? Jamais! Os crentes nessas igrejas correm perigo e têm sua salvação posta em risco a todo o momento. Estão constantemente tomando veneno, e ao mesmo tempo recebendo remédio em pequenas doses aqui e ali, seja na Palavra proclamada e rezada na liturgia, seja no sacramento, ainda que fatiado pela metade.

O que podemos aprender aqui, com a compreensão luterana expressa nas palavras de Sasse, é que podemos desenvolver um diálogo com esses irmãos. Um diálogo que seja ao mesmo tempo fraterno, apologético e evangelístico. Católicos romanos precisam ouvir o evangelho, é verdade. Mas evangélicos também. Nesse sentido, não vejo o porquê de fazer acepção de pessoas.

O meu desejo é que meus irmãos em Roma venham o mais depressa possível receber o Evangelho em sua plenitude, que conheçam o catolicismo evangélico, a expressão visível mais ortodoxa da Igreja de Cristo. Ou seja, um lugar onde o Evangelho é declaradamente proclamado não só na liturgia, mas também na doutrina e na pregação, e onde ambos os elementos são dados ao povo de Deus, junto com o corpo e o sangue de Cristo. No entanto, se isso não acontecer, ainda assim desejo vê-los todos alcançando a salvação, ainda que permaneçam no erro.

Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus.

[1] Três figuras históricas no protestantismo se destacam, ao menos na minha opinião, na promoção de um diálogo entre católicos e evangélicos: Melanchton, Martin Bucer e posteriormente Richard Hooker.

[2] Citado do Gloria in Excelsis no Missale Romanum (Missal Romano) tridentino. O texto é lido como se segue: Tu solus sanctus. Tu solus Dominus. Tu solus altissimus, Jesu Christe (“Tu somente és santo. Tu somente és o Senhor. Tu somente és o Altíssimo, Jesus Cristo.”). Nota escrita por Ronald Feuerhahn.

[3] Retirado do Nobis quoque {A nós também}, a oração final no cânon, antes do Pai Nosso. O texto no Missale Romanum é lido assim: “non aestimator meriti, sed veniae, quaesumus, largitor admitte” (“não por consideração de nossos méritos, mas de seu perdão gratuito”). Nota escrita por Ronald Feuerhahn.

Regeneração Batismal (#doutrinas católicas & evangélicas)

O objetivo dessa nova série (#doutrinas católicas & evangélicas), como o próprio nome já parece intuir, tem por objetivo dissertar sobre doutrinas que são católicas, isso é, que sempre foram aceitas pela Igreja em todos os lugares em todos os tempos, e que também ao mesmo tempo apontam para a centralidade do Evangelho de Jesus Cristo, tão caro para aqueles que aderiram à Reforma Protestante.

Uma Doutrina Católica

Por que a regeneração batismal é uma doutrina católica? Responder a essa pergunta é muito fácil. Trata-se de uma doutrina que sempre, por todos, e em todos os lugares, foi aceita como verdade. Existem muitas controvérsias em torno da sistematização do sistema sacramental da Igreja Medieval, mas não sobre a doutrina da regeneração batismal.

O historiador Jeroslav Pelikan cita uma lista extensa de Pais da Igreja que defenderam a regeneração batismal [1]. “Tertuliano […] sustentou […] quatro dos dons básicos do batismo […] remissão dos pecados, a liberatação da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Tert. Marc. 1.28.2 [ccsl 1:472]).” Também Cipriano, que explicou que “em Mateus 28.19,20, o Senhor ordenou […] que as nações fossem lavadas em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, e que seus pecados passados fossem perdoados no batismo (Cipr. Ep. 27.3 [CSEL 3:543]).” E o que dizer de Irineu? O mesmo afirma: “quando éramos leprosos em pecado, fomos purificados de nossas antigas transgressões por meio da água sagrada e da invocação do Senhor sendo espiritualmente regenerados como bebês recém-nascidos(Iren. Fr. 33 [Harvey 2:497-98]; Or. Jo. 6.48.250 [GCS 10:157]). E por fim, citamos também Clemente, que diz a respeito do batismo: “Essa obra é de modo variado denominada de dom da graça, da iluminação, da perfeição e da lavagem, lavagem por meio da qual nossos pecados são levados embora; graça por meio da qual as penalidades acumuladas pelas transgressões são perdoadas […](Clem. Paed. 1.6.26.1-2 [GCS 12:105])“.

