Por que defendemos o uso de imagens? (Johann Gerhard)

O texto que se segue é uma tradução minha do §73 da seção IX do capítulo IV da Loci Theologici XV de Johann Gerhard. O texto é breve, sucinto e apresenta um apanhado geral das razões pelas quais a Igreja Evangélica Luterana, seguindo o consenso da Igreja Antiga, aprova o uso de imagens. É importante que o leitor saiba que Johann Gerhard é o dogmático por excelência da tradição luterana, autor da maior obra dogmática do luteranismo, reconhecido como o maior dos luteranos escolásticos. Sendo assim, trata-se de um dos melhores intérpretes, senão o melhor, dos nossos símbolos de Fé.

Eis o texto:

As razões pelas quais nós defendemos o uso de imagens

§73. Como mencionamos, a principal razão porque defendemos o uso de imagens é a Liberdade Cristã. Muitas razões secundárias são adicionadas, visto que sua utilidade nos templos não deve ser diminuída: (1) no rememorar; (2) no estimular a afeição; (3) no decorar, etc., como Schroeder demonstrou com detalhes (tratado De imaginib., q.1, teses 86ff). Gregório de Nyssa (no Cântico dos Cânticos) afirma: “Não raramente eu vejo o relato da Paixão, e não é sem lágrimas que sou levado por meio de uma inscrição desse tipo”. Gregório (livro 9, Carta 9 ad Serenum) diz:

Nós certamente os louvamos por proibir a adoração das imagens dos santos, mas os censuramos por terem as destruído. Diga-me, irmão, quando já se ouviu que um sacerdote tenha feito tal coisa? Afinal, uma coisa é adorar uma pintura; e outra é aprender o que se deve adorar por meio da história que uma pintura retrata. Veja, uma pintura oferece aos simples o que a Escritura provê para os seus leitores, pois os ignorantes veem na própria imagem o que eles devem seguir. Aqueles que não conhecem as letras, leem as imagens.

Cirilo (Contra Julianum, livro 6), depois de listar os benefícios dados a nós por Cristo na cruz, adiciona: “A árvore salutar nos faz lembrar de todas essas coisas e nos encoraja a ponderar sobre de que maneira, assim como um morreu e ressurgiu por todos, também os vivos não vivem mais para si mesmos”[1]. Basílio (Sermão em s.40 martyres) diz: “Os ornamentos na igreja me atraem para dentro. Eu contemplo a bravura dos mártires, considero as recompensas de suas coroas, e sou inflamado como que com fogo com um desejo de imitá-los”. Os Escolásticos dizem que as imagens são para instruir os iletrados, avivar a memória, e estimular a meditação e a devoção. Consequentemente, a igreja primitiva usava delas livremente, não apenas nos edifícios privados, mas também nos templos (Schroeder também trata disso em detalhes nas teses 77ff). Agostinho (De consens. evang., livro 1, capítulo 10) menciona que “em muitos lugares, em toda parte, imagens de Cristo se encontram entre Pedro e Paulo”. Eusébio registra a mesma coisa (Hist., livro 7, capítulo 14). Tertuliano (De pudicit.) menciona “imagens nos cálices eucarísticos, de Cristo carregando de volta a ovelha perdida sobre seus ombros”. Em relação à imagem de Melécio, Crisóstomo diz (Oração em Melet.): “Eles a pintavam nos anéis, copos, muros, e em toda parte”. O Supplementum de Nauclerus [2] registra que a basílica de Santa Sofia em Constantinopla, sob os imperadores cristãos, era decorada com imagens de todo o registro da Paixão do Senhor. Em 1509, quando os turcos a transformaram numa mesquita maometana, eles tamparam todas essas pinturas com reboco. Todavia, por ocasião de um grande terremoto, todo esse reboco foi desmanchado, de modo que o relato da Paixão mais uma vez foi claramente revelado.

No entanto, os papistas estendem o uso das imagens para muito além de colocá-los como livros para o laicato. Guilelmus Peraldus, um francês e membro muito conhecido da Ordem dos pregadores no século XIII, escreve no livro que ele chama Summa virtutum et vitiorum (vol.1, capítulo 3): “Assim como as Escrituras são a literatura do clero, as imagens e esculturas são a literatura do laicato”. Laelius Zecchius, em seu livro sobre casos de consciência (vol.2, cap.90, art.18, p.609) afirma: “É útil que as esculturas sejam colocadas nas igrejas para aumentar e cultivar um amor a Deus e aos santos, para preservar a fé, pois as imagens são consideradas como livros para aqueles que não conhecem as letras. Por causa dessas imagens, tais pessoas são levadas a um conhecimento, recordação e imitação das coisas divinas”. François Feuardentius (em seu livro das homilias, p.16) escreve: “Ao contemplar as imagens, os iletrados e rústicos, facilmente e rapidamente, aprendem aquelas obras e milagres divinos que eles dificilmente ou jamais poderiam aprender dos livros sagrados”.

