São Bernardo, o psicólogo (sobre a ligeireza de espírito)

A ligeireza de espírito é o segundo de doze degraus em direção à soberba, de acordo com a divisão psíquica proposta por São Bernardo. Ela é, por assim dizer, uma espécie de estado em que o espírito se distrai mais facilmente de seus propósitos e valores, e é mais maleável e influenciável pelas paixões e acontecimentos que o cercam.

Definitivamente, a ligeireza de espírito está por trás de muitas doenças da alma, como os transtornos de humor. E é importante que se diga – algumas pessoas são naturalmente (biologicamente) mais propensas a esse vício, particularmente aquelas com déficits de atenção.

A curiosidade, vício que estudamos no artigo interior, habitua, por assim dizer, a mente a se distrarir e absorver os sentimentos, impulsos, paixões e trivialidades que nos cercam. É por isso que São Bernardo coloca a curiosidade como antecedendo a ligeireza de espírito. Vejamos:

Com efeito, o monge negligente consigo mesmo ocupa-se curiosamente dos demais: a alguns reconhece-os como superiores; aos que porém considera inferiores, a esses os despreza. Nos primeiros, de fato, vê coisas que inveja, enquanto nos segundos vê coisas de que se ri. Daí que alma, diluída em tal mobilidade dos olhos, e de todo alheia ao cuidado de si, às vezes se erija alto pela soberba, às vezes se deprima fundo pela inveja. Ora se enche de maldade e se consome de inveja, ora ri puerilmente ante sua própria glória. No primeiro caso, manifesta-se a maldade; no segundo, a vaidade; em ambos a soberba. Pois o amor da própria excelência é o que o faz doer-se pelo que o supera e algrar-se por sentir-se superior.

Essas vicissitudes do espírito se notam pelo modo de falar: às vezes é lacônico e mordaz; outras, loquaz e vão; ora explode de rir, ora rompe em pranto, é sempre de palavras irrazoáveis.

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, OS GRAUS DA HUMILDADE E DA SOBERBA, EDITORA CONCRETA 2016

Talvez a imagem que melhor represente a descrição que o santo nos dá seja a de uma esponja que não pode evitar absorver todo e qualquer líquido com o qual entra em contato. Não existem critérios. Tudo é absorvido, tudo é profundamente sentido e tudo desencadeia uma reação quase que automática. Uma vida assim não só é incompatível com qualquer labor intelectual sério, mas também se esbarra no cultivo de bons relacionamentos.

E como combater tal vício?

O remédio para a ligeireza de espírito, assim como para todos os vícios, passa pela caridade. Tudo passa pelo amor. E não poderia ser diferente, afinal o Logos (a ordem natural) do nosso mundo é O Amor. Sendo assim, aqui vão algumas dicas:

1 – Faça o exercício de passar um dia inteiro sem reclamar de nada. Para cada reclamação, faça uma oração, pague uma prenda, dê esmola, algo que lhe tire da inércia. Depois tente isso por dois ou três dias.

2 – Tente pensar no bem de alguma pessoa que tenha lhe chateado profundamente. Faça isso, sobretudo em oração. E faça sempre.

3 – Tenha ao menos 30 minutos por dia para não pensar em absolutamente nada. Você precisa ser capaz de não ser movido em seu interior por algum momento no dia. Faz parte do processo de centralidade da psyche.

4 – Ao se alimentar, veja o que come, aproveite a refeição, coma devagar e sem pressa. Comer rápido como um animal te habituará a ser movido por instinto, por paixão. Daí a importância costume da tradição cristã de orar antes das refeições. Isso prepara e acalma o espírito.

5 – Fuja da hiper-estimulação tão comum em nossa sociedade multi-tasking. Isso é, evite fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mesmo o ato de escovar os dentes ou lavar a louça. Faça apenas uma coisa de cada vez, e tente se concentrar nessas tarefas, sem procurar outras distrações enquanto faz isso.

É claro que essas dicas são suficientes apenas para pessoas com um nível de afetação leve, ou seja, que não preenchem critérios para um transtorno mental de verdade. Há casos e casos. Pessoas com prejuízo marcante do sono, que não conseguem se concentrar em nenhuma tarefa acadêmica, doméstica ou profissional precisam procurar um médico psiquiatra, além de praticar os exercício propostos aqui.