É também importante destacar que a Igreja do pós-reforma de ambos os lados, continuou professando essa doutrina. O nosso Bem-Aventurado Doutor da Igreja Martinho Lutero escreve que “o batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina.” (Citado por Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.234). Na Reforma Conservadora essa doutrina continuou a ser defendida. Mas também nas alas mais radicais houveram defensores, como João Calvino, que defendia um tipo de regeneração batismal quase idêntico. Essa defesa de Calvino é desconsertante para muitos reformados hoje em dia, mas também se faz ecoar em muitos teólogos mais recentes dessa tradição, como Nevin, Shcaff, Peter Leithart, entre outros.

Muito mais poderia ser citado aqui em defesa da regeneração batismal, como por exemplo, as liturgias e devoções mais antigas relacionadas ao batismo. Tudo isso é mais que suficiente para perceber que dificilmente alguém pode se dizer católico sem confessar essa doutrina.

Uma Doutrina Evangélica

Mais importante que a aprovação de toda a Igreja são as declarações simples e puras das Sagradas Escrituras. É impressionantes como o racionalismo cegou tantos intérpretes protestantes a respeito de uma doutrina tão simples, bíblica e clara:

Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5);

Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com deus, pela ressureição de Jesus Cristo” (1 Pe 3:21);

E agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os seus pecados, invocando o nome do Senhor.” (At 22:16);

Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.” (Rm 6:3,4).

Essas e muitas outras passagens das Escrituras nos revelam que o lavar externo está intimamente associado ao lavar interno. Separar essas coisas é racionalizar o cristianismo, que é por definição uma religião de mistérios. Não podemos excluir passagens das Escrituras porque elas não se encaixam em nosso sistema. É o sistema que deve se amoldar a essas passagens mais simples e claras.

Além disso, a regeneração batismal é cristocêntrica. Ela aponta para a objetividade da obra consumada na Cruz. Não depende de obras, mas apenas da Palavra. Quando a Palavra se associa à água, é o próprio Cristo quem nos batiza na Sua morte e ressureição.

[1] Todas as citações do parágrafo foram extraídas do livro de Jaroslav Pelikan, A Tradição Cristã I, Shedd Publicações 2014.

A diferença entre pecado mortal e venial

Martin Chemnitz (1522-1586), teólogo luterano de importância fundacional para a tradição luterana

O texto que se segue foi extraído da obra de Chemnitz, Enchiridion (1593), que chegou ao Brasil graças ao empreendimento do pastor luterano Nathan Buzzatto. A obra pode ser encontrada no site Clube de Livros.

Pois as Escrituras distinguem pecados, ou seja, nos santos ou renascidos, existem alguns pecados pelos quais eles não são condenados, mas ao mesmo tempo mantêm a fé, o Espírito Santo, a graça e o perdão dos pecados. Rm 7:23-28; 1 Jo 1:8-9; Sl 31:1. Mas as Escrituras testificam que também existem outros pecados nos quais os reconciliados, quando caem, perdem a fé, o Espírito Santo, a graça de Deus e a vida eterna, e se sujeitam à ira divina e à morte eterna, a menos que novamente, eles sejam reconciliados com Deus pela fé. Rom 8:13; 1 Co 6:10; Gl 5:21; Ef 5:5; Cl 3:6; 1 Jo 3:6,8; 1 Tm 1:19; 2 Pe 1:9. E a distinção útil entre pecado mortal e venial é extraída dessa base. Paulo fala de pecado governando a consciência ou com a consciência repudiada, e pecado que de fato habita na carne, mas não governa. 1 Tm 1:19; Rm 6:12,14; 7:17.

Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.205.

A distinção evangélica aqui entre pecados mortais e veniais é muito simples e bíblica, e ao contrário do que pode soar não é uma distinção desnecessária e racionalista. Antes, ela é útil e pastoral. Existem pecados que nos fazem cair da Graça (por isso a Escritura nos exorta a reter a Graça que nos foi dada), fazem a fé naufragar e assim, retiram de nós a declaração de justiça que nos é dada por Deus na Palavra e nos Sacramentos. Todavia, alguns pecados, ainda que prejudiquem nossa comunhão momentaneamente, são logo subjugados – a Fé prevalece.