O que este texto nos ensina?

Como afirmei anteriormente, não posto este texto para tentar convencer iconoclastas e afins de seus respectivos posicionamentos. Não creio que argumentos racionais seriam capazes de fazê-lo. A atitude iconoclasta possui raízes espirituais que a mente desconhece. Porém, o texto acima prova-nos cabalmente que (1) Luteranos defendem o uso de imagens de Cristo e dos Santos, é isso que Gerhard afirma com todas as letras; (2) fazendo isso, Luteranos seguem um consenso da Igreja Antiga“. É inútil citar vozes isoladas aqui e ali na antiguidade para defender o aniconismo. O número dos Santos Pais que aprovam o uso das imagens é gigantesco, como Gerhard cita: Tertuliano, Cirilo, Agostinho, Crisóstomo, Basílio, Eusébio, Gregório, etc. Não bastasse isso, também temos Nicéia II, que condena a heresia iconoclasta. E (3) Luteranos defendem o uso de imagens, não apenas pela liberdade cristã, mas também pelos benefícios que tal prática traz para a Igreja e para a sociedade como um todo. Remover a arte sacra é remover o próprio Cristo da arte – é abraçar um secularismo travestido de piedade.

FINIS

[1] Cirilo ilustra a passagem bíblica de São Paulo com a imagem de uma árvore, que quando morre, se devolve ao solo e dá sua vida para as outras plantas, vivendo nelas de certa forma.

[2] Johannes Vergenhans (Justingen, 1430 † Tübingen, 5 de Janeiro de 1510) foi humanista, teólogo, jurista, cronista e historiógrafo alemão. Foi primeiro reitor e segundo chanceler (1482-1509) da Universidade de Tübingen, reconhecido principalmente pela sua obra “Crônica do Mundo”, publicada em 1516, por Thomas Anshelm (1470-1522), com uma carta de recomendação de Erasmo.

Podemos fazer alguma satisfação pelos nossos pecados? (II)

Seguimos com a exposição da Loci Theologici XVIII.VIII de Johann Gerhard, e aqui trataremos do argumento escolástico baseado na punição, que consiste em dizer que Cristo não fez satisfação pela punição de todos os nossos pecados. Alguns faziam distinção entre punições temporais e eternas, punições antes e depois do batismo, e etc. Tratava-se de um assunto em disputa e que se impôs para validar um edifício sacramental que, por sua vez, também fora bastante disputado e por fim imposto por força papal.

Se Cristo fez Satisfação pela punição de nossos pecados

De todos os Pais da Igreja, o mais citado para apoiar a ideia dos adversários é Tertuliano, com seu famoso aforisma: “Uma vez que a culpa é removida, a punição é removida” (De bapt., ch.5, p.221). Baseados nisso, eles insistiam que a culpa não havia sido completamente removida, visto que claramente ainda sofremos diversas punições. Portanto, era necessário realizar o sacrifício da missa e as boas obras meritórias. Belarmino, por exemplo, afirma: “O pecado é então reconhecido como perfeita e completamente remido quando não apenas o defeito, mas também cada punição foi removida” “De amiss. grat. et stat. peccati, bk.5, ch.29). Se a premissa é aceita sem nenhuma distinção, a única conclusão possível é que de alguma forma precisamos completar a satisfação que Cristo fez por nós.

No entanto, são inúmeras as provas na Escritura, na Tradição e na Razão, que nos convencem do contrário:

(1) Os próprios adversários entram em contradição o tempo todo. Georgius Cassander, por exemplo, afirma: “Com completo consenso todos os antigos ensinam a doutrina de que a confiança na remissão dos pecados, mesmo daqueles que cometemos após o novo nascimento, e a esperança do perdão e da vida eterna, devem ser colocadas somente na misericórdia de Deus e no mérito de Cristo” (Consult., art. De bon. operib.). Cassander está completamente certo aqui. A maioria dos Pais realmente ensinam que quando se trata de mérito, só há lugar para Cristo, e mais ninguém. Quando eles afirmam que as boas obras são necessárias para a salvação, isso nunca é dito num contexto judicial. O próprio Belarmino, em outro lugar reconhece: “Cristo fez uma satisfação inteiramente completa a Deus o Pai, pela culpa do defeito e pelas punições temporal e eterna de todos os pecados” (De inulg., bk.2, ch.10, col.1592). Ora, o que resta a fazer aqui então? Que tipo satisfação resta para nós? Nenhuma! O que resta é receber esta satisfação DE MÃOS VAZIAS (sem mérito). Isto nos ensina o próprio Cassander: “somente a morte e os sofrimentos do unigênito Filho de Deus são a satisfação e propiciação pelos nossos pecados, seja por aquele que contraímos originalmente ou aqueles que cometemos da fraqueza de nossa carne antes ou depois da regeneração. O ministério do Evangelho – isto é, Palavra e sacramentos – oferece e aplica essa satisfação a nós, e a fé, o dom de Deus, a recebe” (Consult., art. 12, sob o título De confess.). Não é tão difícil, é? Repita comigo, DE-MÃOS-VA-ZI-AS. É por isso que Santo Ambrósio, tão querido por nós luteranos, afirmou: “Eu leio sobre as lágrimas de Pedro, mas eu não leio nada sobre sua satisfação” (bk.10, on Luke 22, citado em Ius canon., dist. 1, c.1).

(2) São muitas as provas nos Pais da Igreja que nos convencem de que Cristo removeu tanto a culpa quanto as punições, de forma que todos quanto estamos em Cristo podemos afirmar com toda certeza: Deus nunca está nos punindo! Pelo menos não no sentido estrito e soteriológico. Santo Agostinho nos ensina que nossos pecados “foram encobertos, tapados, apagados. Se Deus oculta os pecados, não quis percebê-los; se não quis perceber, não quis anotar, se não quis anotar, não quis punir, não quis reconhecer, prefere perdoar. Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram apagados”. Não penses que o salmista disse pecados encobertos como se ali estivessem, bem vivos. Por que disse que os pecados foram encobertos? Para que não fossem vistos. O que significa dizer que Deus vê os pecados, se não que pune os pecados?” (on Psalm 31, enarr. 2). Aqui Santo Agostinho fala de modo universal sobre a expiação de todos os pecados, e diz que Deus não vê nenhum de nossos pecados, isto é, quando de mãos vazias recebemos os méritos de Cristo. Deus não nos dá sofrimentos para nos expiar, pois tudo já foi expiado na Cruz. O que resta agora é o recebimento do que foi feito na cruz, e esse recebimento é de mãos vazias, jamais meritório, pois do contrário, não seria um simples receber pela fé. Sobre este mesmo salmo (31), São Jerônimo afirma: “O que é encoberto não é visto, não é imputado. E o que não é imputado não é punido” (On psalm 31). Não há punição. Se você está na fé, Deus nunca está te punindo. Esta ideia é completamente absurda. São João Crisóstomo também traz a mesma ideia em seu comentário sobre o salmo 50: “Onde há misericórdia, não há lugar para punição” (on Psalm 50). Gerhard faz o seguinte comentário sobre esta citação: “Portanto, se Deus ainda exige satisfação pelos pecados, esses pecados ainda não foram completamente perdoados” (Loci, XVIII.VIII, §121.II). Onde está a misericórdia se ainda resta alguma satisfação, se ainda resta alguma punição?

(3) Se nossas satisfações são requeridas para nossa reconciliação com Deus, jamais seríamos capazes de estar certos sobre nossa reconciliação. Em vez disso, seríamos agitados por um dilúvio constante de dúvidas, pois jamais saberíamos quando Deus estaria suficientemente satisfeito pelas punições. Mas o apóstolo declara o oposto em Rm 4:16: “Portanto, provém da fé, livremente, para que a promessa fique firme”, e em Rm 5:1: “Justificados pela fé, temos paz com Deus por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §121.X

Se necessário fosse a participação nos sofrimentos de Cristo, mesmo que no mínimo, para que fôssemos reconciliados, jamais saberíamos nada a respeito de nossa reconciliação, e jamais teríamos conforto algum na graça de Deus. Daí o clamor universal pela Reforma de Lutero. O Evangelho estava se enfraquecendo pelo excesso de teorias e divagações que se acumulavam sobre a verdade simples do perdão, da vida e da salvação em Cristo.