FINIS

São Bernardo, o psicólogo (sobre a curiosidade)

Nesse pequeno artigo gostaria de defender a tese de que São Bernardo fora de fato um tipo de psicólogo patrístico-medieval (ele é considerado o último dos patrísticos). É claro que ele não poderia ter sido um psicólogo no sentido moderno do termo, pois a própria ciência moderna ainda não existia. Mas o conhecimento certo, preciso e verificável da verdade transcende a ciência moderna.

Vejo São Bernardo como um psicólogo por dois grandes motivos: (1) ele distingue em sua obra, Os graus da humildade e da soberba, 12 níveis de vida interior no homem, como se fossem 12 estados, digamos assim, de amadurecimento pessoal. E (2) ele faz isso por meio da observação do comportamento humano. Ora, é exatamente isso que se faz num exame psicopatológico; observamos o homem para daí encontrarmos os vícios e paixões (pathos) da sua alma (psyche).

Veja o leitor como ele descreve o homem acometido de curiosidade:

se vês um monge que diante de ti desfrutava de boa reputação, e que todavia agora, em qualquer lugar em que esteja, em pé, andando ou sentado, não faz senão olhar para todas as partes com a cabeça sempre erguida, aplicando o ouvido a todo e qualquer rumor, podes coligir de tais gestos do homem exterior que o homem interior sofreu uma mudança. “O homem perverso”, com efeito, “pisca o olho, move os pés, aponta com o dedo” [Pv 6:12-13]. Por tais estranhos movimentos do corpo, podes advertir a incipiente doença da alma. E a alma, que por seu desleixo se vai entorpecendo quanto a cuidar de si mesma, torna-se curiosa quando se trata das coisas dos demais.

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

Ora, o que é que denuncia a doença da curiosidade no homem? São os movimentos do corpo, os olhares, o discurso, os pés, as mãos, e até o movimento do pescoço que se ergue a procurar aquilo que não lhe diz respeito. São Bernardo diz que por esses movimentos podemos perceber “a incipiente doença da alma“, ou seja, o vício que começa a desabrochar na flor do coração humano. Que perspicácia tinha o santo!

Mas para conhecer os vícios é preciso treinar os olhos, os nossos próprios olhos. Como podemos saber se estamos entregues à curiosidade? Ora, quando deixamos de cuidar de nós mesmos e buscamos resolver problemas que não nos pertencem. Queremos opinar sobre a última notícia do momento e sobre questões de pessoas que estão a distâncias de nós. A título de exemplo, enquanto escrevo esse artigo, me deparo com dezenas de comentários vagos e inúteis sobre a possível saída de um membro do governo, que nem mesmo ainda se confirmou mas já foi dada como coisa certa e factível, motivo para crucificar os envolvidos mesmo sem conhecimento de causa. O que é isso, senão a curiosidade corroendo a humanidade?

Assim continua São Bernardo:

Desconhece-se a si mesma [a alma], com efeito, e por isso é lançada fora para que apascente os cabritos. […] O curioso, com efeito, entretém-se em apascentar tais cabritos, ao passo que não se preocupa com conehcer seu próprio estado interior.

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

O que se perde com o coração tomado pela curiosidade? Se perde o cultivo da própria vida e alma, e a resolução dos seus próprios conflitos e dilemas. Lá se vai o seu tempo, seu amadurecimento e sua prosperidade. Você deveria estar acumulando virtudes, forças e habilidades, mas está perdendo tudo isso. E por que perdendo? Porque nessa escada não é possível se manter parado. Você está sempre descendo ou subindo, é o que diz São Bernardo.

Devemos nos perguntar então pelo remédio para tal enfermidade moral… Ora, o remédio não é outro senão apascentar os próprios pensamentos. É a centralidade da psyche. É necessário assumir esse auto-compromisso com a vida interior, do contrário toda a nossa vida será uma mera reação e nunca um ato autêntico de amor. E assim, deixaremos de refletir a imagem do próprio Deus – aquele que é ato puro e, por isso, é perfeito e eternamente feliz em Si mesmo.