Logo adiante, Chemntiz pergunta no Enchirdion: “Qual é o uso de reter e sinceramente inculcar essa diferença entre o pecado mortal e venial na igreja?” Eis a resposta:

I. Para que possamos aprender a reconhecer e sinceramente evitar pecados mortais.

II. Se somos apanhados nesse tipo de pecado, não perseveramos obstinadamente e continuamos neles impenitentemente.

III. Que tentemos ao máximo restringir e controlar o pecado que habita em nós, para que não se torne mortal. Pois, quando essa distinção é negligenciada ou não é entendida e usada corretamente, os cristãos também frequentemente caem em segurança e impenitência. Portanto, os pastores devem ser lembrados e treinados nos exames, não apenas para listar os 7 pecados mortais (ou capitais), mas também para poder indicar aos seus ouvintes, em cada Mandamento, quais pecados são mortais, e quais são veniais.

Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.205-6.

Chemnitz é sucinto aqui, e mais adiante ele refere o leitor à obra de Melanchton – que dá um tratamento mais extenso sobre o assunto. Creio que deveríamos ler o que ambos têm a dizer. Ambos foram grandes homens no intelecto e no coração. Existe fundamento aqui (em suas obras) para elevar o nosso entendimento a respeito de nós mesmos e da nossa vida interior. Quando leio esses defensores da reforma conservadora, sinto que estou lidando com uma teologia que é católica e evangélica ao mesmo tempo – vivendo o melhor de dois mundos. Creio também que essa distinção entre pecados não é útil somente à teologia no âmbito da igreja, mas também à psicologia. Pretendo escrever e falar mais sobre esse tópico em outro momento. Por hora, encaminho ao leitor à obra de Chemnitz traduzida por Nathan Buzzatto.

São Bernardo, o psicólogo (sobre a ligeireza de espírito)

A ligeireza de espírito é o segundo de doze degraus em direção à soberba, de acordo com a divisão psíquica proposta por São Bernardo. Ela é, por assim dizer, uma espécie de estado em que o espírito se distrai mais facilmente de seus propósitos e valores, e é mais maleável e influenciável pelas paixões e acontecimentos que o cercam.

Definitivamente, a ligeireza de espírito está por trás de muitas doenças da alma, como os transtornos de humor. E é importante que se diga – algumas pessoas são naturalmente (biologicamente) mais propensas a esse vício, particularmente aquelas com déficits de atenção.

A curiosidade, vício que estudamos no artigo interior, habitua, por assim dizer, a mente a se distrarir e absorver os sentimentos, impulsos, paixões e trivialidades que nos cercam. É por isso que São Bernardo coloca a curiosidade como antecedendo a ligeireza de espírito. Vejamos:

Com efeito, o monge negligente consigo mesmo ocupa-se curiosamente dos demais: a alguns reconhece-os como superiores; aos que porém considera inferiores, a esses os despreza. Nos primeiros, de fato, vê coisas que inveja, enquanto nos segundos vê coisas de que se ri. Daí que alma, diluída em tal mobilidade dos olhos, e de todo alheia ao cuidado de si, às vezes se erija alto pela soberba, às vezes se deprima fundo pela inveja. Ora se enche de maldade e se consome de inveja, ora ri puerilmente ante sua própria glória. No primeiro caso, manifesta-se a maldade; no segundo, a vaidade; em ambos a soberba. Pois o amor da própria excelência é o que o faz doer-se pelo que o supera e algrar-se por sentir-se superior.

Essas vicissitudes do espírito se notam pelo modo de falar: às vezes é lacônico e mordaz; outras, loquaz e vão; ora explode de rir, ora rompe em pranto, é sempre de palavras irrazoáveis.

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, OS GRAUS DA HUMILDADE E DA SOBERBA, EDITORA CONCRETA 2016

Talvez a imagem que melhor represente a descrição que o santo nos dá seja a de uma esponja que não pode evitar absorver todo e qualquer líquido com o qual entra em contato. Não existem critérios. Tudo é absorvido, tudo é profundamente sentido e tudo desencadeia uma reação quase que automática. Uma vida assim não só é incompatível com qualquer labor intelectual sério, mas também se esbarra no cultivo de bons relacionamentos.

E como combater tal vício?

O remédio para a ligeireza de espírito, assim como para todos os vícios, passa pela caridade. Tudo passa pelo amor. E não poderia ser diferente, afinal o Logos (a ordem natural) do nosso mundo é O Amor. Sendo assim, aqui vão algumas dicas:

1 – Faça o exercício de passar um dia inteiro sem reclamar de nada. Para cada reclamação, faça uma oração, pague uma prenda, dê esmola, algo que lhe tire da inércia. Depois tente isso por dois ou três dias.