Se os sofrimentos e provações dos cristãos podem ser chamados propriamente de punições pelo pecado

A lógica dos adversários aqui consiste basicamente no seguinte silogismo: (1) Onde a culpa é removida, a punição também o é. (2) Nós somos diariamente castigados por Deus. (3) Logo, Cristo não fez satisfação completa pelos nossos pecados.

Fazemos distinção nos pontos (1) e (2), e, por isso, rejeitamos o ponto (3).

Belarmino usa o velho e falho argumento de que os crentes ainda enfrentam a morte, e, portanto, ainda são punidos pelo pecado. Ele diz:

Permanece um débito de punição a ser pago mesmo depois de a falta ter sido perdoada, visto que Davi foi punido pela morte de seu filho depois ter recebido o perdão por adultério e assassinato (2 Sm 12); visto que a ele foi dada a opção de escolher entre guerra, pestilência ou fome (2 Sm 24) […] mesmo depois da falta ter sido perdoada; visto que isso é muito óbvio de outros exemplos (Êx 32; Nm 14 e 20; 1Co 11); e, finalmente, visto que mesmo os devotos estão sujeitos à morte.

Belarmino, cf. Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.I

A isso segue a resposta magistral de Gerhard:

Se fosse concluído que nem todo pecado é remido devido às calamidades que os devotos ainda enfrentam depois de serem reconciliados com Deus por meio do arrependimento, se seguiria pela mesma lógica que mesmo o Batismo não proveria inteira remissão do defeito e da punição. O consequente é falso, portanto, também o antecedente. A sequência lógica do argumento é muito firme. Certamente os infantes batizados estão suscetíveis a doenças e desastres, e muitas morrem imediatamente após o batismo. […] O próprio Belarmino nega o consequente, pois ele escreve: “Deus poderia perdoar o débito universal da punição, como claramente Ele faz, tão logo nos aceita como filhos por meio do batismo

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.II

Certo. Então o nosso sofrimento significa que ainda restam pecados a serem expiados? E o que dizer dos infantes que morrem logo após o batismo? Eles estão expiando qual pecado? O Batismo não apaga todas as nossas transgressões? Pobres crianças, expiaram seus pecados com seu próprio sangue, pois Cristo não lhes fora suficiente. Que Deus terrível! É claro que tudo isso é uma grande bobagem! Pois, como veremos a seguir, os castigos que Deus nos inflige não são punições de caráter forense, como a punição que Cristo sofreu, mas são punições pedagógicas. Assim ensinam os Pais:

Quando o Senhor nos corrige, é mais para admoestação do que para condenação, mais para remédio do que para punição, mais para correção do que para penalidade.

São João Crisóstomo, Sobre 1Coríntios, homilia 28.

E ainda mais claramente:

Para que não continuemos como pecadores inúteis e nos tornemos ainda piores […] Por essa razão Ele impõe punição, não exigindo a punição concernente ao pecado, mas nos corrigindo para o futuro

São João Crisóstomo, Homilia De poenitent. et confess.

Por sua vez, Santo Agostinho:

Aqueles que dizem: “Se é verdade que esta morte do corpo vem do pecado, então, após a remissão dos pecados, dada a nós pelo Redentor, não morreríamos”, não entendem como aquelas coisas cuja culpa Deus perdoa, para que não façam mal depois da morte, ele permite que elas permaneçam, a fim de que, os que estão progredindo no combate da justiça, sejam instruídos e exercitados por elas. […] As calamidades antes da remissão eram castigo dos pecados, mas, depois da remissão, são combates e exercícios dos justos.

Santo Agostinho, De peccat. merit. et remiss., bk.2, ch.33,34

Em outro lugar:

A punição permanece temporariamente sobre o homem, mesmo sobre aquele que não é mais culpado, de modo a apontar para a miséria [do pecado] ou corrigir uma vida escorregadia ou ainda exercitá-lo na paciência necessária.

Santo Agostinho, on John, tract. 124.

Gerhard encerra o assunto com toda destreza:

A punição de penalidade, a qual deve ser propriamente chamada de punição, e que é um débito pelos pecados cometidos, é perdoada junto com os pecados. A punição de castigo ou de provação, que deve ser corretamente chamada de “cruz” e “calamidade”, é deixada mesmo para os devotos carregarem nessa vida mortal. […] Deveriam ser chamadas de castigo paternal? Uma coisa é certa: há uma grande diferença entre as aflições que são infligidas sobre os perversos e aquelas que são impostas sobre os reconciliados. As primeiras são sinais de que Deus foi ofendido; elas dão testemunho de que tal pessoa está sob a ira de Deus. Mas as outras procedem não de um Deus irado, mas de um Deus favorável “humilhando os filhos dos homens, mas não de bom grado” (Lm 3:33). Naziazeno diz que elas são “flechas amargas da doce mão de Deus”. Estas se referem à correção e salvação dos devotos, mas as outras são testemunhos e, de fato, o início da punição eterna.

