Onde está o Evangelho na Igreja Romana? (por Hermann Sasse)

A maioria de nós evangélicos facilmente reconhecemos em muitos católicos romanos verdadeiros filhos de Deus. Isso é, cremos que temos verdadeiros irmãos em Cristo em Roma. No entanto, muitas teologias evangélicas/protestantes negam formalmente em alguma medida essa realidade – o que certamente não é o caso do luteranismo e de algum anglicanismo [1].

Muito se fala sobre um suposto sectarismo luterano herdado pelo próprio Lutero, mas ao longo da história pós-reforma, Lutero e os luteranos se destacam por construir uma compreensão bastante robusta no que diz respeito ao reconhecimento da ação (evangélica) de Deus em Roma. Isso é, a idéia de que a única coisa necessária para a existência da Igreja é a existência concomitante da Palavra e dos Sacramentos, é levada muito a sério na teologia luterana – enquanto que em outros âmbitos evangélicos, como no meio reformado por exemplo, há uma dependência maior da ação humana para que exista a Igreja. Talvez a inclusão da disciplina eclesiástica como um terceiro sinal visível da verdadeira Igreja no contexto reformado ilustre bem isto.

Mas levando em conta apenas esses dois critérios, Palavra e Sacramento, como poderíamos reconhecer o Evangelho, o poder de Deus, dentro da Igreja de Roma? Não é essa Igreja que nega completamente a justificação pela graça por meio da fé somente em Jesus Cristo!? Não é essa Igreja que retira dos comungantes a dádiva de participar de ambos os elementos eucarísticos!?

Vejamos o que Hermann Sasse, grande teólogo luterano do século XX tem a nos dizer:

O ministerium ecclesiasticum é tanto o “ministério do ensino do evagelho” (ministerium docendi evangelii) como o “ministério da administração dos sacramentos” (ministerium porrigendi sacramenta) [Confissão de Augsburgo V]. Ambos são inseparáveis. Não há distribuição do sacramento sem pregação do evangelho, de forma que até nas igrejas que quase em sua totalidade vivem desviadas do evangelho, um remanescente do evangelho ainda resiste nos sacramentos. Quando, em tempos de racionalismo, o sermão já não continha nada de evangelho, ainda se podia ouvir, ao menos em sua maior parte, o “dado e derramado em favor de vós para o perdão dos pecados” na liturgia da Ceia do Senhor. Em toda a missa romana ainda se ouve essas palavras: “Só tu és santo, só tu és o Senhor, só tu és o Altíssimo” (tu solus sanctus, tu solus Dominus, tu solus altissimus)[2], e o Cânon da Missa diz “Deus não considera o mérito, mas ele é um generoso doador de graça” (non aestimatos meriti sed veniae largitor)[3].

[…] A Igreja Católica não vive de seu poder externo, nem dos ensinos que se desviam das Escrituras, nem do paganismo que nela se infiltrou. Apesar de todas essas coisas, ela vive do evangelho que ainda se encontra, embora de uma maneira oculta, pelo menos em seus sacramentos.

[…] Esta conexão entre evangelho e sacramento desafia toda explicação racional, mas é um fato.

Hermann Sasse in Die lutherische Lehre vom geistlichen Amt, The Lonely Way v.II, Concordia Publishing House, p129-30.

As palavras habilidosas de Sasse dispensam explicações. São as palavras de alguém que segue mantendo a teologia firmemente evangélica de Concórdia, e justamente por isso reconhece o poder de Deus mesmo nas igrejas que têm se desviado dos retos caminhos da Escritura. Isso diminui a nossa capacidade de confrontar os erros romanistas? Jamais! Os crentes nessas igrejas correm perigo e têm sua salvação posta em risco a todo o momento. Estão constantemente tomando veneno, e ao mesmo tempo recebendo remédio em pequenas doses aqui e ali, seja na Palavra proclamada e rezada na liturgia, seja no sacramento, ainda que fatiado pela metade.

O que podemos aprender aqui, com a compreensão luterana expressa nas palavras de Sasse, é que podemos desenvolver um diálogo com esses irmãos. Um diálogo que seja ao mesmo tempo fraterno, apologético e evangelístico. Católicos romanos precisam ouvir o evangelho, é verdade. Mas evangélicos também. Nesse sentido, não vejo o porquê de fazer acepção de pessoas.

O meu desejo é que meus irmãos em Roma venham o mais depressa possível receber o Evangelho em sua plenitude, que conheçam o catolicismo evangélico, a expressão visível mais ortodoxa da Igreja de Cristo. Ou seja, um lugar onde o Evangelho é declaradamente proclamado não só na liturgia, mas também na doutrina e na pregação, e onde ambos os elementos são dados ao povo de Deus, junto com o corpo e o sangue de Cristo. No entanto, se isso não acontecer, ainda assim desejo vê-los todos alcançando a salvação, ainda que permaneçam no erro.

Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus.

[1] Três figuras históricas no protestantismo se destacam, ao menos na minha opinião, na promoção de um diálogo entre católicos e evangélicos: Melanchton, Martin Bucer e posteriormente Richard Hooker.

[2] Citado do Gloria in Excelsis no Missale Romanum (Missal Romano) tridentino. O texto é lido como se segue: Tu solus sanctus. Tu solus Dominus. Tu solus altissimus, Jesu Christe (“Tu somente és santo. Tu somente és o Senhor. Tu somente és o Altíssimo, Jesus Cristo.”). Nota escrita por Ronald Feuerhahn.

[3] Retirado do Nobis quoque {A nós também}, a oração final no cânon, antes do Pai Nosso. O texto no Missale Romanum é lido assim: “non aestimator meriti, sed veniae, quaesumus, largitor admitte” (“não por consideração de nossos méritos, mas de seu perdão gratuito”). Nota escrita por Ronald Feuerhahn.

Regeneração Batismal (#doutrinas católicas & evangélicas)

O objetivo dessa nova série (#doutrinas católicas & evangélicas), como o próprio nome já parece intuir, tem por objetivo dissertar sobre doutrinas que são católicas, isso é, que sempre foram aceitas pela Igreja em todos os lugares em todos os tempos, e que também ao mesmo tempo apontam para a centralidade do Evangelho de Jesus Cristo, tão caro para aqueles que aderiram à Reforma Protestante.

Uma Doutrina Católica

Por que a regeneração batismal é uma doutrina católica? Responder a essa pergunta é muito fácil. Trata-se de uma doutrina que sempre, por todos, e em todos os lugares, foi aceita como verdade. Existem muitas controvérsias em torno da sistematização do sistema sacramental da Igreja Medieval, mas não sobre a doutrina da regeneração batismal.

O historiador Jeroslav Pelikan cita uma lista extensa de Pais da Igreja que defenderam a regeneração batismal [1]. “Tertuliano […] sustentou […] quatro dos dons básicos do batismo […] remissão dos pecados, a liberatação da morte, a regeneração e a concessão do Espírito Santo (Tert. Marc. 1.28.2 [ccsl 1:472]).” Também Cipriano, que explicou que “em Mateus 28.19,20, o Senhor ordenou […] que as nações fossem lavadas em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, e que seus pecados passados fossem perdoados no batismo (Cipr. Ep. 27.3 [CSEL 3:543]).” E o que dizer de Irineu? O mesmo afirma: “quando éramos leprosos em pecado, fomos purificados de nossas antigas transgressões por meio da água sagrada e da invocação do Senhor sendo espiritualmente regenerados como bebês recém-nascidos(Iren. Fr. 33 [Harvey 2:497-98]; Or. Jo. 6.48.250 [GCS 10:157]). E por fim, citamos também Clemente, que diz a respeito do batismo: “Essa obra é de modo variado denominada de dom da graça, da iluminação, da perfeição e da lavagem, lavagem por meio da qual nossos pecados são levados embora; graça por meio da qual as penalidades acumuladas pelas transgressões são perdoadas […](Clem. Paed. 1.6.26.1-2 [GCS 12:105])“.

É também importante destacar que a Igreja do pós-reforma de ambos os lados, continuou professando essa doutrina. O nosso Bem-Aventurado Doutor da Igreja Martinho Lutero escreve que “o batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina.” (Citado por Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.234). Na Reforma Conservadora essa doutrina continuou a ser defendida. Mas também nas alas mais radicais houveram defensores, como João Calvino, que defendia um tipo de regeneração batismal quase idêntico. Essa defesa de Calvino é desconsertante para muitos reformados hoje em dia, mas também se faz ecoar em muitos teólogos mais recentes dessa tradição, como Nevin, Shcaff, Peter Leithart, entre outros.

Muito mais poderia ser citado aqui em defesa da regeneração batismal, como por exemplo, as liturgias e devoções mais antigas relacionadas ao batismo. Tudo isso é mais que suficiente para perceber que dificilmente alguém pode se dizer católico sem confessar essa doutrina.

Uma Doutrina Evangélica

Mais importante que a aprovação de toda a Igreja são as declarações simples e puras das Sagradas Escrituras. É impressionantes como o racionalismo cegou tantos intérpretes protestantes a respeito de uma doutrina tão simples, bíblica e clara:

Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5);

Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com deus, pela ressureição de Jesus Cristo” (1 Pe 3:21);

E agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os seus pecados, invocando o nome do Senhor.” (At 22:16);

Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.” (Rm 6:3,4).