2 – Tente pensar no bem de alguma pessoa que tenha lhe chateado profundamente. Faça isso, sobretudo em oração. E faça sempre.

3 – Tenha ao menos 30 minutos por dia para não pensar em absolutamente nada. Você precisa ser capaz de não ser movido em seu interior por algum momento no dia. Faz parte do processo de centralidade da psyche.

4 – Ao se alimentar, veja o que come, aproveite a refeição, coma devagar e sem pressa. Comer rápido como um animal te habituará a ser movido por instinto, por paixão. Daí a importância costume da tradição cristã de orar antes das refeições. Isso prepara e acalma o espírito.

5 – Fuja da hiper-estimulação tão comum em nossa sociedade multi-tasking. Isso é, evite fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mesmo o ato de escovar os dentes ou lavar a louça. Faça apenas uma coisa de cada vez, e tente se concentrar nessas tarefas, sem procurar outras distrações enquanto faz isso.

É claro que essas dicas são suficientes apenas para pessoas com um nível de afetação leve, ou seja, que não preenchem critérios para um transtorno mental de verdade. Há casos e casos. Pessoas com prejuízo marcante do sono, que não conseguem se concentrar em nenhuma tarefa acadêmica, doméstica ou profissional precisam procurar um médico psiquiatra, além de praticar os exercício propostos aqui.

FINIS

São Bernardo, o psicólogo (sobre a curiosidade)

Nesse pequeno artigo gostaria de defender a tese de que São Bernardo fora de fato um tipo de psicólogo patrístico-medieval (ele é considerado o último dos patrísticos). É claro que ele não poderia ter sido um psicólogo no sentido moderno do termo, pois a própria ciência moderna ainda não existia. Mas o conhecimento certo, preciso e verificável da verdade transcende a ciência moderna.

Vejo São Bernardo como um psicólogo por dois grandes motivos: (1) ele distingue em sua obra, Os graus da humildade e da soberba, 12 níveis de vida interior no homem, como se fossem 12 estados, digamos assim, de amadurecimento pessoal. E (2) ele faz isso por meio da observação do comportamento humano. Ora, é exatamente isso que se faz num exame psicopatológico; observamos o homem para daí encontrarmos os vícios e paixões (pathos) da sua alma (psyche).

Veja o leitor como ele descreve o homem acometido de curiosidade:

se vês um monge que diante de ti desfrutava de boa reputação, e que todavia agora, em qualquer lugar em que esteja, em pé, andando ou sentado, não faz senão olhar para todas as partes com a cabeça sempre erguida, aplicando o ouvido a todo e qualquer rumor, podes coligir de tais gestos do homem exterior que o homem interior sofreu uma mudança. “O homem perverso”, com efeito, “pisca o olho, move os pés, aponta com o dedo” [Pv 6:12-13]. Por tais estranhos movimentos do corpo, podes advertir a incipiente doença da alma. E a alma, que por seu desleixo se vai entorpecendo quanto a cuidar de si mesma, torna-se curiosa quando se trata das coisas dos demais.

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

Ora, o que é que denuncia a doença da curiosidade no homem? São os movimentos do corpo, os olhares, o discurso, os pés, as mãos, e até o movimento do pescoço que se ergue a procurar aquilo que não lhe diz respeito. São Bernardo diz que por esses movimentos podemos perceber “a incipiente doença da alma“, ou seja, o vício que começa a desabrochar na flor do coração humano. Que perspicácia tinha o santo!

Mas para conhecer os vícios é preciso treinar os olhos, os nossos próprios olhos. Como podemos saber se estamos entregues à curiosidade? Ora, quando deixamos de cuidar de nós mesmos e buscamos resolver problemas que não nos pertencem. Queremos opinar sobre a última notícia do momento e sobre questões de pessoas que estão a distâncias de nós. A título de exemplo, enquanto escrevo esse artigo, me deparo com dezenas de comentários vagos e inúteis sobre a possível saída de um membro do governo, que nem mesmo ainda se confirmou mas já foi dada como coisa certa e factível, motivo para crucificar os envolvidos mesmo sem conhecimento de causa. O que é isso, senão a curiosidade corroendo a humanidade?