Johann Gerhard, Loci Theologici, XVIII.VIII, §125.V

Conclusão

Por tudo isso, fica patente que (1) Cristo fez satisfação pela punição que havia para todos os nossos pecados; (2) esta satisfação é aplica a nós somente quando a recebemos de mãos vazias por meio da fé; (3) nenhuma participação nos sofrimentos de Cristo envolve a ideia de mérito ou satisfação de nossa parte; e (4) a cruz que cada um de nós é chamado a carregar não nos serve de satisfação para qualquer pecado, antes, o seu valor é pedagógico e instrutivo, contribuindo para o nosso aperfeiçoamento.

No próximo artigo, veremos como Gerhard trabalha nos principais textos bíblicos utilizados pelos adversários.

Tertia pars sequetur…

Podemos fazer alguma satisfação pelos nossos pecados? (I)

O texto que se segue não é nada original. Todas as idéias e citações que se seguem foram extraídas da seção III do Tópico XVIII da Loci Theologici de Johann Gerhard, inclusive a ordem na qual os subtópicos foram arranjados. Se eu tentasse ser original aqui, miseravelmente falharia em lidar com este assunto, assim como falham aqueles que pensam ter descoberto uma nova heresia, quando na verdade estão apenas repetindo idéias passadas. Mas uma coisa eu posso fazer – posso tentar explicar o texto de Gerhard de forma que o seu conteúdo fique mais claro para o leigo.

Se Cristo fez Satisfação somente pelo Pecado Original

Que Cristo fez satisfação somente pelo pecado original era uma opinião razoavelmente comum entre os escolásticos medievais. Trata-se mais de um desenvolvimento da teologia sacramental escolástica, do que de um desenvolvimento da soteriologia propriamente dita. Assim como a ideia de sacrifício espiritual foi se transformando na ideia de sacrifício incruento da missa, também a antiga penitência canônica, que visava somente a disciplina e a restituição do próximo, foi se transformando na ideia de satisfação diante de Deus.

Isto, vemos, por exemplo, em Tomás, quando ele afirma que “assim como o corpo de Cristo no altar foi oferecido uma vez sobre a cruz, ele é oferecido continuamente por nossas transgressões diárias” (Opuscul. 58, de sacram. altars, ch. 1). Boaventura também escreve: “um ser humano pode fazer satisfação pelo seu próprio pecado atual, mas não pelo pecado original. Pois ninguém poderia fazer satisfação pelo pecado original, exceto Cristo, Deus e homem. Em relação ao pecado atual, um homem puro, ajudado pela graça, pode fazer satisfação, mas apenas uma satisfação semi-completa, que recebe suplemento e cumprimento da Paixão de Cristo” (Sent., 3, dist. 20, q.3). Andrea Vega, por sua vez, teólogo espanhol de destaque no Concílio de Trento, chegou a afirmar: “os méritos de Cristo não merecem o título de perfeita satisfação” (In Concil. Trid., vol1, fol. 141).

No entanto, abundam as provas na Escritura, na Tradição e na Razão, de que Cristo fez satisfação também pelos pecados atuais:

(1) Quando a Escritura lida com a satisfação de Cristo pelos pecados, ela sempre fala em termos gerais, e nunca faz qualquer tipo de separação entre pecado original e atual. Não existe qualquer texto que aponte para a ideia de que Cristo tenha feito satisfação somente pelo pecado original. Quando São João Batista afirmou “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29), ele não queria dizer “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado original do mundo”. Isto não está no texto. É tão forçoso quanto a tentativa calvinista de fazer o termo “todos” significar “todos os tipos de pessoas” mesmo quando o texto é taxativo na universalidade da expiação. Sobre este texto [Jo 1:29], Johann Gerhard faz o seguinte comentário: “Aqui o pecado é dito no singular, podendo ser entendido de modo universal: tudo que possui a natureza de pecado, toda a massa de pecado, a escória de todos os vícios do mundo foi transferida para Cristo, e quitada por Ele” (Loci, XVIII.VIII, §119). Gerhard cita o próprio Belarmino, ferrenho defensor da doutrina contrária, o qual confessa: “Quando a Escritura fala absolutamente sobre pecados, geralmente, entende-se, e assim deve ser entendido, como referindo a todos os pecados” (De poenit., bk.3, ch.4, col.1359).