Essas e muitas outras passagens das Escrituras nos revelam que o lavar externo está intimamente associado ao lavar interno. Separar essas coisas é racionalizar o cristianismo, que é por definição uma religião de mistérios. Não podemos excluir passagens das Escrituras porque elas não se encaixam em nosso sistema. É o sistema que deve se amoldar a essas passagens mais simples e claras.

Além disso, a regeneração batismal é cristocêntrica. Ela aponta para a objetividade da obra consumada na Cruz. Não depende de obras, mas apenas da Palavra. Quando a Palavra se associa à água, é o próprio Cristo quem nos batiza na Sua morte e ressureição.

[1] Todas as citações do parágrafo foram extraídas do livro de Jaroslav Pelikan, A Tradição Cristã I, Shedd Publicações 2014.

A diferença entre pecado mortal e venial

Martin Chemnitz (1522-1586), teólogo luterano de importância fundacional para a tradição luterana

O texto que se segue foi extraído da obra de Chemnitz, Enchiridion (1593), que chegou ao Brasil graças ao empreendimento do pastor luterano Nathan Buzzatto. A obra pode ser encontrada no site Clube de Livros.

Pois as Escrituras distinguem pecados, ou seja, nos santos ou renascidos, existem alguns pecados pelos quais eles não são condenados, mas ao mesmo tempo mantêm a fé, o Espírito Santo, a graça e o perdão dos pecados. Rm 7:23-28; 1 Jo 1:8-9; Sl 31:1. Mas as Escrituras testificam que também existem outros pecados nos quais os reconciliados, quando caem, perdem a fé, o Espírito Santo, a graça de Deus e a vida eterna, e se sujeitam à ira divina e à morte eterna, a menos que novamente, eles sejam reconciliados com Deus pela fé. Rom 8:13; 1 Co 6:10; Gl 5:21; Ef 5:5; Cl 3:6; 1 Jo 3:6,8; 1 Tm 1:19; 2 Pe 1:9. E a distinção útil entre pecado mortal e venial é extraída dessa base. Paulo fala de pecado governando a consciência ou com a consciência repudiada, e pecado que de fato habita na carne, mas não governa. 1 Tm 1:19; Rm 6:12,14; 7:17.

Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.205.

A distinção evangélica aqui entre pecados mortais e veniais é muito simples e bíblica, e ao contrário do que pode soar não é uma distinção desnecessária e racionalista. Antes, ela é útil e pastoral. Existem pecados que nos fazem cair da Graça (por isso a Escritura nos exorta a reter a Graça que nos foi dada), fazem a fé naufragar e assim, retiram de nós a declaração de justiça que nos é dada por Deus na Palavra e nos Sacramentos. Todavia, alguns pecados, ainda que prejudiquem nossa comunhão momentaneamente, são logo subjugados – a Fé prevalece.

Logo adiante, Chemntiz pergunta no Enchirdion: “Qual é o uso de reter e sinceramente inculcar essa diferença entre o pecado mortal e venial na igreja?” Eis a resposta:

I. Para que possamos aprender a reconhecer e sinceramente evitar pecados mortais.

II. Se somos apanhados nesse tipo de pecado, não perseveramos obstinadamente e continuamos neles impenitentemente.

III. Que tentemos ao máximo restringir e controlar o pecado que habita em nós, para que não se torne mortal. Pois, quando essa distinção é negligenciada ou não é entendida e usada corretamente, os cristãos também frequentemente caem em segurança e impenitência. Portanto, os pastores devem ser lembrados e treinados nos exames, não apenas para listar os 7 pecados mortais (ou capitais), mas também para poder indicar aos seus ouvintes, em cada Mandamento, quais pecados são mortais, e quais são veniais.

Martin Chemnitz, Enchiridion, Ed. Bookess, p.205-6.

Chemnitz é sucinto aqui, e mais adiante ele refere o leitor à obra de Melanchton – que dá um tratamento mais extenso sobre o assunto. Creio que deveríamos ler o que ambos têm a dizer. Ambos foram grandes homens no intelecto e no coração. Existe fundamento aqui (em suas obras) para elevar o nosso entendimento a respeito de nós mesmos e da nossa vida interior. Quando leio esses defensores da reforma conservadora, sinto que estou lidando com uma teologia que é católica e evangélica ao mesmo tempo – vivendo o melhor de dois mundos. Creio também que essa distinção entre pecados não é útil somente à teologia no âmbito da igreja, mas também à psicologia. Pretendo escrever e falar mais sobre esse tópico em outro momento. Por hora, encaminho ao leitor à obra de Chemnitz traduzida por Nathan Buzzatto.