Assim continua São Bernardo:

Desconhece-se a si mesma [a alma], com efeito, e por isso é lançada fora para que apascente os cabritos. […] O curioso, com efeito, entretém-se em apascentar tais cabritos, ao passo que não se preocupa com conehcer seu próprio estado interior.

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

O que se perde com o coração tomado pela curiosidade? Se perde o cultivo da própria vida e alma, e a resolução dos seus próprios conflitos e dilemas. Lá se vai o seu tempo, seu amadurecimento e sua prosperidade. Você deveria estar acumulando virtudes, forças e habilidades, mas está perdendo tudo isso. E por que perdendo? Porque nessa escada não é possível se manter parado. Você está sempre descendo ou subindo, é o que diz São Bernardo.

Devemos nos perguntar então pelo remédio para tal enfermidade moral… Ora, o remédio não é outro senão apascentar os próprios pensamentos. É a centralidade da psyche. É necessário assumir esse auto-compromisso com a vida interior, do contrário toda a nossa vida será uma mera reação e nunca um ato autêntico de amor. E assim, deixaremos de refletir a imagem do próprio Deus – aquele que é ato puro e, por isso, é perfeito e eternamente feliz em Si mesmo.

Que fiquemos com os conselhos de São Bernardo:

Curioso, escuta a Salomão; escuta, néscio, ao sábio: “Acima de toda custódia, custodia teu coração” [Pv 4:23], de modo que todos os teus sentidos vigiem a fim de custodiar aquilo de onde brota a vida. Curioso, aonde vais quando te afastas de ti? A quem te confias durante esse tempo?

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

Thomas Watson sobre a Alma Humana (Psyche)

No último artigo comentei sobre um importante texto em que Thomas Watson revela seu apreço por uma teologia natural construída a partir da anatomia e da medicina. Nesse texto, o autor nos revela agora uma teologia natural da alma, e não mais do copro, construída a partir da psicologia pré-científica¹.

b. a alma do homem

Isto é o homem do homem. O homem, com relação à sua alma, tem parte com os anjos. Mais ainda, como diz Platão, o entendimento, a vontade e a consciência são um espelho que remete à Trindade. A alma é o diamante no anel, é um vaso de honra; o próprio Deus se serve desse vaso. É uma centelha do brilho celestial, diz Damasceno. Davi admirou a estrutura extraordinária e a feitura de seu corpo: “por modo assombrosamente maravilhoso me formaste… entretecido como nas profundezas da terra” (Sl 139.14,15). Se o porta-jóias foi tão maravilhosamente formado, o que dizer da jóia? Quão magnificamente foi entretecida a alma. Desta maneira se pode ver quão gloriosa é a obra da criação, especialmente o homem, que é a epítome do mundo.

Thomas Watson – A Fé Cristã – Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster, Ed. Cultura Cristã 2009, p.143.

Gostaria de tecer alguns comentários acerca das frases do autor que se encontram em negrito.

Em primeiro lugar, notamos que Watson assume o princípio da analogia entis como forma legítima de conhecer a alma humana, a psyche. Sendo assim, para Watson, uma psicologia baseada em conhecimentos naturais é perfeitamente cabível. Existe uma analogia e uma hierarquia entre os seres, que vai desde o próprio Ser por exclência, passando pelos anjos e pelos homens até chegar no mundo das plantas e dos animais. De fato, o próprio Espírito Santo falando nas Escrituras afirma: “Vós sois deuses” (Sl 82.6), e também “que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (Sl 8.4,5). No entanto, o homem, em muitos aspectos, é bastante semelhante aos animais, em corpo e alma, como se verá mais adiante.

Watson segue citando Platão e sua divisão clássica das faculdades superiores da alma – entendimento (razão), vontade e consciência. Alguém pode perguntar: mas e os afetos (ou sentimentos)? Por que Thomas Watson não os cita? Ora, o motivo já fora dado na frase anterior. Ele está tratando daquilo em que a alma humana se difere da alma animal e se assemelha aos anjos. Veja você que, para Watson, asssim como para a maioria dos puritanos, o que nos difere dos animais são essas faculdades: razão, vontade e consciência (alguns não entendiam a consciência como uma faculdade diferente da razão). Já aqui erige-se todo um arcabouço psicológico infinitamente superior ao que têm sido proposto em muitas escolas modernas de psicologia.