(2) A Escritura fala claramente de Cristo fazendo satisfação pelos pecados atuais, especificamente. Assim diz o Bendito Profeta Isaías: Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Is 53:6). Quando ele diz que “cada um se desviava pelo caminho“, ele se refere especificamente sobre o pecado da desobediência de Israel, ou seja, um pecado atual, e não o pecado herdado dos primeiros pais (original). E quem fez satisfação por esse pecado? Ora, “o Senhor fez cair sobre ele [Cristo] a iniquidade de nós todos“.

(3) Cristo fez satisfação por tudo que a Lei condena e amaldiçoa, como está escrito “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro)” (Gl 3:13). E visto que a Escritura também afirma que é “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las” (Gl 3:10), segue-se que Cristo teve que fazer satisfação por todos os pecados, desde a menor infração da Lei até a maior.

(4) Sobre o argumento do mérito, assim diz Gerhard: “A satisfação de Cristo é de preço e valor infinitos por conta da infinidade de Sua pessoa. Portanto, claramente, ela é suficiente para todos os pecados sem exceção” (Loci, XVIII.VIII, §119.V).

(5) Por fim, entre os Pais, encontramos Santo Agostinho: “Pela sua própria morte, que é o único e verdadeiro sacrifício oferecido por nós, Cristo purificou, absolveu e extinguiu o que havia de culpa, pela qual os principados e potestades reclamavam com direito para a expiação em suplícios” (De Trin., IV, ch. 13). E o mesmo afirma ainda mais claramente em outro lugar: “Em Cristo, em quem todos somos justificados, recebemos a remissão dos pecados, e não apenas do original, mas também de todo o resto que acrescentamos à ele” (De peccat. remissione, ch.13); e ainda: “Pelo derramar de Seu sangue sem culpa, o escrito de todas as faltas foi apagado” (De peccat. remissione, bk.2, ch.20). Além disso, Santo Agostinho chama a Paixão de Cristo de “o único sacifício que nos purifica de todos os pecados” (De civ. Dei, bk.7, ch.31). Para acrescentar, segue-se também o testemunho de outro grande Doutor da Igreja, Santo Anselmo, que diz: “Em seu próprio sangue, Cristo não alcançou redenção temporal, mas a redenção eterna de tudo, uma vez que o preço pago foi tão grande que encontrou eterna liberdade para os redimidos. Pois ele purificou tanto o pecado original quanto os pecados atuais, apresentou cada justificação e abriu o reino do céu” (on Hebrews 9).

Conclusão do tópico

Por tudo isso, fica patente a falta de provas bíblico-teológicas daqueles que tentam afirmar que Cristo só rendeu satisfação pelo pecado original. Apela-se à razão? Também ali não encontramos nenhum argumento convincente. Apela-se à Tradição? Se olhamos para os primeiros séculos, o conceito de “satisfação” ali empregado na penitência é completamente díspar do uso que é feito pelos escolásticos medievais e pela igreja do Concílio de Trento. A satisfação era mais como uma orientação pastoral para satisfazer a disciplina da Igreja e a justiça para com o próximo – isto é ensinado na Bíblia e praticado na Igreja Luterana. Por outro lado, vimos como Santo Agostinho e Santo Anselmo, dois gigantes, negam completamente a ideia dos adversários.

É por esse motivo que nós luteranos não cremos em qualquer satisfação humana coram Deo. Quando exigimos alguma satisfação de alguém que deseja ser batizado em nossas comunidades, essa satisfação é coram mundo. A pessoa deve demonstrar para a Igreja e para o mundo que ela se arrepende dos seus pecados, e que deseja levar uma vida na nova obediência, conforme ensina a inalterada Confissão de Augsburgo. Também é por isso que não cremos no Sacramento do Altar como uma repetição do único e verdadeiro sacrifício (palavras de Santo Agostinho). Antes, fazemos distinção entre a satisfação alcançada por Cristo na Cruz e a distribuição desta satisfação nos sacramentos – o que também nos distingue da maioria dos protestantes. Sendo assim, quando chamamos a Santa Ceia de sacrifício, fazemo-lo no sentido de sacrifício espiritual, como a Bíblia também faz (1 Pe 2:5).

Secunda pars sequetur…