Que fiquemos com os conselhos de São Bernardo:

Curioso, escuta a Salomão; escuta, néscio, ao sábio: “Acima de toda custódia, custodia teu coração” [Pv 4:23], de modo que todos os teus sentidos vigiem a fim de custodiar aquilo de onde brota a vida. Curioso, aonde vais quando te afastas de ti? A quem te confias durante esse tempo?

São Bernardo de Claraval, Os graus da humildade e da soberba, Editora Concreta 2016.

Thomas Watson sobre a Alma Humana (Psyche)

No último artigo comentei sobre um importante texto em que Thomas Watson revela seu apreço por uma teologia natural construída a partir da anatomia e da medicina. Nesse texto, o autor nos revela agora uma teologia natural da alma, e não mais do copro, construída a partir da psicologia pré-científica¹.

b. a alma do homem

Isto é o homem do homem. O homem, com relação à sua alma, tem parte com os anjos. Mais ainda, como diz Platão, o entendimento, a vontade e a consciência são um espelho que remete à Trindade. A alma é o diamante no anel, é um vaso de honra; o próprio Deus se serve desse vaso. É uma centelha do brilho celestial, diz Damasceno. Davi admirou a estrutura extraordinária e a feitura de seu corpo: “por modo assombrosamente maravilhoso me formaste… entretecido como nas profundezas da terra” (Sl 139.14,15). Se o porta-jóias foi tão maravilhosamente formado, o que dizer da jóia? Quão magnificamente foi entretecida a alma. Desta maneira se pode ver quão gloriosa é a obra da criação, especialmente o homem, que é a epítome do mundo.

Thomas Watson – A Fé Cristã – Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster, Ed. Cultura Cristã 2009, p.143.

Gostaria de tecer alguns comentários acerca das frases do autor que se encontram em negrito.

Em primeiro lugar, notamos que Watson assume o princípio da analogia entis como forma legítima de conhecer a alma humana, a psyche. Sendo assim, para Watson, uma psicologia baseada em conhecimentos naturais é perfeitamente cabível. Existe uma analogia e uma hierarquia entre os seres, que vai desde o próprio Ser por exclência, passando pelos anjos e pelos homens até chegar no mundo das plantas e dos animais. De fato, o próprio Espírito Santo falando nas Escrituras afirma: “Vós sois deuses” (Sl 82.6), e também “que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (Sl 8.4,5). No entanto, o homem, em muitos aspectos, é bastante semelhante aos animais, em corpo e alma, como se verá mais adiante.

Watson segue citando Platão e sua divisão clássica das faculdades superiores da alma – entendimento (razão), vontade e consciência. Alguém pode perguntar: mas e os afetos (ou sentimentos)? Por que Thomas Watson não os cita? Ora, o motivo já fora dado na frase anterior. Ele está tratando daquilo em que a alma humana se difere da alma animal e se assemelha aos anjos. Veja você que, para Watson, asssim como para a maioria dos puritanos, o que nos difere dos animais são essas faculdades: razão, vontade e consciência (alguns não entendiam a consciência como uma faculdade diferente da razão). Já aqui erige-se todo um arcabouço psicológico infinitamente superior ao que têm sido proposto em muitas escolas modernas de psicologia.

Por último, notamos no texto em questão que Watson parece ser um platonista em sua psicologia quando utiliza uma linguagem que lembra bastante o esquema platônico “corpo como casa da alma”. É difícil avaliá-lo, uma vez que essa linguagem se popularizou de maneira muito forte no cristianismo devido aos escritos de Santo Agostinho, este sim um fiel platonista em sua psicologia. No entanto, platonista ou aristotélico, Watson reconhece uma hierarquia interior do ser onde a razão e a vontade devem reniar, e o princípio da analogia entis, tão caro a uma boa psicologia.

FINIS

[1] O termo psicologia pré-científica designa todo o conhecimento milenar produzido sobre psicologia antes do advento da ciência moderna. Segundo Izabel Ribeiro Freire, tal período data do século VI a.C até 1879 (Cf. Izabel R. Freire, Raízes da Psicologia, Ed. Vozes 15ºEd 2014, p.17).