Por último, notamos no texto em questão que Watson parece ser um platonista em sua psicologia quando utiliza uma linguagem que lembra bastante o esquema platônico “corpo como casa da alma”. É difícil avaliá-lo, uma vez que essa linguagem se popularizou de maneira muito forte no cristianismo devido aos escritos de Santo Agostinho, este sim um fiel platonista em sua psicologia. No entanto, platonista ou aristotélico, Watson reconhece uma hierarquia interior do ser onde a razão e a vontade devem reniar, e o princípio da analogia entis, tão caro a uma boa psicologia.

FINIS

[1] O termo psicologia pré-científica designa todo o conhecimento milenar produzido sobre psicologia antes do advento da ciência moderna. Segundo Izabel Ribeiro Freire, tal período data do século VI a.C até 1879 (Cf. Izabel R. Freire, Raízes da Psicologia, Ed. Vozes 15ºEd 2014, p.17).

Thomas Watson e a Teologia Natural do Corpo

O texto a seguir, retirado da exposição do Breve Catecismo de Westminster, feita por Thomas Watson, nos motra como os teólogos do século XVII demonstravam interesse em fazer teologia natural a partir de diversos conhecimentos e esferas do saber, como por exemplo, a anatomia e a medicina. Não raras vezes, encontramos extensas referências à literatura médica mais sofisticada da época em todos os escritos puritanos, como Watson, Baxter, Owen, Flavel, Philip Nye, Nehemiah Coxe e muitos outros.

a. As partes do corpo do homem

i. A cabeça, a parte arquitetonicamente mais excelente. É a fonte das disposições e o lugar da razão. Na natureza a cabeça é a melhor parte, porém o coração a excede em graça.

ii. Os olhos são a beleza da face. Brilham e refulgem como um pequeno sol no corpo. Os olhos ocasionam muito pecado e, portanto, podem trazer lágrimas.

iii. O ouvido é o canal pelo qual o conhecimento é transmitido. É melhor perder a nossa vista que nossa audição, porque a fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Ter um ouvido aberto para Deus é a melhor jóia.

iv. A língua é a glória do homem. Davi chama a língua de sua glória (Sl 16.9), porque ela é um instrumento para declarar a glória de Deus. O espírito, no começo, era como uma harpa afinada para louvar a Deus e a língua fazia melodia. Deus nos deu dois ouvidos, mas uma só língua, para nos mostrar que devemos ser prontos para ouvir, mas tardios para falar. Deus colocou uma cerca dupla diante da língua: os dentes e os lábios, para nos ensinar a ser cuidadosos em não ofender com nossa língua.

v. O coração é uma parte nobre e o órgão da vida.

Thomas Watson, A Fé Cristã – Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster, Ed. Cultura Cristã 2009, p.142-3.

Eu sei que o texto é pequeno e pode passar despercebido pela maioria dos leitores leigos. No entanto, quando levamos em conta que isso foi transcrito a partir de seus sermões paroquiais, podemos ter uma idéia de como esses assuntos eram tratados na academia da época. Mesmo um leigo de uma capela puritana pobre e pequena do século XVII recebia mais instrução do que muitos recebem hoje em nossas igrejas com ar condicionado e microfone auricular (se me permitem o exagero rs).

O que mais me chama atenção aqui é que mesmo um puritano típico (lembre-se de que os puritanos são vistos até hoje como radicais e fundamentalistas em muitos aspectos, as vezes de maneira injusta, em outros nem tanto) se valia de conhecimentos naturais e científicos para construir uma teologia pastoral natural – bem exortativa, é verdade -, e hoje, tantos ministros que se dizem equilibrados e sensatos, rejeitam veementemente qualquer coisa que não seja teologia e exegese bíblicas. Isso definitivamente não está certo. Deus nos deu o livro da natureza muito antes das Escrituras. E quando interpretamos as Escrituras sem olhar para a realidade criada por Deus corremos o risco de fecharmos os ouvidos para a Sua revelação e nos isolarmos num laboratório de lexos e comentários.

Outro aspecto interessante, talvez um assunto para outra hora, é o valor do corpo para esses homens. Em tempos em que se discute até mesmo a venda de órgãos humanos, talvez uma teologia natural seja de extrema importância para repensarmos nossos posicionamentos éticos perante a sociedade.

No próximo artigo, espero trazer um pequeno trecho do comentário de Watson sobre a alma humana, mostrando assim o interesse dos puritanos pela psicologia.